Erwin Blumenfeld ganha exposição em SP

Erwin Blumenfeld ganha exposição em SP

Fotos de moda clicadas pelo alemão são os destaques

Flavia Guerra, O Estado de S. Paulo

20 Outubro 2014 | 03h00

Afirmar que a partir do dia 28 o público de São Paulo vai poder conhecer diversas facetas de Erwin Blumenfeld, um dos mais importantes fotógrafos do século 20, é o que se pode dizer ao anunciar a abertura da exposição Blumenfeld Studio: New York, 1941 – 1960, que ocupará o Museu de Arte Brasileira, da Faap até janeiro de 2015. 

No entanto, para ser mais próximo do que o próprio Blumenfeld queria para si, é necessário afirmar que, com curadoria de Danniel Rangel e de Nadia Blumenfeld, neta do artista, a exposição é rara oportunidade de se conhecer a obra de um grande amador. “Eu era um amador. Eu sou um amador. E pretendo continuar um amador. Para mim, um fotógrafo amador é alguém que ama tirar fotos, uma alma livre que pode fotografar o que ele gosta e quem ele gosta do que ele fotografa. Por esta definição, sou um amador”, escreveu ele em sua autobiografia Eye to I, lançada em 1999.

Pois esse eterno amador, apaixonado pela beleza, morto em 1969 ao 72 anos, começou sua carreira profissional muito cedo, em sua Alemanha natal. 


Nascido em Berlim no final do século 19, começou a fotografar quando ganhou uma câmera na adolescência. Na Holanda, onde viveu até a 2ª Guerra, participou da criação do movimento dadaísta e se tornou famoso por suas colagens que desafiavam a ordem vigente de uma Europa que ainda se recuperava da 1ª Guerra Mundial. 

Na França, para onde se mudou em 1935, tornou-se um dos fotógrafos de moda mais renomados da Europa. Seus ensaios buscavam muito mais que garotas apenas belas, mas investigavam as formas femininas e seus mistérios. Já em Nova York, para onde se mudou em 1941 fugindo do nazismo, consagrou-se como artista. Mais que editoriais de moda para grandes revistas como Vogue e Harper’s Bazaar, suas fotos coloridas, que misturavam técnicas, referências artísticas e visão ousada de mundo, até hoje influenciam artistas de todo o planeta. 

São estas diversas facetas deste grande amador, que Blumenfeld Studio: New York, 1941 – 1960 apresenta. Além disso, como o nome da mostra anuncia, destaca principalmente a fase americana de sua carreira. “Foi uma das mais produtivas e ricas de sua trajetória. Os Estados Unidos do pós-guerra estavam em ebulição, com vida artística, intelectual e econômica a pleno vapor. Contratado pela revista Harper’s Bazaar, ele começou sua produção criativa, bem humorada, experimental e ao mesmo tempo popular”, explica Danniel Rangel, eterno fã do trabalho de Blumenfeld, principalmente de suas colagens dadaístas. 

“Conhecia melhor essa face dele. Mas certo dia, em uma conversa com Willy Rizzo (fotógrafo italiano, falecido em 2013, que teve uma retrospectiva de seu trabalho organizada no Brasil por Rangel em 2012, no Mube), quando o convidei para ver uma mostra das colagens de Blumenfeld em Nova York, ele, aos 80 anos, revelou que tinha decidido fotografar moda por causa do Blumenfeld”, diz Rangel. 

“E comecei a pensar muito não em seu trabalho dadaísta, mas de moda. E aí, já em Paris, algum tempo depois, me deparei com um cartaz do museu Nicéphore Niépce com as fotos que Blumenfeld fez em Nova York, entre 1940 e 1960”, acrescenta o curador. 

“Essa foi a era da imagem. A grande musa americana, Marilyn Monroe, os grandes ícones, foram construídos com a fotografia. Quando Blumenfeld lá chegou, agregou sua bagagem a este contexto. Foi o primeiro grande fotógrafo a levar para o mainstream a arte dadaísta, a direção de arte, antes restritas a coleções, galerias. Até hoje é atual. Eu tinha que trazer isso para o Brasil. Fui atrás do museu, de sua neta. E assim tudo começou”, lembra o curador. 

Nadia, a neta, não só aprovou a ideia como também se tornou parceira de Rangel. “O mágico do branco e preto, como ele era chamado em Berlim, se transformou no mágico das cores em Nova York. Seu estúdio foi tomado por luzes coloridas, por cabeças multicoloridas de Diane de Houdon, folhas de vidro riscados ou opacos, manequins, espelhos, molduras, objetos de cena, telas, laços coloridos”, comenta a curadora, que vem ao Brasil para a abertura da exposição. 

“Meu avô sempre tentou inserir a arte em suas fotos. Tanto nas que ele criou para grandes publicações de moda, como a Vogue e a Harper’s Bazaar, e para a publicidade, quanto para as criações pessoais. É incrível observar como não envelheceram”, explica ela, que ressalta o trabalho do Museu Nicéphore Niépce, da França, que digitalizou 650 originais do artista. “O frescor e a juventude dessas imagens puderam ser totalmente recuperados. Tenho certeza que meu avô, que odiava ver o efeito do tempo e da idade no rosto de belas mulheres, assim como nele mesmo, teria aprovado esta reversão rara no processo de envelhecimento de suas fotos”, acrescentou. “Esta exposição ser apresentada no Brasil faz todo sentido, pois é um país jovem e cheio de entusiasmo.” 

Quem visitar a mostra vai poder conferir mais de 90 obras icônicas do fotógrafo, como a capa da Vogue em apoio à Cruz Vermelha. “Era durante a guerra. Imagina hoje uma capa assim, politizada, engajada”, analisa Rangel. “A Picasso Girl é também fantástica, à frente de seu tempo. Assim como as fotos em preto e branco. A Wrap Woman é quase uma escultura. Ele levou a arte para a moda, para as bancas de jornal e para o mundo”, conclui o curador. 

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