Erudita,mas popular

A música clássica parte em busca de novo público, repensando a experiência do concerto ao vivo e apostando na internet como ferramenta de divulgação

João Luiz Sampaio, O Estadao de S.Paulo

11 de abril de 2009 | 00h00

É um conto tão antigo quanto o próprio tempo. Aconteceu na primeira metade do século 20. Após perder sua hegemonia como forma de entretenimento caseiro, naquela época em que a diversão familiar costumava ocorrer em torno do piano, a música erudita refugiou-se nas salas de concerto. Até que a tecnologia de gravação a levou de volta, por meio dos discos, ao cotidiano das famílias. Foram décadas de parceria bem-sucedida. Mas os teatros começaram a ficar vazios. O que valia era o CD. Nos últimos anos, porém, foi a vez de a indústria fonográfica entrar em crise, com queda nas vendas e cancelamentos de contratos um dia milionários. Alguns autores foram categóricos: a música clássica havia morrido. Devagar com a procissão. Uma nova geração de intérpretes está procurando mostrar que ainda há vida para os clássicos, redefinindo o papel do concerto ao vivo e embarcando na onda de novas tecnologias.A guerra está sendo travada em duas frentes. Na primeira, o esforço é pela reinvenção da experiência do concerto ao vivo; na segunda, o que se arquiteta são maneiras de levar esta produção a um público cada vez maior, extravasando os limites dos teatros. Dois concertos previstos para este mês em São Paulo são exemplos do primeiro caso. Na terça, o Mozarteum Brasileiro promove uma Gala Haendel em que o próprio compositor estará no palco, interpretado pelo ator Sergio Viotti, oferecendo ao público o contexto de criação das peças programadas; no final do mês, quem sobe ao palco da Sala São Paulo é Hector Berlioz, interpretado por Marco Ricca, pelo Cultura Artística. Já da busca por novos públicos um exemplo recente é a transmissão para os cinemas das produções do Metropolitan Opera de Nova York, iniciada há dois anos nos EUA e na Europa e cuja renda da bilheteria já é suficiente para bancar a totalidade do projeto. No Brasil, ele chegou em janeiro, com uma sessão no Rio - quatro óperas depois, Madama Butterfly, de Puccini, teve, em março, 94 sessões, espalhadas por 33 salas Brasil afora. "Não se trata apenas de alcançar um público mais amplo. A transmissão no cinema devolve a ópera ao cotidiano das pessoas, ela passa mais uma vez a ser algo próximo do público", disse o diretor-geral do Met, Peter Gelb, em entrevista recente ao Estado. "Partimos do pressuposto de que há muitas coisas curiosas a serem descobertas sobre a música clássica", diz o maestro norte-americano Michael Tilson Thomas em entrevista ao San Francisco Gate. Ele é tido nos EUA como o "salvador" do gênero. Diretor da Sinfônica de São Francisco, ele criou o Keeping Score, que prevê apresentações antes dos concertos, contextualizando as peças a serem executadas, e grava ao vivo as récitas, lançadas mais tarde em DVD no qual cada passagem ganha explicação detalhada. "É preciso falar para o público sobre o que está por trás de um concerto e, claro, do que trata uma peça específica, a época em que foi escrita. É divertido ouvir um concerto e de fato compreender como a música funciona", completa.Iniciativas como essa, explica Tilson Thomas, têm como objetivo quebrar a aura de formalidade que cerca os clássicos. Em outras palavras, a noção é de que uma sala de concertos pode ser um espaço vibrante. "Nunca duvidei que esta música é um direito de nascença de todas as pessoas - assim como a natureza, os esportes, a comida. Isso não quer dizer que todos amem os esportes ou estar em meio à natureza, mas é difícil resistir a esse prazer se você consegue encontrar um guia entusiasmado que explique as regras e envolva você em seus mistérios. O regente é um vigário. Precisa garantir que seu público esteja de volta no próximo domingo", explica o maestro inglês Benjamim Zander, diretor da Filarmônica de Boston e um dos pioneiros da prática de introduzir concertos com conversas entre músicos e membros da plateia.Em essência, o que a música erudita busca é uma maior aproximação com o público - e, portanto, com sua época. Nesse sentido, é preciso aprender novos idiomas. Se o DVD e o cinema são linguagens possíveis, nenhuma é mais hegemônica, no entanto, que a internet. E, no mundo virtual, os clássicos entram com força surpreendente. Pesquisa da NielsenSoundscan mostra que em 1990 eles representavam 3,1% do total de discos vendidos; 16 anos mais tarde, queda para 2,4%. Já nos downloads, a realidade é muito diferente. Em 2005, o setor representava 12% do total de faixas baixadas e, em 2008, o número já chega a quase 15%, sendo o gênero que mais cresceu nos últimos anos em procura. "Todo mundo ganha. Para o neófito, é um sistema de risco baixo, pois é fácil e barato fazer o download; para o especialista, há a oportunidade de ampliar sua coleção com versões alternativas de suas peças preferidas", disse ao jornal The Guardian Jonathan Gruber, da gravadora Universal.Não por acaso, o Keeping Score já chegou à internet; e selos tradicionais, como o alemão Deutsche Grammophon, decidiram colocar praticamente todo o seu acervo disponível para download. "Vivemos um momento estimulante de diálogo entre a produção ao vivo e a gravada", diz o maestro John Elliot Gardiner, diretor do English Baroque Soloists. Seu projeto é pioneiro. Você assiste a um concerto do grupo e, se gostar, pode já no intervalo comprar uma senha que, dias mais tarde, vai lhe permitir fazer o download da apresentação. Há cerca de um mês, a mais famosa orquestra mundial, a Filarmônica de Berlim, também entrou na onda e criou um sistema, em seu website, que permite ao internauta assinar a temporada de concertos da orquestra, que vai acompanhar pela internet. "Nosso passado é de glórias, mas precisamos olhar para o futuro", disse na coletiva de anúncio da Digital Concert Hall o maestro Simon Rattle sobre a filarmônica. Poderia estar falando de todo um gênero. NÚMEROS1,25 milhãode pessoas já assistiram em todo o mundo às transmissõespara o cinema de óperas do Metropolitan Opera House,de Nova York, projeto criado no segundo semestre de 200713 milpessoas já acompanharam as transmissões no Brasil desde o início do projeto, em janeiro. A última ópera foi exibida, em março, em 33 salas de todo o País2,4%do total de discos vendidos em 2007 correspondem a lançamentos e reedições de música clássica e ópera15%do total de downloads feitos em todo o mundo correspondem a faixas de artistas clássicos75%do total das vendas do novo disco da violinista Janine Jansen, com as célebres Quatro Estações, de Vivaldi, lançado pela Universal, foram feitas por meio de downloads1,4 milhãode internautas fizeram o download das nove sinfonias de Beethoven, disponibilizadas gratuitamente no site da BBC Radio 3 durante duassemanas em 2007

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