Eram duas caveiras que se amavam

Cumplicidade entre José Mojica e Alexandre Herchcovitch se reflete nos figurinos do aguardado A Encarnação do Demônio

Entrevista com

Luiz Carlos Merten, O Estadao de S.Paulo

06 Agosto 2008 | 00h00

Nove entre dez pessoas dirão que Audrey Hepburn é o exemplo máximo da moda no cinema, mas Alexandre Herchcovitch sabe que a alta-costura na tela não vive só do glamour da bonequinha de luxo. "Não sei se algum filme de terror ganhou o Oscar, mas o figurino é fundamental na criação do clima." Pegue o exemplo de A Família Addams - "Mesmo que não seja terror puro, o figurino da Mortícia foi uma coisa que marcou", ele diz. A proposta da produção de A Encarnação do Demônio era para que Herchcovitch fizesse as roupas de Zé do Caixão e também as das suas noivas e a da morte. As ?noivas? são as mulheres que os capangas de Zé seqüestram enquanto ele busca a parceira ideal para gerar o filho perfeito - obsessão que persegue o herói satânico desde os anos 60. A ?Morte? é Geanine Marques, musa do estilista. Assista ao trailer do filme A Encarnação do Demônio no site Ao contrário de outros criadores de moda, Herchcovitch se preocupa com a memória e mantém um acervo pessoal com suas criações antigas. As roupas das noivas foram retiradas de coleções darks do começo de sua carreira. O figurino do personagem de José Mojica Marins foi mantido, mas agora com acabamento superior. Não contou muito o fato de ele ser judeu e Zé do Caixão um personagem marcado pela repressão do cristianismo. "Tenho idéias muito próprias sobre religião. Quando as pessoas começam a depender demais dela, alguma coisa está errada." Não houve problema nenhum em manter os signos , como a cruz invertida e o escaravelho, que tanto atraem Mojica. A cumplicidade entre ambos foi tão grande que Herchcovitch até fez uma ponta no longa. Aliás, não é a primeira vez que ele vai para a frente das câmeras, como ator. Herchcovitch já fez novela, na Globo, com direito a texto decorado e não representando o próprio papel, em Desejos de Mulher. Na Encarnação, aparece logo no começo, depois que Zé do Caixão sai da cadeia. A câmera acompanha o personagem num passeio pela degradação da cidade grande. Passa por mendigos, crianças que cheiram cola e chega a uma rua povoada de travestis. Herchcovitch é um deles, com o amigo Johnny Luxo. "A filmagem foi rápida. Demorou mais para montar a personagem, colocando as roupas, a maquiagem." Depois de A Encarnação do Demônio ele fez os figurinos do inédito À Deriva, novo longa de Heitor Dhalia, de O Cheiro do Ralo. A parceria com a O2 começou em Ensaio Sobre a Cegueira, que Fernando Meirelles adaptou do romance de José Saramago. "A O2 entrou em contato comigo pedindo autorização para utilizar a marca numa cena de loja do Ensaio. Terminei fazendo uma ponta. No caso de À Deriva, outra produção da O2, não sei se por que achavam que eu seria caro, me chamaram para fazer apenas algumas roupas. Disse que só aceitava se fizesse todas, até a do menino da pipoca, se houvesse algum." O filme passa-se em Búzios, nos anos 80. Herchcovitch resgatou camisetas e shorts que usava na época. "Criei uma mala básica para cada personagem, como se eles estivessem viajando. Nada de 30 biquínis, o que seria falso. Uma meia dúzia, como as pessoas levam. Heitor (Dhalia) gostou da idéia." De novo, como no caso de A Encarnação do Demônio, ser pautado foi salutar para ele. Herchcovitch está cheio de idéias. Não se admire se, depois da aura Disney da coleção Hello Kitty e do tom sinistro - de suas origens - de Zé do Caixão, ele for se alimentar da moda dos anos 80.

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