Era operário do pincel, mas tocou até pandeiro...

Foi do bando de Carmem Miranda, que o demitiu, para sorte das artes plásticas, que ganhou um mestre

Jotabê Medeiros, O Estadao de S.Paulo

26 de junho de 2009 | 00h00

Argentino da província de Lanús, nascido em 1911, Carybé correu o mundo antes de assentar praça na Cidade da Bahia. Viveu em Gênova, em Buenos Aires, no Rio de Janeiro, entre outros lugares. Não só correu o mundo como tentou vários caminhos: foi escoteiro, decorador de clube de carnaval, jornalista, ilustrador de jornais e até (pasme!) pandeirista de Carmem Miranda, que o demitiu após notar que o talento do rapaz provavelmente não estava naquele métier.Mas foi após uma segunda demissão, do jornal El Pregón, onde atuou como uma espécie de ilustrador-repórter, que ele resolveu levar a sério a carreira de artista. Em 1939, realizou uma primeira exposição no Museo Municipal de Bellas Artes de Buenos Aires. Entretanto, não acreditava na condição do "artista como cigarra", detestava as facilidades."Sou um operário do pincel, trabalho uma média de 14 horas por dia e não me desligo. É um trabalho que continua na cabeça, de noite. A famosa vida de artista é filha da mãe de trabalho, não tem nada a ver com o que o pessoal pensava em 1890, de Toulouse Lautrec, de farras, música e cabaré. O que existe é trabalho, treino, porque se você para de trabalhar, esquece, perde a prática. Para mim, inspiração é o dia em que amanheço melhor e as coisas saem com mais facilidade. Artista tem que dormir as horas necessárias e se alimentar bem."Por conta dessa ideia, Carybé não negava fogo, fazia de tudo. Em 1952, ele também esteve em São Paulo, convidado para fazer o storyboard do filme O Cangaceiro, de Lima Barreto. Fez 1,6 mil desenhos de cena, e há quem diga que esse foi o primeiro filme nacional desenhado cena a cena. Também fez ponta no filme. Desenhou as ilustrações do livro O Gato Malhado e a Andorinha Sinhá, de Jorge Amado; presenteou a Rainha Elizabeth 2ª, da Inglaterra, como a obra Cavalos; desenhou bichos, índios e pássaros na fuselagem de aviões.Sua carreira tornou-se sólida em pouco tempo. Em 1961, foi homenageado com sala especial na 6ª Bienal de São Paulo - mesmo ano em que iniciou a publicação de uma série de crônicas e reportagens no Jornal da Bahia, que assinava sob o pseudônimo de Sorgo de Alepo."Não é tão conhecido na Argentina porque já tinha ido embora há muito tempo quando se tornou famoso. Não há grandes obras dele lá", diz María Picabea, jornalista do jornal Clarín, que veio a Miami para a reinauguração do painel de Carybé - o nome Carybé ele tirou de um peixe amazônico, mas é também a denominação que se dá na Bahia a um mingau servido a mulher que acabou de dar a luz.Carybé tinha grande predileção pelos espaços públicos, praças e logradouros, mas Renato Martins, diretor da Construtora Odebrecht e responsável pela publicação, em 1989, do livro que é uma espécie de catálogo raisonné da obra do artista, diz que havia também uma circunstância que o favorecia em Salvador. "A legislação municipal na Bahia, há muitos anos, recomendava que deveria haver um painel artístico nas obras. Era uma época rica, de pessoas fantásticas, e ele se destacava não só pelos temas, o universo dos deus africanos e do povo da Bahia, mas pelo grande talento".

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