''Era 1964 e ninguém queria saber de risos, só de engajamentos políticos''

Domingos Oliveira ouviu surpreso o pedido de liberação de direitos autorais para a montagem paulistana de A História de Muitos Amores. "Foi minha primeira peça profissional, ninguém nunca mais se interessou por ela." Ele próprio dirigiu o espetáculo que estreou no dia 8 de janeiro de 1964 no Teatro Maison de France, no Rio, com equipe grandiosa - Sérgio Britto, Napoleão Moniz Freire (1928-1971), Milton Moraes (1930-1993), Yan Michalski (1932-1990), entre outros no elenco -, Leila Diniz (1945-1972) na assistência de direção e cenário de Gianni Ratto (1916-2005). Detecta a influência do cineasta Ingmar Bergman na atmosfera da peça, especialmente do filme Sorrisos de uma Noite de Amor (1955), e do dramaturgo romântico Alfred de Musset (1810- 1857). Mas se inspirou mesmo em Sérgio Britto ao criar Portobello. "Ele é o cara. Convivi muito com ele mais tarde. Uma vez me disse uma coisa que desde então me serve na vida: um homem tem de ser maior do que o seu sofrimento. E ele é assim, um homem capaz de suportar qualquer revés", diz Domingos. "Minha formação verdadeira não é de escola, mas do Grande Teatro Tupi", afirma sobre o programa de teleteatro dirigido por Britto. "Provocava medo e fascínio acompanhar aqueles caras perigosíssimos. Vi todo o Ibsen, Pirandello, O?Neil. Eu era amador e ia até lá na TV pedir ao Sérgio para ler os meus textos. E toda vez era a mesma coisa, a peça da semana era a melhor do mundo, e ele realmente sentia assim. Ele era muito inteligente, mas tinha uma certa ingenuidade com a criação, como Portobello - um amor tão grande pelo que faz que não consegue enxergar ao redor. Por isso, apesar de eu ser um garoto, meu entusiasmo o convenceu a atuar na minha peça. E foi um fracasso. A época, pouco antes do golpe militar, era inadequada. E eu não sabia dirigir. Botei todo o meu dinheiro na montagem e tomei prejuízo. Perdi tudo."

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