Epitáfio para um velho continente

Em Os Últimos Dias da Europa, Walter Laqueur faz diagnóstico profundo sobre o lado mais escuro da unificação européia

Elias Thomé Saliba, O Estadao de S.Paulo

19 Janeiro 2008 | 00h00

Edward Gibbon dizia que o Império Romano estava condenado à autodestruição pelo seu próprio sucesso. Já Oswald Spengler, sem a elegância e a erudição de Gibbon, vaticinou a queda do Ocidente pela perda de vigor da cultura européia, sintetizando-a na inquietante frase tomada de Sêneca: "O destino guia os predispostos e arrasta os de má vontade." Para explicar fenômenos de queda e decadência das sociedades, o historiador do século 21 precisa ultrapassar tanto o moralismo racionalista de Gibbon quanto a lamúria apocalíptica de Spengler. O experimentado Walter Laqueur parece muito consciente disso em Os Últimos Dias da Europa - Epitáfio para um Velho Continente - um prognóstico sólido e iluminador dos lados mais escuros da unificação européia (com tradução de André Pereira da Costa). A primeira parte do diagnóstico poderia ser resumida na história da ascensão e queda da população da Europa. A forte retração populacional pela acentuada queda da natalidade já era tendência tida como típica do século 21, mesmo nos cenários mais otimistas: até 2050, as perdas projetadas giram em torno de espantosas cifras de 15% a 20% da população de quase todos os países, incluindo a Rússia. Já a segunda parte do diagnóstico é bem mais sombria: a descontrolada imigração das últimas décadas já produziu novas gerações social e culturalmente não assimiladas e, nalguns casos, fortemente marginalizadas. O Acordo de Schengen - de 1985, que aboliu grande parte dos controles de fronteira entre os países europeus - criou inúmeras facilidades de deslocamento, mas também transtornos, pois, desde que um imigrante pusesse um pé em algum país, poderia movimentar-se livremente para outro. O fim da concessão de licenças de trabalho também não diminuiu a imigração, já que a quantidade de dependentes, trazidos do Paquistão, Turquia e norte da África - legal ou clandestinamente - cresceu em progressão geométrica. Os que dizem que, no final do século 21, "a Europa será islâmica" podem exagerar, mas eles não tiram seus olhos dos números: os dados de 2006 relativos às comunidades islâmicas na Europa apontam 5 milhões na França, 3,6 milhões na Alemanha, 1,6 milhão na Grã-Bretanha, 1 milhão na Espanha e uma média de meio milhão em países como Holanda, Suécia, Dinamarca, Itália, Grécia, Bélgica e Áustria. Um ministro da Justiça da Holanda não chegou nem perto da ironia, quando declarou: "Se a maioria dos holandeses optar, no futuro próximo, pela sharia - teremos que respeitar tal decisão." Laqueur não chega ao simplismo de defender que as sociedades européias autoconfiantes deveriam ter fechado suas portas hermeticamente a todos os imigrantes, mas, argumenta que esses deveriam ter sido direcionados para o trabalho produtivo em vez de se tornarem clientes dos serviços de bem-estar social e de outros auxílios do welfare state desde o dia em que chegaram. Sem concessões à ligeireza, Laqueur apresenta argumentos característicos de um historiador experiente, descrevendo com paciência e com amplo conhecimento os impasses específicos e muito peculiares da França, Alemanha, Inglaterra, Itália, Espanha e Rússia. Remando contra a maré das presunções tidas como "politicamente corretas", Laqueur destrói sobretudo os argumentos autocomiserativos, segundo os quais, o fracasso da integração de turcos, paquistaneses e argelinos é de responsabilidade das sociedades européias que não demonstraram boa vontade com os imigrantes e não investiram os recursos necessários para ajudá-los em matéria de habitação e de educação. Disseca ainda as identidades possíveis dos imigrantes, demonstrando que, em face da miríade de seitas muçulmanas não há monolitismo - mas também inexiste qualquer desejo de integração; o tema da identidade étnica sequer aparece entre os jovens da segunda geração de imigrantes já que eles não se sentem em casa nem na pátria dos seus pais nem no país onde vivem. O resultado deste dezenraizamento gerou enorme potencial explosivo: os locais em torno de Paris onde vivem muitos muçulmanos imigrantes e que explodiram em novembro de 2005 mostraram uma única bandeira de luta: o de deixar cicatrizes em tudo que se encontre ao seu redor - em revoltas do tipo "estouro de boiada". Até líderes religiosos fundamentalistas têm tido pouca receptividade - e alguns sequer podem ser entendidos pelos mais jovens. Laqueur afirma que para entender a violência nas ruas e nas escolas nos arredores de Paris ou em Kreuzberg (bairro com predominância de turcos em Berlim) um manual de delinqüência juvenil pode ser bem mais útil que o Alcorão. Na Alemanha, alunos filhos de imigrantes turcos literalmente não compreendem nada do que estão ouvindo e não fazem o menor esforço para compreender. Ignoram até o idioma funcional - e professores que ousem puni-los por mau comportamento são acusados de racismo e discriminação. Os alunos das novas gerações formam-se nas ruas e são muito ruins em tudo que se refere à cultura, exceto na sua luta encarniçada em torno de único refrão: "Esta rua (ou bairro) é nossa." Quanto ao fundamentalismo e ao radicalismo religioso nos anos vindouros, Laqueur arrola inúmeros motivos para demonstrar que tendem a perder ímpeto. Dissidências internas são as mais evidentes, mas as doutrinas não mais conseguem penetrar nas camadas jovens. O radicalismo da nova geração pode até se manifestar em termos religiosos, mas há dúvidas de que a sua inspiração seja autenticamente religiosa. Na Europa, líderes religiosos muçulmanos já se queixam do pouquíssimo conhecimento sobre o Islã nas novas gerações, bem mais próximas da cultura do rap e do hip-hop. Na própria Arábia Saudita, em 2005, segundo dados das próprias autoridades sauditas, 92% das pessoas acessaram, pela internet, conteúdos "proibidos" pela sharia, que nada tinham a ver com ateísmo, mas com pura pornografia. No passado recente, muitos líderes fundamentalistas acharam fácil colocar no ostracismo todas as ideologias ocidentais - do liberalismo ao marxismo -, mas hoje parecem completamente impotentes em relação ao cenário pop e ao futebol. Criação de Estados binacionais? Resgate de funções mais racionais para o welfare state? Formulação de condições mínimas para uma coexistência pacífica ou menos conflituosa? É curioso perceber que quanto mais profundos e críticos os diagnósticos de um historiador, mais profusas são as alternativas e as possíveis soluções que ele apresenta. E elas são discutidas com lucidez e extraordinária sensibilidade por Laqueur, num livro cujo subtítulo é apenas uma forte metáfora para chamar a atenção. E se os prognósticos parecem corretos, o compasso das mudanças históricas pode bater em ritmos mais lentos ou, até, virar noutras direções. Mas uma coisa é certa: a Europa jamais será a mesma - e apenas diagnósticos sólidos como os de Laqueur podem afastar de vez as sombras agourentas de Gibbon e Spengler. Elias Thomé Saliba é historiador, professor da USP e autor, entre outros, de Raízes do Riso

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