Epílogo

23h39. Ela abriu a porta do quarto e saiu. Olhou na bolsa o celular desligado. Voltou para pegar na pia do banheiro o anel de prata, que sempre tira quando lava as mãos. Ele, esparramado nu na cama, dormia. Ela deu um tchau com a mão direita, sem falar nada.23h41. No corredor do flat, ligou o celular. Chamou o elevador. Olhou o visor do aparelho. A campainha do elevador tocou.23h42. Entrou e apertou o térreo. Ele desceu um andar e parou. Ficou apreensiva. Entrou um casal jovem, bêbado. Nem a cumprimentaram. Ela se encostou na parede e voltou a apertar o térreo, apesar de a luz do botão estar acesa. Olhou o celular. Ainda nenhuma informação sobre mensagens de texto ou recados. O elevador fechou a porta. Reconheceu o rapaz que tentava beijar a garota: um dos advogados que trabalham no andar acima do seu escritório. Que agarrou a garota por trás e colocou as duas mãos nos peitos dela, que deu uma cotovelada na barriga dele. Ambos riram e olharam para a terceira passageira. Comportaram-se. Ele no canto, abraçando a sua garota por trás, que pediu:''''Aperte o térreo.''''''''Já está.''''''''Obrigado.''''O rapaz começou a beijar o pescoço da garota, que inclinou a cabeça.''''Oi'''', ele disse.''''Oi'''', ela respondeu.''''Você conhece?'''', perguntou a garota.''''Não'''', ele respondeu.Ela sentia como se quisessem ler os seus pensamentos. Alguém tem poderes para isso? Era como se ambos estivessem concentrados, esforçando-se para roubar os seus segredos. Como enxadristas russos. Ela abaixou a cabeça. Imaginou o que esse garoto vai contar para todo o escritório. O que aquela mulher, que fuma depois do almoço, fazia num flat?! Vai contar para todo o bairro. Ela olhou o visor do celular. O elevador desacelerou. Abriu a porta. Nenhuma mensagem de voz ou de texto. Ótimo. Será que estou desarrumada? Saiu num pulo.23h44. Olhou-se no espelho do hall. Só o cabelo desarrumado. ''''Me chama um táxi, por favor'''', pediu ao segurança encostado na porta giratória. O cara apontou para o lado, onde um taxista com o seu táxi estacionado dormia no banco do motorista. Como são mal-educados. Ela odeia aquele flat. Vai sugerir, por e-mail, para ele se hospedar em outro lugar. Tantas opções na cidade. Ela ficou ao lado da porta traseira do carro, esperando o segurança abri-la. Mas o teimoso não o fez. Deu três tapinhas no capô, acordando o motorista que, ao vê-la, abriu a porta por dentro. ''''Mário Ferraz, por favor'''', ela disse ao entrar. Sem querer, bateu a porta. O taxista olhou irritado. Deu a partida. Por que ela está de mau humor, perguntou-se? Deu tudo certo. Por que você sempre sai mal-humorada desse flat? Por que será?Tirou um espelho da bolsa e se penteou como pôde. Tirou um cigarro da bolsa. ''''Desculpe, mas não pode fumar'''', o motorista deu o troco. Ela guardou o cigarro e pediu: ''''Pode aumentar a música?'''' Ele demorou, mas obedeceu. Ela cantou baixinho, junto: ''''Silêncio por favor, enquanto esqueço um pouco a dor no peito. Não diga nada sobre os meus defeitos. Eu não me lembro mais de quem me deixou assim. Hoje eu quero apenas uma pausa de mil compassos...''''Abriu a janela. Sentiu o vento úmido. Reparou que chovera muito. Enquanto ela estava trancada no quarto, rolou uma tempestade. Nem percebera. Poças, carros molhados, galhos caídos, faróis piscando no amarelo. Uma árvore caída interrompia o trânsito nos Jardins. Sentiu-se culpada: a cidade vivendo um caos, e ela num quarto de flat. ''''Porque hoje eu vou fazer, ao meu jeito eu vou fazer, um samba sobre o infinito...''''0h15. Chegou ao estacionamento em que deixara o carro, perto da Casa do Saber. Pagou o táxi. Acendeu um cigarro ainda no banco traseiro. Tragou com prazer. De repente, percebeu o portão do estacionamento trancado por um cadeado. Viu apenas o seu carro, solitário, no fundo do pátio. Desesperada, correu até a Casa do Saber, também fechada. Chamou o segurança da esquina.''''Moço, meu carro ficou lá dentro!''''''''Está fechado.''''''''Fechado? Mas olha a placa, 24 h HORAS.''''''''Fechado. Fecha à meia-noite. Às 24 h'''', e fez aquela cara que todo segurança faz, quando não pode ajudar.Então, desprotegida, ela começou a chorar. Encostou numa mureta e chorou muito. Ele pegou um celular-rádio. Atendeu o manobrista do estacionamento, já no ponto da Rebouças, esperando o busão para Taboão da Serra. Não adiantaria voltar e abrir o cadeado, o sistema de cobrança estava desligado. Ela voltou a chorar desesperada, enquanto o segurança tentava convencê-lo.0h27. Chegou o manobrista com a chave. Ela teve vontade de abraçá-lo, pular, dançar. Mas sorriu envergonhada, como se uma criança tivesse sido liberada de um castigo, depois de ouvir um sermão. Deu uma nota de R$ 50. Ele recusou. Pediu apenas que pagasse o valor de R$ 10; turno da noite.0h47. Ela entrou em casa sem fazer barulho. Deixou a apostila do curso que não fez da Casa do Saber sobre a mesa de jantar. Colocou água na chaleira. Correu para ver o filho. Ele dormia, com o abajur aceso e as pernas para fora da cama. Arrumou-o. Beijou todo o rosto. Arrumou a sua mochila, o criado-mudo. Começou a arrumar o seu armário. Ouviu a chaleira apitar.0h52. Ela bebia um chá verde. O gato entrou na cozinha. Não passou por entre as pernas dela, como sempre. Parou e se sentou no meio da cozinha. Ficou examinando-a, como se a repreendesse. Ela acendeu outro cigarro, colocou a ração no pote. Ele não saiu do lugar.1h07. Já deveria ter saído do chuveiro pelando. Já se lavara, mas continuava, não tinha vontade de sair. Por ela, ficaria a vida toda debaixo daquele chuveiro, ensaboando-se repetidamente.1h19. Vestida com uma camisola creme de cetim, e sem acender a luz, ela se enfiou na cama delicadamente. Sentiu o colchão se mexendo. Olhou para o marido. Ele estava deitado, de olhos bem abertos, encarando-a.''''Ai, que susto'''', ela disse sem graça.''''Tudo bem?''''''''Tudo. Boa noite, querido'''', ela disse, beijou-lhe a testa e virou de lado, para ficar de costas para ele.''''Eu te amo'''', ele disse.''''Eu também.''''Silêncio. Será que dormiu? Não. Ele então perguntou:''''Como foi a sua noite?''''Que pergunta inusitada, desesperadamente fora de hora, por que acordou, por que não dormia pesadamente, roncando, sonhando, como na maioria das noites, por que estava concentrado, curioso? Ela fechou os olhos e respondeu:''''Normal.''''

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.