Entre o Madeira e o Javari

Euclides no Estadão - 29 de maio de 1904; No centenário da morte de Euclides da Cunha (1866-1909), esta seção traz artigos publicados por ele neste jornal, comentados pela maior especialista em sua obra

Walnice Nogueira Galvão, PROFESSORA DE TEORIA LITERÁRIA E LITERATURA COMPARADA DA USP, O Estadao de S.Paulo

01 de agosto de 2009 | 00h00

Não há em todo o Brasil região alguma que tenha tido o vertiginoso progresso daquele remotíssimo trecho da Amazônia, onde não vingou entrar o devotamento dos carmelitas nem a absorvente atividade, meio evangelizadora, meio comercial, dos jesuítas. Há pouco mais de trinta anos era o deserto. O que dele se conhecia bem pouco adiantava às linhas desanimadoras do padre João Daniel no seu imaginoso Tesouro Descoberto: "Entre o Madeira e o Javari, em distância de mais de 200 léguas, não há povoação alguma nem de brancos nem de tapuias mansos ou missões." O dizer é do século XVIII e podia repetir-se em 1866 na frase de Tavares Bastos: "O Amazonas é uma esperança; deixando as vizinhanças do Pará penetra-se no deserto." Leia a íntegra do artigo no siteEntretanto, nada explicava o olvido daquele território.Compreende-se que os próprios norte-americanos tenham reprimido até 1868 a vaga povoadora impetuosíssima que assoberbou a barreira dos Alleghanies e a transmontou, espraiando-se no far west; sopeara-lhe o arremesso a maninhez desalentadora dos terrenos absolutamente estéreis que se desatam a partir das vertentes orientais das Rocky Mountains.Entre nós, não. As nossas duas maiores linhas de penetração, a de S. Paulo e a do Pará, convergentes ambas em Cuiabá, nortearam-se desde o começo como à procura de empecilhos de toda a ordem.Os sertanistas que abalaram de Porto Félix à feição do Tietê e do Paraná (...) e os que demandavam, a partir de Belém (...), iam apostados à luta formidável com os baques das catadupas, com o acachoar das itaipavas, com a monotonia inaturável das varações remoradas (...). Venceram-nos (...). A queda do maciço brasileiro, irregular e abrupta noutros pontos e originando regimes fluviais perturbadíssimos, que alguns rios, como o Tocantins e o S. Francisco, prolongam quase ao litoral, ali se desafoga na maior expansão em longitude da América do Sul, precisamente na zona em que a viva deflexão dos Andes para o ocidente propiciou uma área à maior bacia hidrográfica da terra. (...). O Purus e o Juruá são depois do Paraguai e do Amazonas, os rios mais navegáveis do continente (...). Ajustam-se à rara uniformidade dos terrenos tão (...) exposta, à mais breve contemplação de um mapa, no paralelismo dos grandes cursos de água que correm entre o Madeira e o Javari, drenando (...) a região desimpedida que prolonga os plainos bolivianos e onde a natureza (...) esconde as opulências de uma flora incomparável nos labirintos dos igarapés...Mas ninguém a procurou. A metrópole que firmara a posse da terra nas cabeceiras do Rio Branco, do Rio Negro, no Solimões e no Guaporé com as paliçadas e os pedreiros de bronze dos velhos fortes de S. Joaquim, Marabitanas, Tabatinga e Príncipe da Beira (...) evitara por completo (...) aqueles longínquos tratos do território - até que no-las desvendassem, em 1851, Castelnau e o tenente da marinha norte-americana F. Maury.Foi uma revelação. O descobrimento coincidia com uma renascença da atividade nacional. Na imprensa, o robusto espírito prático de Souza Franco aliara-se à inteligência fulgurante de Francisco Otaviano nessa propaganda irresistível pela franquia do Amazonas a todas as bandeiras, a que tanto ampararam o lúcido critério de Agassiz, as pesquisas de Bates, as observações de Brunet e os trabalhos de Souza Coutinho, Costa Azevedo (Ladário) e Soares Pinto, até que ela desfechasse no decreto civilizador de 6 de dezembro de 66.Tavares Bastos (...) transmudava-se num sertanista genial: perlustrou o grande rio trazendo-nos de lá um livro, O Vale do Amazonas, reflexo virtual da Hylaea e portentosa e é ainda hoje o programa mais avantajado do nosso desenvolvimento. (...).O látex das seringueiras, o cacau, a salsa, a capaíba e toda a espécie de óleos vegetais, substituindo o ouro e os diamantes, alimentavam as (...) ambições ensofregadas.A terra (...) teve em cerca de dez anos (1887) uma população de 60.000 almas, ligando-se as suas mais remotas paragens de Sepatini e Hyntanaam a Manaus, pela Companhia Fluvial de Amazonas, com um primeiro desenvolvimento de 1.014 milhas, logo depois de distendidas na navegação dos tributários superiores que vão do Ituxi ao Acre. E por fim uma cidade, uma verdadeira cidade, Lábrea, repontou daquela forte convergência de energias trazendo desde o nascer um caráter destoante do de nossos povoados sertanejos (...).Ora, estes sucessos, que formam um dos melhores capítulos da nossa história contemporânea, são, também, o exemplo mais empolgante da aplicação dos princípios transformistas às sociedades. Realmente, o que ali se realizou e está realizando-se, é a seleção natural dos fortes. (...) Aqueles lugares são hoje (...) o palco agitadíssimo de um episódio da concorrência vital entre os povos. Alfredo Marc encontrou, nas margens do Juruá, alguns parisienses (...) trocando os encantos dos bulevares pela exploração trabalhosa de um seringal fartíssimo; e acredita-se que o viajante não exagerou. Lá estão todos os destemerosos convergentes de todos os quadrantes. Mas, sobrepujando-os pelo número, pela robustez, pelo melhor equilíbrio orgânico da aclimação, e pelo garbo no se afoitarem com os perigos, os admiráveis caboclos do norte que os absorverão, que lhes poderão impor a nossa língua, os nossos usos e, ao cabo, os nossos destinos, estabelecendo naquela dispersão de forças a componente dominante da nossa nacionalidade.E o que deve acontecer. (...)Por uma circunstância (...) interessante, os ianques, depois de estacionarem largos anos diante das Rochosas, saltaram-nas, (...) atraídos pelas minas descobertas na Califórnia, precisamente no momento em que nos avantajávamos até ao Acre. O paralelismo das datas é perfeito. No mesmo ano de 1869, em que nos prendíamos por uma companhia fluvial àquelas esquecidas fronteiras, eles se ligavam ao Pacífico pela linha férrea do Missouri, (...) locada nas cordilheiras e nos desertos.Emparelhamo-nos, neste episódio da vida nacional, com a grande república. (...)As novas circunscrições do alto Purus, do alto Juruá e do Acre devem refletir a ação persistente do governo em um trabalho de incorporação que (...) exige desde já a facilidade das comunicações e a aliança das ideias, de pronto transmitidas e traçadas na inervação vibrante dos telégrafos. Sem este objetivo firme e permanente, (...) a Amazônia mais cedo ou mais tarde, se destacará do Brasil, naturalmente e irresistivelmente, como se despega um mundo de uma nebulosa - pela expansão centrífuga do seu próprio movimento. (Euclides da Cunha)Nota da Redação: A grafia deste texto foi atualizadasegundo as regras do Novo Acordo Ortográfico. Forampreservadas, no entanto, a pontuação e as construções sintáticas originais do autor, a fim de não alterar seu estilo

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