Entre o local, o global e a expansão

Na 6.ª edição, a Bienal do Mercosul reafirma caráter educativo e a vocação para alargar limites para além da América do Sul

Camila Molina, O Estadao de S.Paulo

07 de setembro de 2001 | 00h00

No conto do escritor João Guimarães Rosa, A Terceira Margem do Rio, o pai, ''''homem cumpridor, ordeiro, positivo'''' resolve um dia encomendar uma canoa para nela ele adentrar o rio e dele não mais sair. Deixa a família numa das margens, sai remando para dos filhos e da mulher se desamarrar - parentes e conhecidos pensaram que apenas se tratava de ''''doideira'''' daquele homem que escolheu um caminho, o de ficar solitário no meio do rio. Para conceber a 6ª edição da Bienal do Mercosul, que hoje é inaugurada para o público na capital gaúcha, o curador espanhol Gabriel Pérez-Barreiro usou a metáfora da terceira margem do conto rosiano. Segundo ele, para dizer que na arte há várias margens, sendo o público também uma delas: e nesse diálogo, criativo e sensível, uma terceira via pode ser criada.Olhando de forma geral pela 6ª Bienal do Mercosul, que se faz com as mostras coletivas Conversas, Zona Franca e Três Fronteiras, abrigadas nos Armazéns do Cais do Porto, às margens do Rio Guaíba; e pelas chamadas exposições monográficas (espécies de retrospectivas) para homenagear os artistas Francisco Matto e ?yvind Fahlstrõm, no Museu de Artes do Rio Grande do Sul, e Jorge Macchi, no Santander Cultural, o diálogo ou relação entre obra e público é proposto sempre de uma maneira mais intimista.Criam-se, em cada mostra, microcosmos, que podem se tornar mais ou menos solitários, sem que isso seja um dano para o evento em geral. ''''Não queria a Bienal como um supermercado, em que as experiências de passeio e de olhar a arte são separadas. Queria levá-la por uma área mais humana'''', diz o curador-geral. Tanto que um ponto principal de seu projeto é o amplo programa educativo coordenado pelo artista e professor uruguaio Luis Camnitzer, com salas e ateliês instalados por todos os espaços expositivos e que se integra com a rede de ensino gaúcha. Outra característica também é a colocação de diversas áreas de convivência abrigadas ao longo das mostras nos Armazéns do Cais.Jovem, responsável pela área de arte latino-americana do Museu de Arte de Blanton da Universidade do Texas, Pérez-Barreiro conta que sua especialização é o concretismo argentino. ''''Já escrevi sobre artistas brasileiros, como Siron Franco e Daniel Senise, mas esse é meu primeiro projeto curatorial no Brasil'''', completa. Pérez-Barreiro foi convidado em maio do ano passado pela Fundação Bienal do Mercosul, fundada em 1996, para conceber essa edição do evento. Sua proposta foi a de demonstrar que essa Bienal, híbrida ''''entre o local e o global'''', pode cada vez mais se expandir para mais do que o território dos países sul-americanos do chamado Mercosul. A mostra é enxuta, tem a participação de 67 artistas, mas suas nacionalidades são diversas e ultrapassam o continente sul-americano. A instalação 7 Fragmentos para Georges Méliès com vídeos do sul-africano William Kentridge é uma bela passagem nessa Bienal, assim como são interessantes as salas com filmes do inglês Steve McQueen, a animação de Chiho Aoshima, do Japão. São exemplos (todos da mostra Zona Franca), mas não cabe aqui fazer a reverência vazia para os estrangeiros. A questão de nacionalidade é algo que se esvai nesta edição do evento.Enfim, a 6ª Bienal do Mercosul, orçada em R$ 12 milhões, é leve, arejada e foi concebida por meio de uma relação livre entre o curador-geral e seus curadores convidados (o brasileiro Moacir dos Anjos, o uruguaio Alejandro Cesarco, a argentina Inês Katzenstein, o venezuelano Luiz Enrique Perez Oramas e o paraguaio Ticio Escobar). Pérez-Barreiro, também, convidou oito artistas para fazerem curadorias, o que deu origem a uma das seções mais interessantes dessa Bienal, a mostra Conversas. Durante os 79 dias de exibição (até 18 de novembro), o espectador pode transitar da maneira que quiser pelo território aberto desta edição do evento.

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