Entre o encantado e o fantasmagórico

Albano Afonso cria espelhos falsos com uso da luz em mostra

Camila Molina, O Estadao de S.Paulo

27 de setembro de 2007 | 00h00

A primeira reação é a de encantamento ao entrar em Que Horas São no Paraíso, mostra que Albano Afonso acaba de inaugurar na Casa Triângulo. Feixes de luz fazem explodir nas paredes da galeria desenhos a partir de dois cristais. Ainda como parte desse primeiro ambiente, estão no centro da sala, sob um projetor, três caixas de vidro que têm dentro de si, como tesouros arqueológicos, dois crânios, dois corações e ossos de duas pélvis revestidos de vidro, o que faz também ecoar pelas paredes e pelo teto da sala principal da galeria, toda vedada em preto, luz. A primeira reação é a de encantamento, mas, depois, há o indício de um lado ''''fantasmagórico''''. Trata-se do paraíso e de seu oposto, ''''de vida e de morte'''', como diz o artista. ''''Trata-se da impossibilidade da representação, da essência que se transforma em luz'''', pontua Albano Afonso, que gosta de propor experimentações no campo do misterioso. Veja galeria de fotos da mostra de Albano AfonsoSomos todos tomados por esses feixes de luz na galeria: os objetos (que se transformam em fonte de luz também) e os visitantes. Somos todos tomados pela imaterialidade, enfim, dessa obra de Albano Afonso. O artista, por meio desse trabalho que propõe misto de algo encantado e de algo até mesmo macabro, constrói uma teia de aranha que nos permite entrar em um ''''espelho falso''''. No primeiro andar da galeria, em paredes opostas, os desenhos projetados dos cristais parecem iguais, mas não são.Há sempre nos trabalhos de Albano nítida relação com a história da arte. Mas nessa exposição, como ele diz, as citações são mais sutis. Os desenhos dos cristais - feitos pelo artista e transformados em vidro, em prisma - têm como referência as pinturas São Tomás, o Incrédulo (1620), de Gerrit van Honthorst, e São Pedro Cura Santa Agatha (1614), de Giovanni Lanfranco. Albano se inspirou no detalhe das mãos que aparecem nos quadros, ''''mãos que tocam chagas'''', mas elas são usadas em forma de esqueletos, transformam-se em linhas e pontos que se multiplicam em desenhos que tomam paredes e os visitantes.O espelho falso continua ainda nos auto-retratos em que o artista apaga a sua imagem e no mezanino onde Albano coloca uma fotografia de uma floresta misteriosa que se projeta em imagem maior na parede oposta. O duplo da floresta tem no seu meio outra caixa de vidro com esqueletos revestidos de vidro, um casal entrelaçado em ossos. ''''Algo sempre se perde nessas passagens, nesses mistérios'''', diz o artista.

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