Daniel Piza, E-mail: daniel.piza@grupoestado.com.br Site: www.danielpiza.com.br, O Estadao de S.Paulo

22 de novembro de 2008 | 00h00

Os homens não ficam muito bem no novo Woody Allen, Vicky Cristina Barcelona. Sim, o personagem de Javier Bardem, Juan Antonio, que faz o tipo feio charmoso, se dá bem demais convivendo alguns meses com Scarlett Johanson (Cristina) e Penélope Cruz (Maria Elena) simultaneamente, e as cenas de beijo entre as duas realizam o desejo visual de uma multidão de testosterona. Mas ele é um bobo, e sua ex-mulher-intermitente Maria Elena manda nele até na hora de trabalhar: ambos são pintores e ele admite a influência dela. Como diria Chico Buarque, vão viver sob o mesmo teto até que a casa caia.Outro tonto, mas num registro bem menos sedutor, é o noivo de Vicky (Rebecca Hall), Doug (Chris Messina), um desses "coxinhas" americanos que não têm a menor sensibilidade cultural e fica mais maravilhado com o funcionamento de sua conexão por celular no exterior do que com os prédios de Gaudí. Ele só pensa na casa que terão em Beverly Hills. Vicky, bonita também, mas travada, forma com ele esse tipo de casal que "planeja" tudo. Não por acaso, é ela quem vai reagir da maneira mais irritadiça ao assédio direto e reto do pintor espanhol, sub-Tàpies, até que ele se mostre afetuoso e ela tome algumas taças.Devo dizer, antes de seguir, que o filme foi mais uma vez anunciado como a volta de Woody Allen à grande forma (como Match Point havia sido mais recentemente), mas de novo isso não é verdade. O Woody de Hannah e Suas Irmãs e de Crime e Castigo e mesmo o Woody de divertimentos como Todos Dizem Eu te Amo ou Desconstruindo Harry ainda não voltaram. Vicky Cristina Barcelona é esquemático e esquecível, exceto por algumas poucas falas e cenas, e o tema do contraste entre as culturas latina e saxônica renderia menos clichês. A câmera nem se furta ao registro turístico com que mostra a cidade.Woody disse que fez seu filme mais "europeu", querendo dizer com isso "mediterrâneo", afinal, tem vários pastiches do sueco Bergman em sua filmografia. No entanto, é como se tivesse acabado de descobrir Barcelona ou a música de Paco de Lucía, cuja Entre Dos Águas reverbera ao longo da história (assim como o concerto de Julio Quesada ao jardim soa como resultado da pesquisa de alguém de sua equipe, não como escolha particular do cineasta). De qualquer forma, o filme não deixa de ser um convite ao multilateralismo para a nação que acaba de decidir trocar Bush por Obama.O título do filme é bacana por sugerir que Barcelona é como a terceira mulher na história, que seus encantos abriram outras formas de existência na cabeça monoglota das duas americanas. Mas a terceira mulher é Maria Elena, e Penélope Cruz rouba a cena com sua sensualidade, ofuscando até mesmo Scarlett e seus olhos cor-do-mar. Só que Cristina é a mais interessante como personagem: ela é aberta a experiências, a ouvir seus impulsos, e isso inclui perceber que depois de um tempo é hora de partir para outra. Ela não é medrosa como Vicky nem neurótica como Maria Elena; talvez esteja condenada à insatisfação, mas pelo menos sabe o que não quer.Eles, para variar, não sabem o que não querem. Juan começa o filme como se fosse aquilo que Fernanda Montenegro falou de Bardem, um "touro de Picasso", mas termina como um cachorrinho de Giacometti... Doug, obviamente, vai continuar a ser o yuppie sem sal, incapaz de ir além da letra D no alfabeto de sensações que habita Vicky. Nenhum deles vai bastar para suas mulheres, e elas se entregarão a escapes cada vez mais toscos, como crises e consumismos. O homem que tem medo do compromisso e o que só quer saber de compromisso continuam a ser os tipos dominantes, incapazes de combinar nem que seja por um tempo razoável a aventura com a ternura, a virilidade com a veracidade. Ora leves demais ora sérios demais, são as primeiras vítimas de seus objetivos.ILUMINAÇÕESHá idéias tão simples que quase ninguém tem. Paintings in Proust, do artista e crítico Eric Karpeles (Thames & Hudson, 352 págs., $ 45), é um compêndio das pinturas e desenhos citados por Proust em todos os livros de Em Busca do Tempo Perdido. Cada página dupla traz de um lado a reprodução da obra citada e o respectivo trecho do texto. A pintura tem tanta importância em Proust quanto a música e a literatura, senão maior, e é possível dizer que sua escrita nada seria sem sua capacidade de observação ao mesmo tempo meticulosa e sensual - e tanto que uma de suas maiores influências estilísticas foi do crítico de arte e arquitetura inglês John Ruskin, de quem foi tradutor. Não por acaso tenho na gaveta do meu criado-mudo um livreto apenas com a descrição que Proust fez do "trecho de muro amarelo" da Vista de Delft de Vermeer.Seu gosto era amplo e refinado; seus romances citam mais de uma centena de artistas, desde o Renascimento italiano até o pós-impressionismo seu contemporâneo. Me arrisco a listar suas dez preferências: Mantegna, Carpaccio, Ticiano, Velázquez, Rembrandt, Chardin, Watteau, Turner, Whistler e Manet. Chardin e Whistler talvez sejam as melhores traduções de seu mundo visual predominante, doméstico e sugestivo, mas sem dúvida os holandeses mexiam com ele mais do que todos. Não por acaso, num livro que só descobri outro dia, Uma Galeria de Pintores Holandeses no Romance Proustiano, a professora da UFMG Nancy Maria Mendes analisa justamente essas aproximações, vendo Albertine nas mulheres retratadas por Vermeer e o Barão de Charlus no claro-escuro de Rembrandt. Proust resumiu: "Graças à arte, o mundo se multiplica."RODAPÉTambém da editora UFMG, mas recém-lançado, Ser-tão Natureza, de Mônica Meyer, é outro livro que poderia ter sido mais abrangente do que é. Eis um tema que espera por uma bela edição de fotos, mapas, ilustrações, textos e trechos: "a natureza em Guimarães Rosa". O livro tem quatro capítulos, mas apenas o terceiro é integralmente dedicado ao assunto. A autora faz uso das cadernetas de viagem que Rosa anotou em 1952, quando percorreu fazendas e veredas do sertão mineiro (viagem que refiz há dois anos), e que estão guardadas no Instituto de Estudos Brasileiros. Mais uma vez, em qualquer país que dê valor à leitura essas cadernetas já teriam a forma de um volume caprichado para acesso do público em geral.A análise raramente se destaca da transcrição e organização das notas tomadas por Rosa sobre a flora e a fauna do local. Aqui e ali Mônica Meyer abre a lente e observa, por exemplo, a sinestesia da percepção do autor de Grande Sertão: Veredas: "Guimarães procura registrar e traduzir para o papel uma multiplicidade de sensações que permitem ao leitor sentir a natureza em sua totalidade." Rosa tem apreço especial pelo registro das cores e, olha só que curioso, em algumas passagens compara o céu do cerrado ao dos pintores da Toscana... A natureza era para ele o que os quadros eram para Proust. Que o pioneirismo e o rigor de Mônica Meyer sejam seguidos.DE LA MUSIQUEComo tocar com frescor uma peça que é repetida à náusea até em comerciais de TV? Dei uma chance para As Quatro Estações de Vivaldi com o violinista Joshua Bell e a orquestra Academy of St. Martin in the Fields (Sony/ BMG) - e não me arrependi. Bell é outro virtuose que reaprendeu que a obra é mais importante que o intérprete e atingiu a maturidade criativa. Sua interpretação tem um acento levemente romântico, com ênfases tanto nas acelerações como nas pausas, mas é por isso mesmo que tira o pó de cada um dos doze movimentos. A orquestra, excelente em compositores barrocos, ajuda a manter Bell na moldura, e ele dá com elegância seu colorido pessoal.POR QUE NÃO ME UFANOPara que serve um prefeito? Não é apenas para fazer a meia dúzia de obras exigidas pela cidade e inventar dois ou três programas de impacto, com nomes bonitinhos, para que sejam suas "marcas". Não é um síndico. O bom prefeito, ou melhor, a boa prefeitura é aquela que sabe interpretar a cidade em sua variedade, em alguns casos revertendo a decadência de uma região, em outros endossando o movimento que outra começa a realizar.Em São Paulo há muitos bairros que já foram industriais, como o Brás e a Mooca, e hoje estão tomados por galpões abandonados; logo, poderiam atrair novas habitações, para que muitas pessoas deixem de morar tão longe, nos extremos das zonas leste ou sul, embora trabalhem na região central. Há outros bairros, como o Bixiga, que já viveram dias melhores por sua ligação com serviços e lazer; no caso, restaurantes e teatros. Talvez seja o caso de resgatar essa vocação, ou desviá-la para setores semelhantes. Quanto a exemplos de bairros em transformação positiva, há uma região perto do Ceasa onde muitas agências de publicidade e produtoras de filmes têm se concentrado. Por que não estimular esse processo, principalmente com a infra-estrutura (estacionamentos, redes sem fio, etc.), a exemplo do Media District nova-iorquino? Governar também é coordenar.Meses de campanha e nada disso foi sequer mencionado. Aforismos sem juízoPensar com a cabeça fria é banal. Quero ver pensar com a cabeça sob a pressão de sentimentos fortes ou fronteiras inéditas.Vicky Cristina Barcelona é esquemático e esquecível, exceto por algumas falas e cenas''''Bell é virtuose que reaprendeu que a obra é mais importante que o intérprete e atingiu a maturidade criativa''

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.