Entre a ética e a concessão na arte

É tema de Teatro para Pássaros, texto de premiado autor argentino que ganha versão brasileira na direção de Roberto Lage

Beth Néspoli, O Estadao de S.Paulo

03 de setembro de 2009 | 00h00

Bateu a dúvida no momento de escolher o que ver na programação de um festival internacional? Confira se tem algum espetáculo escrito e (ou) dirigido pelo argentino Daniel Veronese, que já marcou presença com peças como La Forma Que se Despliega, Open House, La Noche Canta Sus Canciones em festivais de Londrina, Porto Alegre, Belo Horizonte e Brasília. Não tem erro. No mínimo será mobilizador. Mas pode ser excepcional como Espia Uma Mulher Que se Mata, releitura de Tio Vânia, de Chekhov, escrita e dirigida por Veronese, um grande destaque da programação do 14º Porto Alegre em Cena, em 2007, que contava com trupes de renome mundial como o Théâtre du Soleil de Ariane Mnouchkine, com Les Ephemères.

A edição de 2007 desse festival gaúcho contou ainda com Teatro para Pássaros, também de autoria de Veronese, e por ele dirigida. Pois esse texto ganha agora a primeira montagem brasileira, que estreia amanhã na Funarte sob direção de Roberto Lage. A reportagem do Estado viu um ensaio e fez uma proposta ao elenco: que cada ator criasse uma espécie de autodefinição fictícia para o seu personagem revelando como essas figuras ?pensam? ser. E foi feito (leia nesta página).

Marca registrada na dramaturgia desse autor - a julgar pelo que foi visto até agora no Brasil -, Teatro para Pássaros tem diálogos rápidos, quase sobrepostos, numa espécie de hipernaturalismo. Conflitos surgem sem preparação prévia, no aqui e agora, como se o embate de ideias, as emoções e os atritos ?escapassem? no momento mesmo em que se fala, provocando desnudamentos involuntários.

Marcos e Teresa são artistas que poderiam ser ?rotulados? de alternativos. O diálogo revela que possuem um teatro - "a gente vai instalar um ar-acondicionado. No verão passado não dava para trabalhar. A instalação elétrica é toda nova. A gente pôs uma mesa de luz pequenininha..." - e encenam ali peças de pouco apelo comercial. Diego, irmão de Teresa, namora a ?libertária? Glória, a dupla do ?confronto? que defende uma ética de não concessão na profissão.

Antonio, amigo de outros tempos, é agora produtor bem-sucedido de teatro e televisão e visita o grupo quase por acaso, por conta de um suicídio que parou o trânsito diante do prédio de Teresa. Chega com Yasmin, sua namorada ?brasileira?, bonita e tola, radicada em Buenos Aires. Fosse outro o dramaturgo e o embate se daria naturalmente entre os ?vilões? do teatro comercial e os mocinhos da cena ?experimental?. Há, sim, essa fronteira clara, com a consequente discussão ética, mas abordada em suas múltiplas contradições e fragilidades das quais nenhum dos seis personagens escapa. E mais: fora do teatro, a vida pode ser ainda mais dura, e há uma morte na calçada para não deixar dúvida, e não é um simples golpe de teatro para justificar o encontro.

Partiu da intérprete de Teresa, Luciana Rossi, o desejo de realizar a montagem. Bem ao estilo de sua personagem, ela mostrou o texto ao diretor Roberto Lage, convidou-o para a direção, mas avisou que não tinha um tostão para a produção. "Eu li, imediatamente aceitei dirigir e disse que não cobraria nada e ainda colocaria dinheiro, se necessário", relembra Lage.

"É um texto que possibilita muitas camadas de leitura, mas há dois vértices principais. O primeiro é a defesa de um pensamento sobre o teatro e o segundo, de interesse de um público mais amplo, toca na necessidade que todo indivíduo tem de transcender a realidade", argumenta o diretor. A ausência de maniqueísmo é outra virtude por ele apontada. "A personagem que mais merece defesa, a atriz que quer se tornar dramaturga, não respeita seu ex-parceiro e ainda tenta escrever um texto mais comercial para o produtor bancar e salvar seu teatro! A peça coloca em cena essa geração que não tem pressupostos políticos para defender. Ok, o Muro de Berlim caiu, não sejamos saudosistas. Mas há que se ter barreiras éticas."

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