Entre a casa-grande e a senzala

Solo mostra o mundo pelo olhar de uma menina escrava

O Estadao de S.Paulo

07 de setembro de 2014 | 00h00

Quem acompanha o potente movimento de teatro de grupo da cidade de São Paulo certamente já viu, ou ouviu falar, em espetáculos como Hysteria e Hygiene, do Grupo XIX de Teatro. O segundo foi inspirado na história da Vila Maria Zélia, vila operária onde o grupo dirigido por Luiz Fernando Marques instalou-se e segue trabalhando. Pois vai ser ali, na chamada sala do boticário, porque no passado abrigava a farmácia, que será apresentado o solo Negrinha, com a atriz Sara Antunes, dirigido por Marques. Assinam a criação Marques, Sara e o diretor de arte Renato Bolelli. Mas o trio faz questão de dizer que Negrinha não é um projeto do Grupo XIX. "Esse trabalho nasce de um desejo antigo da Sara que eu e o Renato compartilhamos", argumenta Marques. Foi realizado com o a verba de R$ 15 mil do Programa de Ação Cultural (PAC).Simples, modesto na produção, mas não na ambição, Negrinha tem como ponto de partida um conto homônimo de Monteiro Lobato. "Mas foi só a inspiração inicial e dele ficou a personagem, uma criança, órfã, escrava que no momento da ?libertação? continua na casa. A sala que abriga o solo foi dividida em dois ambientes: casa grande e senzala. A ação se dá nesse trânsito entre sala e cozinha."Sara é essa menina, de cerca de dez anos, que tem olhar de criança para o mundo. "Os outros dizem que a patroa é ?boa? por ter ficado com ela, por cuidar dela, mas ela está ali para trabalhar", diz Sara. "Sua liberdade termina onde começa o meu tapete" - essa é uma das frases simbólicas colhidas na pesquisa do trio sobre essa relação do empregado doméstico, que vai muito além da cor da pele, e perdura no Brasil contemporâneo.

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