''Ensino na Rússia de hoje é pior''

A pianista russa Anna Vinnítskaia fala de sua apresentação e seu trabalho

Lauro Machado Coelho, O Estadao de S.Paulo

31 de agosto de 2009 | 00h00

Nascida em Novossibírsk, em uma família de músicos, Anna Vinnítskaia começou a estudar piano com Sergêi Ossipiênko, em 1995, quando tinha 6 anos. Falando ao Estado, a jovem pianista russa, que se apresenta hoje na Sala São Paulo, com a OSB e o maestro Roberto Minczuk, contou como deve a Ossipiênko a base de sua técnica e uma visão ampla da música. Por outro lado, diz ela, referindo-se a Ievguêni Korolióv, seu último professor: "Ele foi muito importante para o meu desenvolvimento musical. Ensinou-me coisas importantes, não só sobre música, mas também sobre arte e literatura. É um ser humano e um músico extraordinário."O ensino da música na Rússia, segundo Vinnítskaia, passou por mudança visível, na fase pós-soviética: "O sistema que experimentei, quando criança, era rígido, nem sempre divertido, mas eficiente; e a ele devo as condições que tenho de tocar o repertório que faço hoje." Ela vai interpretar um dos pilares da música russa para piano, o Concerto nº 1, de Tchaikóvski. "A educação mudou, sim, do ponto de vista econômico e da posição social dos professores. E, infelizmente, para pior." E acrescenta: "Para os músicos russos, e o povo russo em geral, a queda do regime soviético foi um benefício, pois tornou a educação mais aberta, permitiu que professores de fora da Rússia viessem trabalhar conosco. E os estudantes têm também maior possibilidades de estudar fora, de forma que são maiores e mais diversificadas as influências que recebemos. Em contrapartida, não acho que se possa fala mais, como antes, de uma escola russa de piano."Além do Concerto nº 1, outra peça de Tchaikóvski abre o programa: a Polonaise de Ievguiêni Oniéguin, a sua ópera mais famosa. Isso porque hoje, mais do que nunca, Tchaikóvski é um dos músicos mais amados na Rússia, um gosto que o mundo inteiro compartilha. E Vinnítskaia diz que o Concerto nº 1 "incorpora tantas melodias verdadeiramente ?russas? que, às vezes, para mim, ele soa como um segundo hino nacional nosso." Ela conta que, em especial no início da carreira, pediam-lhe sempre que tocasse outros autores russos; e compositores de sua terra costumavam integravar seus programas. Porém, a intenção de expandir o repertório sempre existiu e, em seu último recital, havia peças de Debussy, Ravel e César Franck. De resto, Vinnítskaia confessa que Ravel é um de seus compositores prediletos: "Só lamento que ele não tenha escrito mais para piano." Para o seu primeiro CD, ela escolheu apenas autores russos, porque queria um programa com o qual se sentisse confortável. "Sinto-me em casa também tocando o repertório romântico europeu, da mesma forma que gosto muito da música de Bach e de Mozart." A época romântica, aliás, marca o programa escolhido pela Sinfônica Brasileira para a apresentação de hoje pois, em homenagem ao bicentenário de Mozart, Roberto Minczuk regerá, na segunda parte, a Sinfonia nº 3 em lá menor op. 56 ?Escocesa?, desse autor. O que não significa que a área coberta pelos interesses de Vinnítskaia limite-se ao romantismo. Ela conta que, para o seu primeiro CD, escolheu a Sonata Reminiscenza de Nikolái Medtner, "muito popular na Rússia, mas pouco conhecida". O que é verdade, se lembrarmos que a gravação que a Osesp com Arnaldo Cohen e o maestro Neschling fizeram do Concerto nº 2 para Piano, de Medtner, foi aclamada internacionalmente como um acréscimo precioso à discografia desse músico. No primeiro CD de Vinnítskaia havia também a Ciaconna, de Sófia Gubaidúlina - que esteve recentemente em São Paulo, para um concerto de obras suas; e, na opinião da pianista, "já é um clássico da década de 60".Anos atrás, ela tocou o Trio para Piano, Violoncelo e Flauta, de D. Ansarókov, da mais jovem geração de autores de seu país. Mas, além de acreditar que a música é importante, venha de onde vier ("da Rússia, da Alemanha ou da Venezuela"), Vinnítskaia observa não ter tempo para aprender novos repertórios. O que coincide com uma coisa de que ela, assim como tantos outros músicos, se queixam: "Os organizadores de concertos não estão muito interessados em música moderna, que acham ?difícil para o público?. Por isso, vejo-me compelida a estudar uma peça de repertório que eles consideram ?mais eficiente?, deixando de lado coisas que gostaria de tocar, mas que não tenho tempo de estudar." ServiçoOSB e Anna Vinnístkaya. Sala São Paulo (1.437 lug.). Praça. Júlio Prestes, 16, Luz, telefone 3815-6377. Hoje, 21 h. R$ 90/ R$ 240 (ingressos esgotados)

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