Ensaio sobre a cegueira: em Lyon

Projeto sensorial que faz parte da bienal de dança, na cidade francesa, faz o público caminhar pelas ruas de olhos vendados

Livia Deodato, O Estadao de S.Paulo

16 de setembro de 2008 | 00h00

A Rua Saint-Michel parecia, a princípio, muito simples de encontrar, apesar de estar incrustada num conglomerado de vias estreitas em La Guillotière, bairro lyonnais onde habitam muitos árabes, africanos e asiáticos. Eu estava a caminho do que me garantiram que seria uma experiência, no mínimo, diferente: o Projet in Situ, criado em 1999 pelo canadense Martin Chaput e pelo francês Martial Chazallon com o objetivo de provocar um novo "olhar" sobre nós mesmos, os outros e o espaço que ocupamos no mundo. Como? Vendando nossos olhos. O horário da minha saída estava marcado para 14h20. Após dez minutos de atraso, finalmente encontrei o centro cultural de onde cada um saía com uma venda preta, acompanhado de um guia particular (para esse trabalho, cerca de 120 guias se apresentaram voluntariamente, todos moradores de Lyon). Martial, antropólogo por formação, me deu boas-vindas e primeiras explicações. "Tente permanecer calma, seu guia a irá conduzir pelos melhores caminhos. Tire trocados da carteira e mantenha-os no bolso, você pode precisar. O trajeto tem duração total de 2h40." Ok, foi exatamente aí que me bateu um repentino desespero, considerando a falta de meu condicionamento físico. Mas o sentimento logo se esvaiu quando lembrei que estava na planície ilimitada de Lyon e não em Ouro Preto ou no Pelourinho.Já de olhos vendados fui, então, apresentada à minha guia, a francesa Elsa. E, voilá!, ganhamos a rua. A primeira sensação foi de desconfiança. E se a Elsa esquecer que estou de olhos vendados e me deixar bater de cara num poste? E se minha mão se perder do braço dela? Respirei fundo e acreditei que Elsa seria a melhor guia de todas. A partir daí, sentidos esquecidos começaram a despertar.Elsa me perguntou se eu sentia, sob meus pés, um pequeno trecho com ondulações e me explicou que isso significava que estávamos à beira de uma rua. Quando tínhamos de passar por algum trecho estreito, ela dobrava o seu braço para trás e levava uma das minhas mãos junto, para que eu me alinhasse em fila indiana com ela. No meio do caminho, três pessoas pararam para perguntar se aquilo era um jogo. Também teve um engraçadinho que gritou BU! na minha orelha e outro que lançou: "Cuidaaado! Umaárvore!" Quase morri, duas vezes.O cheiro de pão fresquinho fez meu estômago roncar. "Você está com fome? Vamos parar para comer, estamos com tempo", disse-me Elsa. E me conduziu não exatamente para um restaurante. "Sabe onde estamos? Escuta." Uma bola pesada foi arremessada e bateu com força numa outra menor, pelo barulho agudo. Um clube de bocha. Ouvi o copo de suco bater na mesa, junto com o prato onde estava o meu sanduíche de jambon. Quase não acerto a boca na beirada do copo. Depois, seguimos para um lugar silencioso, onde Elsa começou a sussurrar e, ainda assim, sua voz ecoava: a Igreja de Saint Louis. "Ça va?", alguém perguntou no meio do caminho. O som do cumprimento vinha de baixo, como se esse alguém estivesse sentado. Um mendigo sorridente, Elsa me contou.Visitamos a casa de Catherine, que me fez sentar numa mesa e manusear um pedaço de argila. Ela me contou que seu tio era escultor e me fez tocar três de suas obras para eu tentar adivinhar o que eram (um gato, um peixe e, a mais difícil, uma tartaruga). Seguimos, então, para um lugar silencioso, repleto de uma farta grama, onde Elsa me deixou livre e pediu para que eu andasse sempre em linha reta. Foi ali que conheci Mud, uma garota que me contou ser deficiente visual. "Vou te mostrar um pouco como eu vivo. Você confia em mim?" Batia um vento gelado e Mud tremia. "Está ouvindo as folhas das árvores farfalharem? Percebe como o barulho está distante? Isso significa que as árvores são muito altas." Elsa, então, me avisou que já era hora de caminharmos para a última parte do projeto. Sob estrito silencio, uma pessoa se aproximou e, só depois de muito custo, entendi que eu tinha de levantar e acompanhar os passos de uma bailarina. Dançamos durante muito tempo.Depois disso, minha guia me levou ate uma espécie de psicanalista para que eu relatasse a minha experiência. Qual foi o meu maior medo, o que eu senti , se minha imaginação funcionou. Quando, finalmente, foi-me permitido tirar a venda, uma luz muito forte me cegou e me fez fechar os olhos novamente. Aos poucos, enfrentei a luminosidade, as formas, as pessoas e o lugar onde eu estava, um edifício antigamente utilizado pelo exército. Quando saí de lá, vi um tempo fechado sobre uma cidade cinza. Lyon, com os meus olhos fechados, estava mais encantadora.

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.