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Leandro Karnal
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Enrolar e procrastinar

Ser enrolado é opcional, ser procrastinador é sina. Vítimas de ambos, acalmai-vos

Leandro Karnal, O Estado de S. Paulo

24 Junho 2018 | 02h00

O dicionário registra muita proximidade entre o coloquial enrolar e o mais erudito procrastinar. Estabelecerei sutilezas que escapam ao léxico. Quem enrola não chega ao ponto final, faz “cera”, adia, evita respostas diretas e não resolve. O procrastinador é mais sofisticado, prorroga e não cumpre prazos ou metas como o enrolado. Aquele engana o outro; este, a si próprio.

Cotidiano do enrolado: ficar na cama até o limite do possível e, por vezes, ultrapassá-lo. Se ficou o dia todo em casa, tendo apenas um compromisso à noite, o enrolado sai atrasado. Nada justifica o ato. O convoluto não tem nenhuma explicação plausível para suas escolhas ineficazes. Exatamente por isso, inventa muitas, mente, analisa fatores para, no fundo, reconhecer que... é um enrolado! Esse é o tipo de pessoa que fica relaxado tempo demais e, ao se aproximar o deadline, acelera, inutilmente, o esforço. Na divisão do atacado do tempo para o varejo das ações práticas, o enrolado é um péssimo administrador. Ele não tem timing, a preciosa habilidade de fazer o certo no tempo adequado. Ser dotado de timing significa subir na torre da estratégia e contemplar o lago do futuro distribuindo porções de água em partes precisas, em esforços coerentes e possíveis. Enroladores simplesmente se afogam e sucumbem. Vivem no futuro do pretérito: eu teria chegado mais cedo, eu poderia ter feito a tarefa se... O “se” é o fio para tecer a mortalha do enrolado, Penélope permanente de coisas inacabadas. 

O procrastinador está em outro setor. Vive com culpa por causa de alguma questão interna. Enrolados são preguiçosos, procrastinadores são fruto de traumas variados. Enrolado é doloso, procrastinador é culposo. O enrolado ignora as normas e regras, horários e agendas. O procrastinador chora e sofre pela incapacidade de ir direto ao ponto, vítima inconsciente de um labirinto confuso para o qual nenhuma Ariadne lhe fornece o fio condutor. Ele é Teseu e o Minotauro nas vielas da ordem: monstro e herói, protagonista e vítima, Tesotauro desesperado em calabouço avesso à luz da plena consciência.

Todos devem entender que o enrolador quer falhar e trabalha para isso. O procrastinador anela pelo sucesso, que lhe foge das mãos trêmulas como areia fina. Enrolar é opcional, procrastinar é sina. A escolha do enrolador é começar tudo sem terminar nada. O procrastinador é impedido por uma parede sólida e transparente que o impede de dar o passo inaugural, o primeiro degrau, que está ali, a sua frente, fácil, acessível e... impossível. O procrastinador é um namorado ansioso e desajeitado, o enrolado, um marido de longa data, lento e acomodado, de pantufas diante da esposa-tempo. 

Há que se distinguir muito tais tipos, para não cometer a injustiça suprema de imaginar todo atraso ou tarefa incompleta como fruto da mesma mente. Não, estimados leitores e queridas leitoras, seria injustiça suprema acomodar no mesmo nicho as diferentes categorias. O enrolado é, no fundo, um ser folgado que confia na inequívoca elasticidade da paciência alheia e usa um sorriso malicioso ao explicar que... não deu. Ele quer que a simpatia calafete os buracos da sua estratégia. Sorri e ignora seu desespero. Prometeu e já sabia que nunca cumpriria. Explica contingências ineludíveis, intransponíveis, com leveza e naturalidade. Afinal, quem nunca enrolou, ele arremata com olhar maroto em busca da cumplicidade da sua culpa. É um malandro de alma que olha para a ampulheta da existência com sorriso sardônico.

Não confunda o modelo descrito há pouco com o pobre procrastinador. Realmente, o procrastinador tenta, mas é quase genético. Como ele não pode mudar seu genoma, acaba também barrando a metamorfose da atitude. É um DNA procrastinante. Como levar adiante a pletora de atividades pela frente? Onde inicia a ação que deslindará tudo, fio a fio, em metódica dedicação ao fato realizado? O procrastinador não consegue. O início e o fim do seu ouroboros são quase indistinguíveis. Assemelha-se sua visão aos antigos rolos de durex nos quais você não conseguia perceber pelo tato ou visão como poderia iniciar o descolamento de uma parte do todo. 

Toda reflexão sobre enroladores e procrastinadores emerge com a força de um terremoto quando alguém realiza uma reforma em casa. Sim, se você já fez uma obra sabe que quase todos que prestam serviços fizeram curso com Antoni Gaudí na igreja da Sagrada Família de Barcelona. Eles lidam com o conceito agostiniano de “tempo, dom de Deus”, impenetrável à matemática humana e associado à perenidade divina. Sim, o genial catalão podia afirmar que o contratante tinha paciência por ser eterno, nós temos menos futuro.

Enrolados do mundo, uni-vos e embarcai para viagem definitiva para outro planeta. Procrastinadores do planeta, tratai-vos. Vítimas de ambos, acalmai-vos, eles fazem parte do destino para burilar nossa paciência. Você está com algo atrasado? Pode atirar a primeira pedra? Bom domingo para todos nós, enrolados, procrastinadores e hipócritas!

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