Enfim, o livro que chocou fãs de Grass

Chega às livrarias Nas Peles da Cebola, em que o Nobel conta ter sido nazista

Antonio Gonçalves Filho, O Estadao de S.Paulo

13 Outubro 2007 | 00h00

O polêmico livro do escritor alemão Günter Grass, Nas Peles da Cebola (420 págs., R$ 60), em que o Nobel de Literatura revela seu envolvimento com o regime nazista quando jovem, chega hoje às livrarias de todo o País pela editora Record, numa tradução do escritor gaúcho Marcelo Backes que exigiu dele, exímio tradutor de Heine, Schnitzler e Marx, um posfácio para explicar não só as razões de ter optado por esse título - o original, Beim Häuten der Zwiebel, está mais próximo de Descascando a Cebola - como as dificuldades para verter a linguagem metafórica de Grass e sua técnica codificada em alemão como Vergegenkunft, que une, segundo Backes, três tempos (o passado, Vergangenheit, o presente, Gegenwart, e o futuro, Zukunft). Aliado a isso Backes destaca ainda o difícil enfrentamento com a mania algo esquizóide de Grass usar a terceira pessoa para falar de si mesmo, artifício que, lembra o tradutor, já havia utilizado em O Tambor, seu livro mais conhecido. Falar na terceira pessoa, diz o senso comum, pode indicar alguma perturbação mental, mas é válido e conveniente como recurso estilístico. Livra-se do peso de memórias incômodas e culpa-se o "outro" pelas besteiras que se faz. Pode ser que, aos 15 anos, Grass fosse mesmo um imbecil apaixonado pela suástica, mas, aos 18, Rimbaud já havia parado de escrever poesia por considerar que nada mais tinha a dizer ao mundo. Enfim, o fato é que Günter Grass, ao 15 anos, apresentou-se como voluntário aos nazistas, primeiro à Marinha, sem ser recrutado. Insistiu e, aos 17, conseguiu ser integrado à tropa de elite Waffen-SS. Grass jura que nunca deu um tiro nem matou ninguém. Foram os outros. Sempre os outros. Muitos jovens alemães foram recrutados pelo regime - e não se apresentaram como voluntários, o que faz toda a diferença. Até onde se conhecia essa história, Grass teria servido ao Reich como soldado auxiliar na artilharia antiaérea. Ao ser lançado na Alemanha em setembro do ano passado, o livro, naturalmente, provocou escândalo, especialmente porque Grass era considerado, até então, uma espécie de guardião da consciência alemã, uma autoridade moral social-democrata que condenou o nazismo em todas as suas formas. Quando a guerra acabou, Grass foi preso num campo americano, onde conheceu o prisioneiro Joseph Ratzinger, o futuro papa Bento XVI. Como ele, Ratzinger foi convocado para lutar ao lado dos soldados de Hitler. Grass, à época do lançamento, tentou explicar a razão de ter permanecido 60 anos em silêncio antes de tomar coragem e escrever o livro. Rebateu as críticas e admitiu que deveria ter falado antes, mas argumentou que seu passado o autorizava a não ser julgado por um erro de juventude, julgando que tudo o que fez ao longo da vida apagava os equívocos cometidos durante a adolescência. Mal comparando, Grass seria hoje um garoto de periferia correndo atrás de um tênis Nike, nem que para isso tenha de esfaquear seu dono. Adolescente, Grass morava num apartamento modesto com um banheiro coletivo no fim do corredor. Viu no uniforme nazista uma chance de ascensão social e, romanticamente, deve ter se imaginado como um herói do Führer. Nem sentiu o cheiro do ralo que exalava do Terceiro Reich. Ou sentiu? Grass, afinal, lembrou o crítico americano Timothy Garton, é o escritor que melhor descreve cheiros na literatura contemporânea - e não é sem razão que escolheu a cebola para descascar. Já havia descascado a culpa coletiva alemã em O Tambor, ao contar a história de Oskar Matzerath, um garoto que se recusa a crescer, comentando metaforicamente a incapacidade da Alemanha de assumir a responsabilidade adulta pelos crimes cometidos em seu território. Mas, como justifica Grass logo no prólogo, a tentação de se camuflar sob a capa de uma terceira pessoa continua sedutora. Dissimulado, ele conta um episódio revelador no livro - que, aliás, é muito bom, quase tanto como O Tambor. Ele aconteceu no campo de Dresden, em 1944, e retrata os métodos de humilhação a que eram submetidos recrutas como ele por militares de patente maior. Encarregado de providenciar bebida para o café da manhã, o soldado Grass tinha de buscar os bules fora da floresta, na barraca em que ficava a cozinha. O caminho de ida e volta diminuía o tempo de seu café da manhã pela metade, de modo que, sempre às pressas, era reprovado na inspeção matinal, sendo obrigado pelos superiores hierárquicos a subir montanhas correndo - com mochila e máscara de gás, o que era pior. Vingando-se dos oficiais, parou um dia, pensou e mijou nos bules de café. Eles tomaram tudo, garante. Grass tem certa obsessão escatológica. Quando não fala de comida (gordurosa, em geral) fala de sexo. Naturalmente, com o grande talento de escritor que é. Nas páginas que sobram reflete sobre a influência do pensamento existencialista francês sobre jovens alemães sobreviventes da guerra, recorda suas bebedeiras regadas a schlibovitz (uma aguardente infernal) e conta um curiosa incursão pelo mundo do jazz (ele tocou, acidentalmente, ao lado de Louis Armstrong num restaurante, prêmio que ele considera maior que o Nobel recebido em 1999). É, aliás, do ar fétido exalado das cebolas estocadas em seu porão que Grass extrai, inclusive, o título de seu livro. Segundo ele, a cebola é adequada para uso literário porque ajuda a recordar e amolece as glândulas lacrimais ressecadas. Pode ser que o leitor não chore com o livro, mas vai certamente sentir seu cheiro.

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