Enfim, chega ao Brasil ensaio fundamental sobre o bardo

Pode um estudo sobre Shakespeare publicado há mais de um século por um crítico vitoriano ser ainda fonte de referência para pesquisadores contemporâneos? Se esse crítico for o acadêmico inglês Andrew Cecil Bradley (1851-1935), a resposta é sim. Seu clássico estudo A Tragédia Shakespeariana (Editora WMF Martins Fontes, tradução de Alexandre Feitosa Rosas, 540 págs., R$ 76), tantas vezes reeditado lá fora, acaba de chegar às livrarias brasileiras com revisão técnica do professor John Milton, da USP, que considera o livro "o mais influente sobre a obra de Shakespeare".Publicado em 1904, A Tragédia Shakespeariana reúne dez conferências e aulas de Bradley sobre quatro peças trágicas do dramaturgo - Hamlet, Otelo, Rei Lear e Macbeth. O primeiro aspecto que destaca a abordagem de Bradley entre tantas outras é a aproximação entre a tragédia clássica, aristotélica, e a shakespeariana. Seu protagonista é sempre um ser muito acima dos comuns mortais - para o bem ou para o mal -, cuja queda trágica é decidida por um erro fatal ou fraqueza moral. Mas não só. Bradley insiste que o interesse de Shakespeare não recaía "simplesmente no caráter" dos seus personagens.Caráter não é destino em Shakespeare, defende, contrariando a consagrada noção de que são apenas os traços morais que decidem a ação do herói trágico - muitas vezes, observa, ela pode ser provocada por alguma força sobrenatural (o fantasma do pai em Hamlet), e não pelo desejo heroico de subverter a ordem estabelecida, seja por vingança ou capricho. Bradley não corrobora, por exemplo, a ideia de que Hamlet fosse um homem mais inclinado a refletir do que a agir. Hamlet gostava tanto de teatro como de esgrima. O povo, nada chegado a filósofos, o respeitava mais pelo segundo atributo, observa Bradley, que nunca dividiu a crença comum na "fraqueza" do mais famoso personagem shakespeariano.Do mesmo modo, Bradley considera insustentável a tese sobre o papel das bruxas de Macbeth, vistas como representações simbólicas da sua culpa inconsciente. Para o acadêmico, elas não são deusas nem parcas. São apenas velhas maltrapilhas, pobres macumbeiras cheias de escárnio. Macbeth, contudo, não teria sucumbido a forças externas ao praticar sórdidos atos, a despeito de alegar que recebeu "incentivo sobrenatural" da parte delas (Bradley só admite que elas o "tentam" depois do assassinato de Duncan e Banquo). Macbeth amaldiçoa-as, mas jamais transfere para as bruxas o fardo de sua culpa.Entre as tragédias analisadas por Bradley, é em Rei Lear que ele identifica o "quadro mais terrível" que Shakespeare pintou do mundo. Nem mesmo Iago, o vilão de Otelo, seria páreo para as filhas de Lear nessa tragédia em que a humanidade é reduzida à condição de massa asquerosa, frágil e bestial. Bradley conclui que um dramaturgo como Shakespeare, que raramente menciona Deus ou os deuses, pode ter sido o que hoje se chama de um existencialista, palavra ainda não cunhada no tempo do acadêmico, apesar de Nietzsche.

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