Encontro entre criador e criatura

Ao falar de guerra em O Pintor de Batalhas, Arturo Pérez-Reverte debate ética e estética nas imagens

Simonetta Persichetti, O Estadao de S.Paulo

24 de janeiro de 2009 | 00h00

O fotógrafo de guerra André Faulques acreditou, ou quis acreditar, que, ao se esconder numa torre e deixar o falso realismo fotográfico para dedicar-se à representação pictórica, estaria livre dos horrores que durante 30 anos fotografou ao mesmo tempo que poderia entender o ser humano e pintar o que não conseguiu fotografar. Mas é nessa metáfora (a torre) que ele encontra seus piores demônios, que se caracterizam pela chegada de um desconhecido ao seu refúgio.Esse é o mote inicial do livro O Pintor de Batalhas, do espanhol Arturo Pérez-Reverte. A princípio, pode parecer banal, ou mesmo clichê, mas durante a leitura, o autor, ele mesmo um ex-fotógrafo de guerra, coloca questões fundamentais que deveriam ser pensadas. A primeira, sem dúvida, é a questão da ética ou, se quisermos, a ligação entre ética e estética. A segunda questão é a de representação e como as imagens são recebidas pela sociedade contemporânea: tanto a pintura como a fotografia. Os diálogos são densos, profundos, com cortes quase fotográficos. O essencial está dito. Não tem mais, não tem menos. O livro é sobre a guerra, mas usa como pano de fundo a imagem.Ao criar um mural em sua torre - e o engraçado é que o termo fotografia documentária deriva dos murais mexicanos, na época bastante realistas e que contavam a história da revolução mexicana nos muros -, Faulques reescreve sob sua interpretação os horrores das guerras que fotografou como jornalista, mas ao pintar, ele faz de uma guerra todas as guerras. Suas certezas são questionadas, porém, quando recebe em seu refúgio, onde vive escondido e, portanto, cria na cidade uma onda de mistério a seu respeito, a visita de um ex-soldado croata que foi imortalizado pelas lentes de Faulques.O primeiro diálogo já é hilário: obviamente o fotógrafo não reconhece o visitante, só depois que o mesmo se apresenta mostrando a capa da revista onde seu rosto foi publicado: "Vira uma infinidade de rostos na vida, a maioria através do visor de uma câmera. Alguns ele havia guardado, muitos, esquecidos: uma visão fugaz, um clique do disparador, um negativo na folha de contato, que só vez por outra merecia o círculo de caneta que o salvaria de ser relegado aos arquivos." O autor aqui entra no campo dos simulacros e de como a sociedade contemporânea não consegue mais vivenciar as coisas e muitas vezes só as conhece por imagem, ou seja, simulacro. De como nos acostumamos a um conhecimento mediado pela mídia.A foto em questão teve consequências fundamentais na vida do ex-soldado e na do próprio fotógrafo. E é sobre isso que o livro discorre: um encontro entre criador e criatura. Já que o soldado não é a foto dele estampada na revista. E é a partir de uma fotografia, essa mesma fotografia que o fotógrafo se torna internacionalmente conhecido.A contemporaneidade do romance se dá no fato de que todas as questões são colocadas por meio de imagens: tanto as fotográficas como as pictóricas e as mentais. Uma conversa sobre imagem e imaginação, narrativa e memória, sobre a busca estética de um autor para contar ou narrar horrores.Por meio das imagens realizadas e de quadros de batalhas o livro é uma grande discussão sobre a guerra em si. Mas é também uma grande lição sobre o tão comentado poder da imagem. Poder que lhe é conferido pela própria sociedade que se autorretrata compulsivamente. E que gosta de sua representação imagética e quer ser vista ou conhecida da forma como aparece representado.Um belo texto, um belo romance, embora cheio de citações, de nomes de pintores e fotógrafos. O próprio autor não nega notas biográficas ao texto, mas isso pouco importa. A citação de nomes tenta legitimar uma narrativa, assim como a fotografia, para muitos, confere veracidade a um fato. Arturo Pérez-Reverte, neste livro que ultrapassa as questões da fotografia - não é um texto sobre história da fotografia, mas sobre guerra - nos lembra, porém, que ninguém é igual frente a uma imagem, nem quem a faz nem quem a olha. A intencionalidade está no olhar, assim como a ética e a estética estão nos olhos de quem decodifica uma fotografia.

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