Encarnado tece no corpo a trama da violência urbana

Cia. Lia Rodrigues mostra sua obra perturbadora até domingo na cidade

Crítica Helena Katz, O Estadao de S.Paulo

09 de novembro de 2007 | 00h00

Uma dor que fica exposta como o osso que, na fratura, fura a pele. Uma dor pelo lado de fora do corpo. É tão crua essa dor, que a sua secura explode em estilhaços e tais estilhaços vão se fincando em nós. Encarnado, de e com a Lia Rodrigues Companhia de Dança, estreou em novembro de 2005, na França, no CND - Centre Nacional de la Danse, e, exatos dois anos depois, felizmente foi trazido a São Paulo pelo Sesc Paulista.Difícil deixar clara a importância dessa obra, na qual as questões políticas, pessoais, sociais, midiáticas, artísticas e filosóficas, todas elas se imbricam umas nas outras. Estruturalmente, há algo que parece conectar todas as cenas, repotencializando as imagens que foram se tornando cada vez mais triviais, de tão repetidas pela mídia no nosso cotidiano. Com uma maestria admirável, essas mesmas imagens são resgatadas da vala comum da banalização por uma operação singular: elas parecem associadas a obras visuais de uma maneira que Lia Rodrigues ainda não havia feito. Aqui, o encarnar se faz justamente nesse jogo de referências interlinguagens, que se encarna em uma dança, que sugere um quadro, que remete a uma performance, etc.Há várias situações que fiam esse tecido espesso entre artes visuais e dança. Você pode escolher com qual Madona e o Menino quer ligar a cena da mãe com sua criança no colo (Amalia Lima e Ana Paula Kamozaki) e, nessa operação, vão aparecendo também as inúmeras fotos já vistas de mães carregando os cadáveres de seus filhos (Como a dor dos outros nos afeta?). Ou pode ligar o momento do punho erguido de Leonardo Nunes, com aquelas fotos de revolucionários de todos os tipos de ideologia, quanto com Lígia Clark - ela, uma presença a abençoar também os saquinhos de ketchup/sangue e creme de leite de Encarnado (Ainda é possível se aproximar do outro?).Quando Leo Nabuco, Gustavo Barros, Leonardo Nunes e Allyson Amaral se postam juntos, pode-se pensar no Os Cidadãos de Calais (1884-1886), a homenagem de Rodin aos habitantes da cidade de Calais que, em 1347, se entregaram como reféns ao rei Eduardo III, da Inglaterra, na esperança de que o cerco que lhes estava sendo imposto fosse suspenso. (A dança pode interferir nas desigualdades que pautam o Brasil?) E, no momento em que o sangue/ketchup começa a escorrer pelas costas de Celina Portella, assoma Ana Mendieta (Como a nossa própria dor nos afeta?)É muito intrigante esse jogo entre imagens da mídia e das artes visuais que a habilidade de Lia Rodrigues materializa como dança. E quando se encarna na forma de dança, modifica também as metáforas que habitualmente associamos àquelas imagens. Trata-se de algo assemelhado a uma curiosa operação de translado que, ao levar de uma linguagem para outra, não transfere os significados.O desempenho da companhia tem um papel central nesse entretecer. Os dois anos que separam a estréia no CND da estréia em São Paulo promoveram mudanças intensas. Não somente porque dois intérpretes-criadores deixaram a companhia (os excelentes Micheline Torres e Jamil Cardoso), mas sim porque os dez artistas que permanecem envolvidos chegaram a um tônus mais adequado ao tipo de não interpretação teatral que a obra pede. A intensidade que sublinhava cada ação foi substituída por uma desimpostação que permite que a violência forme poças de desconforto.Cada qual marca a sua participação com muita propriedade. Destaca-se a maturidade de Ana Paula Kamozaki, o crescimento artístico de Allyson Amaral, o desabrochar de Leonardo Nunes, em meio à qualidade compartilhada por todos os intérpretes.Fundada em 1990, a Lia Rodrigues Companhia de Dança foi convidada pelo Ceasm - Centro de Estudos e Ações Solidárias da Maré, em 2003, a tornar-se residente na Casa de Cultura da Maré. A ida para a Favela de Maré, um conjunto de comunidades populares, no Rio de Janeiro, que reúne cerca de 132 mil moradores, foi assumida como a experiência de colocar em convivência diária uma companhia profissional de dança contemporânea e uma instituição social. Uma estratégia que responde, de forma criativa e competente, ao que equivocadamente se reúne debaixo da etiqueta ''''contrapartida social''''. Trata-se de um ativismo exemplar, de amplo alcance, que já trouxe para a companhia três bailarinos e todo um outro entendimento de dança.Encarnado, que já foi apresentado mais de 100 vezes em 11 países, não pode ser bem compreendido fora do ambiente no qual foi criado. Esse seu caráter de processo permanente carrega o dia a dia de quem vai descobrindo como conviver com tiroteios, bloqueios de rua promovidos por disputas entre facções inimigas, como compartilhar com uma arquitetura que trabalha com outra definição de espaço, como enfrentar o desafio de criar em um calor de 44º, como desvendar todo um outro código de comunicação.Ao se inscrever no limite tão tênue entre a dor e o que causa a dor, desmantela qualquer possibilidade de vínculo causal entre ambas. Não à toa, está povoado de secreções e vísceras. Tendo como ponto de partida o livro Diante da Dor dos Outros, de Susan Sontag, Encarnado tem o mérito de nos fazer pensar sobre a extensão e a profundidade das dores que importam. Pena que a temporada se encerre já no domingo.Serviço Lia Rodrigues. 60 min. Unidade Provisória Sesc Avenida Paulista (50 lug.). Avenida Paulista, 119, 3179- 3700. Hoje, 20 h; amanhã e dom., 19 h. R$ 5 a R$ 20. Até domingo

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