Encarando a crise da meia-idade

A fluidez e humanidade do argentino Daniel Burman em Ninho Vazio

Luiz Zanin Oricchio, O Estadao de S.Paulo

30 de janeiro de 2009 | 00h00

O cinema de Daniel Burman, sem ser o melhor do mundo, flui. Corre como água, como sabe quem conhece seus trabalhos anteriores lançados no Brasil, Abraço Partido e As Leis de Família. São filmes que tratam do universo pequeno, íntimo, familiar, com suas aspirações e seus conflitos. Não têm a abrangência de obras de outros diretores de mesma geração como Lucrécia Martel e Pablo Trapero, mas são extremamente agradáveis de se ver. Assista ao trailer de Ninho VazioPor falar em geração, Burman aborda um universo que ainda não é o seu. Ele é jovem e aqui explora conflitos que, na vida real, deverá enfrentar mais tarde, quando chegar à meia-idade. É nessa quadra da vida que estão os personagens centrais, Leonardo (Oscar Martínez) e Martha (Cecilia Roth). Uma filha já saiu de casa e outra passa a noite fora, com o namorado, para desespero do pai. Leonardo e Martha estão prontos para ficar sozinhos, um para o outro, no tal do "ninho vazio" em que se transforma a casa quando os filhos batem asas para fazer a própria vida?É a hora da crise. Hora de redefinir objetivos e prioridades. Martha retoma os estudos e parece bem feliz. Leonardo, que é dramaturgo, sente-se mais fechado em si mesmo. Mais tímido, tranca-se para escrever e dedica-se a hobbies como o aeromodelismo. Mesmo assim, arruma uma aventura enquanto faz um tratamento dentário e então...Então tudo parece convencional, não é? Acontece que o cinema de Burman, em certo sentido, exibe subtextos que desmentem sua aparente simplicidade. Leonardo é mesmo um homem em crise, mas em que medida as estratégias que adota para enfrentá-la pertencem ao mundo real ou da fantasia? Eis a questão central, que perpassa o filme e coloca o espectador em posição de saudável dúvida. Sabemos que o narrador (porque o foco se estabelece de cara em Leonardo) é um homem da imaginação. E, portanto, não confiável, se relacionarmos a confiabilidade a uma maneira de estar, sentir e descrever o mundo de maneira objetiva. Há alguns momentos que fornecem pistas ao espectador e são francamente fellinianos, se forçarmos um pouco o termo e os aproximarmos do onírico, do mundo dos sonhos. Assim, a incursão do personagem a um shopping, acompanhado no elevador por músicos que tocam o Bolero de Ravel, não parece pertencer a uma ordem "natural" das coisas. O mesmo para a cena, altamente poética, do casal que flutua com emocionante placidez num mar de sonho, mar de uma cor tão irreal que parece recriado num daqueles estúdios de Cinecittà onde Fellini rodava suas maravilhosas fantasias. Claro, é apenas uma aproximação; o cinema de Burman é muito mais pedestre, se o termo não for ofensivo. É mais pão pão, queijo queijo e não visa a nenhuma altura metafísica ou existencial. Do que trata, afinal, é dessa tal crise da meia-idade, mostrando que talvez uma boa solução para ela esteja na criatividade, nesse ato incerto e muitas vezes curativo de inventar um mundo e projetá-lo numa obra de arte, seja um filme, ou uma simples folha de papel. No mais , o que se tem em Ninho Vazio é a boa interpretação do par principal, sendo que atores competentes é o que não falta na Argentina. Verdade que Cecilia Roth, uma das atrizes famosas do país vizinho, já esteve em papeis mais matizados. Oscar Martínez leva seu personagem a uma zona fronteiriça entre a sobriedade e a leve farsa, como que "bromeando" consigo mesmo à maneira bem portenha. São ambas interpretações de personalidade, num filme pequeno mas nem por isso menor. ServiçoNinho Vazio (El Nido Vacio, Argentina/ 2008, 91 min.) - Comédia dramática. 12 anos. Cotação: Bom

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