Empregada seduz Cannes

No papel da doméstica Cleuza, do filme Linha de Passe, a atriz Sandra Corveloni ganhou o prêmio de melhor interpretação feminina no festival que terminou ontem

Luiz Carlos Merten, CANNES, O Estadao de S.Paulo

26 de maio de 2008 | 00h00

Walter Salles e Daniela Thomas olharam-se no palco do Grand Théâtre Lumière com cara de quem se pergunta - "Será que ouvimos direito?" - quando Jean Reno, chamado a apresentar o prêmio para a melhor atriz do 61º Festival de Cannes, anunciou que o troféu ia para Sandra Corveloni, por Linha de Passe. O filme que o diretor tantas vezes chamou carinhosamente de "pequeno" já havia sido muito bem recebido pela crítica internacional, mas faltava o aval do júri presidido por Sean Penn, e ele veio sob a forma de um prêmio para a atriz de teatro que faz sua estréia no cinema interpretando a mãe de quatro filhos (grávida do quinto). Salles e Daniela subiram ao palco, ambos muito emocionados. Salles agradeceu a contribuição de Sandra, dizendo que ela foi realmente uma mãe para os quatro jovens atores. Daniela, falando em português, disse que a atriz vencedora não pôde vir a Cannes por causa de uma gravidez interrompida, mas seria muito importante, num momento destes, receber reconhecimento por uma entrega que foi tão visceral.Em 1986, a jovem Fernanda Torres recebeu esse mesmo prêmio, pela participação em Eu Sei Que Vou Te Amar, de Arnaldo Jabor. O momento do Brasil ocorreu logo no começo da cerimônia de premiação, e foi comovente pela felicidade da dupla de diretores, mas a apoteose veio no fim, quando Robert De Niro, chamado para entregar a Palma de Ouro, perguntou ao presidente do júri qual era o vencedor e Sean Penn disse que, por unanimidade, o prêmio ia para... Entre les Murs (The Class), de Laurent Cantet. Foi o último filme exibido na competição. Passou no sábado pela manhã, para a imprensa, e à tarde teve a sessão de gala, coroada por mais de dez minutos de aplausos que foram ficando ritmados. A decisão do júri foi muito bem recebida no palais e na Sala Debussy, de onde a imprensa acompanhava a cerimônia. Na própria sala de imprensa, os que ali haviam ficado para garantir o acesso aos computadores aplaudiram vivamente.Cantet subiu ao palco com seu ator, o professor François Gégaudeau, que relatou a própria experiência na sala de aula no livro que o cineasta usou como ponto de partida. Com eles foram os garotos e garotas que formam a turma da sala, todos adolescentes. Por volta do meio-dia, o repórter do Estado entrevistou ambos, o ator e o diretor. Cantet estava tranqüilo, nem um pouco ansioso, mas foi sucinto para explicar por que quis fazer a adaptação. "Meu filme não é conceitual. É um filme realista, feito no nervoso desse elenco jovem e entusiasmado. Instalei-me com a câmera na escola, e na sala de aula. Dali não precisei sair porque a verdade é que o mundo inteiro coube nesse espaço."

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