Galeria Simões de Asssis
Galeria Simões de Asssis

Emanoel Araújo e Rubem Valentim juntos

A exposição 'Cosmogonia dos Símbolos', do escultor, aberta neste sábado na Galeria Simões de Assis, incorpora telas do pintor

Antonio Gonçalves Filho, O Estado de S. Paulo

26 de junho de 2021 | 05h00

Os deuses africanos, conspirando para que a geometria encontrasse a religião, fizeram nasceu a exposição Cosmogonia dos Símbolos, que o escultor Emanoel Araújo abre neste sábado (26) em duas capitais simultaneamente, São Paulo e Curitiba, ocupando as duas sedes da Galeria Simões de Assis, que passa a ter a representação exclusiva do artista. Na primeira, ele tem como parceiro o pintor, também baiano, Rubem Valentim (1922-1991). Valentim, hoje um nome disputado por colecionadores, deixou, ao morrer, telas e desenhos inacabados dedicados à mulher, Lúcia Alencastro Valentim, pioneira em arte-educação no Brasil. Algumas delas foram incorporadas às obras escultóricas de Emanoel, que promoveu a pintura de Valentim quando dirigiu a Pinacoteca do Estado.

“Em trabalhos que mostro em São Paulo, essas pinturas e desenhos inacabados estão presentes”, revela Emanoel, apontando afinidades entre sua escultura e a pintura de Valentim. Um sobrinho do pintor, temendo que essas obras incompletas fossem eventualmente colocadas no mercado de modo pouco claro, presenteou-as ao escultor, um dos primeiros a reconhecer a importância e a estatura de Valentim quando montou a histórica exposição A Mão Afro-Brasileira, em 1988, e, depois, Arte e Religiosidade no Brasil – Heranças Africanas (1997).

Emanoel conta que, até 1977, a questão religiosa apenas tangenciava suas esculturas abstratas marcadas pelo construtivismo. Os temas geométricos, segundo a historiadora e antropóloga Lilia Schwarcz, autora de um ensaio sobre o artista no catálogo da exposição, eram reforçados por um cromatismo pan-africano devedor das tradições religiosas – o vermelho, o preto e o verde, cores características dos orixás. Emanoel admite que, após sua participação na segunda edição do Festac (Festival Mundial de Arte e Cultura Negra e Africana), realizada em 1977 em Lagos, na Nigéria, seu trabalho passou a fomentar esse diálogo. “Fui entrando aos poucos no universo do candomblé”.

Rubem Valentim, quase 20 anos mais velho, já era iniciado no candomblé ao desembarcar no Rio vindo da Bahia. Marcado pela linguagem dos neoconcretos – especialmente os metaesquemas de Oiticica –, ele, que era um pintor figurativo, abandonou a figuração e adotou esquemas geométricos extremamente simplificados. No entanto, seu construtivismo não abjura a forte ligação com o universo afro-brasileiro. Um dos mais frequentes símbolos que aparece nessa pintura é, por exemplo, o machado de Xangô. Outra referência forte, traduzida numa obra apresentada na 16ª. edição da Bienal de São Paulo, realizada justamente em 1977, ano da “iniciação’ de Emanoel, é o Templo de Oxalá de Valentim, conjunto de relevos e objetos emblemáticos brancos que inspiraram muito a escultura do diretor e fundador do Museu Afro-Brasil.

“Essas obras que fazem referência à cosmogonia afro assustavam as pessoas e não vendiam”, relata Emanoel. “Valentim ficou muito sensibilizado quando escolhi uma dessas pinturas totêmicas suas como cartaz da mostra A Mão Afro-Brasileira”, conta o escultor, que preparava já há algum tempo uma série dedicada à cosmogonia dos deuses africanos. Doze dessas esculturas foram perdidas no incêndio que destruiu valiosas obras de arte em março deste ano, num galpão do grupo Alke, em Taboão da Serra, na Grande São Paulo. Emanoel não desistiu. E preparou novas obras para a recente exposição em que retoma a questão simbólica com a ajuda da leitura de Pierre Verger (1902-1996). A mitologia Iorubá é referência para contar como os deuses forjaram o mundo como o conhecemos. Essa história é representada em três diferentes séries de Emanoel Araújo em São Paulo. Para a galeria de Curitiba, diz ele, reservou apenas suas obras geométricas.

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