Em tom de fábula, autor dilui sua linguagem inventiva

Fã confesso de Guimarães Rosa, Mia Couto se afasta do ídolo e oferece mais do mesmo em narrativas melodramáticas

Entrevista com

Ronaldo Bressane, O Estadao de S.Paulo

14 Março 2009 | 00h00

O novo Rosa. Modo grosso, foi o que o povo todo acordou, tão logo o moço moçambicano pôs a lume o luminoso Terra Sonâmbula (1993). Um João Guimarães Rosa de sintaxe mais lisa, de verbosidade mais limpa, de palavras africanas menos crespas; médico como o mineiro, se o nosso viveu em mar de rosa, diplomata, do outro lado do Atlântico António Emílio Leite Couto fazia lente de pedra, da guerra que minou e dividiu o país (porém como jornalista e agora biólogo); em Moçambique, metade do povo sequer sonha lê-lo, por falta de tato com a leitura. E assim podíamos prosseguir rosetando entre trocadilhos e analogias, entre Cordisburgo e Beira, a cidade-natal de Mia Couto. Mia deve se irritar com a comparação (ou talvez não, já que colocou o autor de Grande Sertão: Veredas como estrela-guia), mas não há como não recordar a melopéia do brasileiro neste O Fio das Missangas. Os contos da antologia ecoam o estilo único das rosianas estórias de Tutaméia naquilo que têm de mais particular: a linguagem. Há porém um oceano de distâncias. Ler um autor a partir de outro também não é lá um modo elegante de velejar pela crítica. Porém, o que pareciam, em Terra Sonâmbula ou nos esplêndidos contos de Cada Homem É uma Raça, originais visitações aos procedimentos rosianos, em O Fio das Missangas estabelece-se certa acomodação. O aspecto mais sensível nessa queda é a rarefação dos argumentos. Muito menos que em ações, há histórias todas centradas nas palavras, menos ainda que nas coisas que as palavras nomeiam - e, se muito do encanto de Couto era nutrido pela imposição da magia literária via pesquisa de linguagem, aqui a linguagem ameaça quebrar o conto por excesso de requinte, sem no entanto trazer novidade. A maioria dos contos desenrola-se em algum lugar longe, no tempo e no espaço, o que, se por um lado traz uma aura encantatória, por outro trai certo enfado. Não há personagens: há tipos com nomes literários, tipo Zedmundo Constante, Seis. Se a linguagem se antepõe à narração e instaura um tempo mítico, as analogias e comparações invariavelmente transitam pela natureza ("Há mulheres que querem que o seu homem seja o Sol"). Se há excelentes neologismos, como "esferográvida", "homosensuais" e períodos brilhantes ("Venâncio estava na violência como quem não sai do seu idioma"), Couto cavouca a metáfora e a dilui piorando tudo com um melodramático "O cão se habitua a comer sobras. Como eu me habituei a restos de vida". Entre o sentimento do fantástico (Kafka, Cortázar e no melhor Rosa) e o sentimento do maravilhoso (García Márquez), Couto quase sempre se aproxima do segundo tom. Evidente que é complicado contar histórias como a de Zuzézinho, o homem que caía, sem sustentar-se em uma linguagem inventiva. Certamente, porém, uma história dessas poderia vingar sem truques do tipo "tudo isso de um sonho se tratou", o mais manjado dos coelhos literários. De um lado é delicioso topar com sacadas como "os pássaros mais sua avegação", por outro a continuar com "minhas lembranças são aves. A haver inundação é de céu, repleção de nuvem. Vos guio por essa nuvem, minha lembrança" acaba-se por deitar o novo em banho-maria. E por falar nisso, são femininas muitas das narradoras. Mulheres sofridas, amam sem ser amadas, escondem o amor, aparentadas à narradora de O Caso do Vestido, de Drummond: "Na minha vila, a única vila do mundo, as mulheres sonhavam com vestidos novos para saírem. Para serem abraçadas pela felicidade" (A Saia Almarrotada). O que também contribui por afastar essas narrativas em um mundo agrário, machista, rude: "Elas desencobriam as pernas para maravilhações. Eu tinha joelhos era para descansar as mãos", declaração impossível de ser compreendida pela geração Sex and the city. Verdade é que a leitura só empolga quando as histórias deixam o campo da fábula e adentram a concretude de um conto como O Mendigo Sexta-Feira Jogando o Mundial. Ou quando a Vovó Ndzima demonstra a estranheza de hospedar-se num hotel (A Avó, a Cidade e o Semáforo). No capotamento da modernidade sobre o mito e vice-versa, nisso sim não há prosa subrosa nem rosa-chá diluindo a escrita: aí sim ouvimos de novo o velho e bom Mia Couto, inventado, por inventor. Ronaldo Bressane é escritor e jornalista, autor de Céu de Lúcifer, entre outros

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