Joel Saget/AFP
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Em Paris, Sebastião Salgado acusa governo Bolsonaro de 'mentir para continuar destruindo' a Amazônia

Sebastião Salgado apresenta na França a mostra Amazônia, com 200 fotos; exposição segue depois para Londres, Roma, Rio e SP

Hillel Italie e Anna Pelegri, AFP

20 de maio de 2021 | 14h58

Aos 77 anos, recostado em sua esposa, Sebastião Salgado poderia dar uma impressão de fragilidade por trás da máscara. Mas quando toma a palavra, o lendário fotógrafo demonstra uma vitalidade louvável, seja para defender a Amazônia ou para criticar aqueles que acusa de destruí-la.

Salgado apresentou nesta semana em Paris seu último trabalho, Amazônia, que introduziu com uma mensagem militante: "Todos temos que lutar" e "ajudar os movimentos de resistência brasileiros" a frear o desmatamento, afirmou, denunciando que o governo do presidente Jair Bolsonaro tenta "se apropriar dos territórios indígenas e dos parques nacionais" para desenvolver novas extensões agrícolas.

Como explicou à AFP, sua luta por meio da fotografia está longe de acabar.

Qual é o objetivo de seu último trabalho 'Amazônia'? 

Queremos que as pessoas que forem ver esta exposição tomem ciência do que é a Amazônia. Não é só uma grande planície com grandes rios no centro. Também é a montanha, um sistema de água, os 'rios voadores' que chegam a quase todas as regiões do mundo e as comunidades indígenas. Portanto, é uma tentativa de apresentar a Amazônia.

Sua exposição também chama a atenção para as ameaças que pesam sobre este ecossistema, começando pelo desmatamento.

A grande esperança é que juntos conseguiremos frear a destruição dos biomas amazônicos, que conseguiremos protegê-los, e proteger também as comunidades indígenas. Não só para preservá-los, mas porque precisamos deles para o planeta: a Amazônia garante uma grande distribuição de umidade no planeta (...), além de sequestrar o carbono graças a esses milhões de árvores que se ocupam de transformá-lo e liberar o oxigênio que respiramos.

Na cúpula sobre o clima do mês passado, o presidente Jair Bolsonaro se comprometeu a eliminar o desmatamento ilegal no Brasil em 2030, depois de ter aumentado drasticamente desde que ele chegou ao poder em janeiro de 2019. Acredita que é possível?

O governo de Bolsonaro conta uma mentira atrás da outra. Dá a impressão de que resolve os problemas, mas mente para continuar destruindo. Depois de fazer essa declaração no grande encontro organizado pelo presidente dos Estados Unidos (Joe Biden), no mesmo mês houve a maior destruição da floresta amazônica, pouco depois da sua promessa.

Um total de 580,55 km2 foi desmatado na Amazônia brasileira em abril, um nível recorde para esse mês, segundo dados oficiais.

Sebastião Salgado abre a mostra 'Amazônia' em Paris

Celebrar o que ainda resta para conseguir protegê-lo. É com esta intenção que o internacionalmente reconhecido fotógrafo brasileiro Sebastião Salgado lança, em Paris, a mostra Amazônia, fruto de uma viagem de sete anos pelas entranhas da maior floresta tropical do mundo.

Inaugurada nesta quinta-feira, 20, na Filarmônica de Paris, a mostra nasceu com vocação internacional. Vai viajar por cidades como Londres e Roma, além de São Paulo e Rio de Janeiro, da mesma forma que seu grande trabalho anterior, Gênesis, deu a volta ao mundo para mostrar os lugares mais bonitos e remotos do planeta.

Mas Amazônia é, sem dúvida, seu trabalho mais pessoal e reivindicativo. Salgado, de 77 anos, tinha a intenção de convidar à inauguração lideranças indígenas para fazer ouvir suas vozes contra a destruição de seu habitat e suas consequências para o planeta. Ele espera fazer isso assim que a pandemia diminuir.

Entrar na exposição é empurrar uma porta para a floresta tropical e entrar em uma jornada de fotografias em preto e branco que caminham na penumbra, como uma expedição na selva.

A viagem é acompanhada por música composta para a ocasião pelo compositor francês Jean-Michel Jarre, um dos pioneiros da música eletrônica. 

Desde as primeiras vistas aéreas, que fez acompanhando o Exército em missões na Amazônia brasileira, Salgado transforma a natureza exuberante em uma arte cuja força reside numa estética imaculada.

O fotógrafo lembra a cada clichê que esse ecossistema que ocupa quase um terço do continente sul-americano e que engloba nove países, principalmente o Brasil, é a soma de elementos.

A começar pela água, com o Amazonas e seus afluentes que serpenteiam a terra por milhares de quilômetros, os verdadeiros "rios voadores" - enormes torrentes de vapor que se formam sobre a floresta - e as chuvas torrenciais, que nas fotografias de Salgado parecem capazes de encharcar o observador.

"A Amazônia é a pré-história da Humanidade, o paraíso na Terra", afirmou Salgado na apresentação à imprensa da mostra, com a qual quer despertar "consciências".

Depois do exuberante, chega-se ao coração da selva: Sebastião Salgado apresenta os dez grupos indígenas com os quais conviveu durante sua jornada de sete anos, além de outras viagens pontuais, a última em fevereiro deste ano. 

Indígenas yanonamis, marúbos, yawanawás... o fotógrafo os convida para seu "estudo" entre as árvores: um lençol branco pendurado ao fundo e um plástico no chão pronto para ser enrolado após a irrupção de um chuva.

Alguns se vestem para a ocasião, pintando o corpo e usando um cocar de penas.

Salgado espera que sejam eles que tomem a iniciativa, da mesma forma que só chegou a essas comunidades depois de obter sua autorização e no dia que determinaram, graças à mediação da Fundação Nacional do Índio (Funai).

As 200 fotografias que compõem a exposição imaginada e montada pela esposa do fotógrafo, Lélia Wanick Salgado, são acompanhadas pela música de Jarre, que também fez uso dos arquivos sonoros da Amazônia que estão no Museu de Etnografia de Genebra.

"Nem Salgado nem eu queríamos música ambiente ou exclusivamente étnica. Uma floresta é muito barulhenta, tem sons independentes, não é como uma orquestra". E ainda "é harmoniosa para o ouvido humano", disse o compositor.

Para Jarre, "a exposição poderia ter sido fruto de um documentarista, mas é obra de um artista. Salgado nos convida a um passeio místico, que é o que precisamos agora que começamos a sair desta pandemia".

 

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