Em NY, a graça da arte de Calder

Em dois espaços na cidade estão suas joias e trabalhos realizados na França

Tonica Chagas, NOVA YORK, O Estadao de S.Paulo

30 de janeiro de 2009 | 00h00

Filho e neto de artistas que se aperfeiçoaram em Paris e com um dom, desde menino, para transformar pedaços de fio elétrico e quinquilharias em animaizinhos e bijuterias, na juventude o escultor americano Alexander Calder (1898-1976) não parecia entusiasmado em fazer disso sua profissão. Só depois de formado em engenharia mecânica e trabalhar como ilustrador de revistas e jornais é que ele tomou o rumo da capital francesa. Ficou por lá sete anos e, quando voltou para os Estados Unidos, trazendo seu cirquinho nas malas, tinha desenvolvido a noção de desenhar no espaço, criado seus móbiles e incorporado o movimento como material na escultura do século 20. Esse período de formação e transformação é lembrado em Alexander Calder: The Paris Years, 1926-1933, exposição que o Whitney Museum, em Nova York, exibe até 15 de fevereiro e será vista no Centre Pompidou, em Paris, entre 18 de março e 20 de julho. Em NY, a oportunidade de apreciar a simplicidade e graça da obra de Calder é dupla. O Metropolitan Museum mostra, até 1º de março, uma vertente pouco conhecida da produção do escultor depois de ele ter vivido na França, com a primeira exposição só de joias criadas por ele apresentada num museu.BRINCANDOEm 1926, com US$ 75 que a mãe lhe deu, Calder alugou um estúdio em Montparnasse, o bairro dos artistas que viviam na Paris dos "anos loucos". Pretendia virar pintor e, circulando pelos cafés, estúdios e pela Académie de la Grande Chaumière, tornou-se amigo de Piet Mondrian, Fernand Léger, Joan Miró e Marcel Duchamp, gente que, mais tarde e como ele, estaria entre os principais nomes da arte do século passado. Muitos daqueles amigos e várias celebridades foram modelo para a forma de retrato que ele inventou. Com destreza no desenho em linha contínua, Calder passou a desenhar em três dimensões e trocou o lápis, o carvão ou a tinta pelo arame. A exposição no Whitney documenta a origem do Calder que se conhece hoje a partir dessas esculturas, desenhos, e também por filmes, fotografias e ilustrações publicadas cerca de 80 anos atrás. Mas ela já é percebida na criatividade do Calder de 10, 11 anos de idade que, para se divertir, recortava figuras de cachorros ou patos em folhas de latão ou que, aos 13, criou um engenhoso quebra-cabeça na forma de um pequeno zoológico de madeira e metal. Pouco depois que ele chegou a Paris, um comerciante, ao ver suas pequenas esculturas, sugeriu que ele criasse brinquedos articulados para vender. Ele não apareceu mais para fechar o negócio, mas Calder acabou mostrando aquele trabalho num salão de humor. Antes de acabar o ano, várias daquelas figurinhas já compunham o circo em miniatura que virou um dos ícones na obra dele e, muitas vezes, graças a ingressos cobrados para suas apresentações, pagou seu aluguel. O circo de Calder, que é uma das obras principais do acervo do Whitney, é visto na mostra com todos os seus picadeiros e elenco. As performances que o escultor fazia com ele são revividas num DVD do filme em que Jean Painlevé as documentou, entre 1927 e 1955.Alexander Calder: The Paris Years sublinha a importância da amizade e do diálogo de Calder com outros artistas que ele conheceu na cidade, principalmente a influência que Mondrian teve sobre o trabalho dele. Em 1930, ao ver as pinturas retangulares de papelão que Mondrian prendia nas paredes de seu estúdio, Calder teve uma ideia para fazê-las oscilar no espaço. Sugeriu isso ao pintor, mas esse preferiu deixar suas abstrações estáticas como eram. Estimulado pelas linhas e cores de Mondrian, Calder voltou ao pincel e começou a pintar abstrações geométricas. Nas três últimas galerias da exposição no Whitney, vê-se como, logo em seguida, ele passou a esculpir formas abstratas, criando as primeiras esculturas a que Duchamp daria o nome de móbiles. Esse passo marcaria o resto da carreira dele. "Assim como se pode compor cores ou formas, pode-se compor movimentos", dizia Calder. Em Paris, ele libertou a escultura da massa da argila ou do bronze e, dando a ela leveza para movimentar-se com um motorzinho ou um simples sopro de ar, criou sua arte inconfundível como se ainda fosse menino e estivesse brincando.A joalheria de Calder também aparece já na infância dele. Aos 8 anos, começou a fazer colares, anéis e tiaras para enfeitar as bonecas de sua irmã mais velha. Uma das primeiras peças que criou como adulto foi um colar com um inseto abstrato como pendente, feito em 1928, quando explorava a escultura em arame, em Paris. Calcula-se que ele tenha produzido em torno de 1.800 peças, a grande maioria para presentear amigos e parentes. Em Calder Jewelry, o Met exibe 90 delas. As peças têm mais em comum com ornamentos corporais de culturas antigas do que com joias na forma tradicional europeia. Na sua coleção particular de arte, ele tinha objetos africanos, da Oceania e pré-colombianos e elas o influenciaram na criação dos adornos. A predileção dele era pelo primitivo, tanto em estilo como em técnica, e seus motivos mais típicos eram espirais, nós e formas entrelaçadas, além de abstrações e figuras estilizadas de animais.Em várias delas se vê, além do artista, o tipo de humor dele. Ao dar um broche com carinha de coelho feito de prata e fio de aço para Muriel, mulher do escritor e crítico Malcolm Cowley, ele disse: "Use isso, talvez salve algumas peles." Isso porque Cowley atirava nas lebres que visitavam seu jardim. Um colar de latão dourado de 1940 é marcado por pares de hastes pontudas na altura dos ombros e poderia ser interpretado como uma coleira de fidelidade. Ele batizou a peça de O Marido Ciumento.Jane Adlin, uma das curadoras de arte moderna e contemporânea do Metropolitan, observa no catálogo da exposição que a joalheria de Calder vem no impulso da experimentação estimulada em parte pelas ideias do movimento de "arts and crafts" do fim do século 19, que reagia à revolução industrial com a busca pela simplicidade do design, por objetos artesanais e materiais locais. E também da art déco francesa, estilo que começou a usar materiais como vidro, esmalte e chifre combinados com ouro e diamantes para criar joias que não tinham a obrigação de ser símbolo de status. Calder diminuiu a produção de joias depois dos anos 40, mas suas peças continuaram no gosto principalmente de colecionadores como as milionárias Peggy Guggenheim e Mary Rockefeller, a pintora Georgia O''Keeffe e a atriz Jeanne Moreau. Assediado por galerias que queriam representar e duplicar suas peças para distribuição, o escultor dizia que preferia mantê-las como objetos de arte, mesmo se algumas pessoas não pudessem tê-las. Cada colar, bracelete, anel, broche ou brinco que ele fez é peça única, singular como toda a arte de Calder.

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