Daniel Teixeira/Estadão
Daniel Teixeira/Estadão

Grada Kilomba questiona quem detém o conhecimento na arte com sua exposição

'Grada Kilomba: Desobediências Poéticas', primeira mostra individual da artista portuguesa no Brasil, fica na Pinacoteca de São Paulo até o dia 30 de setembro de 2019

Guilherme Sobota, O Estado de S. Paulo

25 de julho de 2019 | 03h00

A obra e a filosofia de Grada Kilomba há anos têm circulação na universidade brasileira, mas seu nome só chegou ao grande público recentemente, com uma participação na Bienal de São Paulo, em 2016, mas principalmente com sua presença na Festa Literária Internacional de Paraty deste ano – onde o seu Memórias da Plantação (Cobogó) foi o livro mais vendido – e, agora, com a abertura da exposição Grada Kilomba: Desobediências Poéticas, primeira individual da artista portuguesa no Brasil. A mostra fica na Pinacoteca de São Paulo até o dia 30 de setembro de 2019.

A exposição é composta por quatro obras: duas instalações em vídeo em que a artista dá nova interpretação a contos mitológicos, do Narciso e de Édipo; as projeções de The Dictionary, feitas especialmente para a Pinacoteca, onde ela reinterpreta cinco palavras (negação, culpa, vergonha, reconhecimento e reparação) com uso de textos e sons; e uma escultura, Table of Goods, em que produtos coloniais como açúcar, café e cacau são inseridos num monte de terra – com a intenção de contar uma história do colonialismo e da exploração de trabalhadores africanos escravizados.

“Embora tenhamos uma história em comum, e a população esteja pronta para receber, demorou muito tempo”, diz a artista, nascida em Portugal, com raízes em Angola e doutora em filosofia em Berlim, sobre a divulgação de trabalhos como o seu. “Ambos os países (Brasil e Portugal) ainda têm um discurso muito ancorado ao colonialismo e que baseia toda sua narrativa na romantização do passado, e portanto não permitem que plataformas se abram para artistas e escritoras que desmontam essa história. Não é por acaso que demora tanto para chegar”, explicou a artista.

A autora explica a natureza híbrida do seu trabalho: partindo da psicanálise e do contato com sobreviventes de guerras, passando à escrita e ao ensino, e depois se preocupando com a visualidade e as artes plásticas, a intenção é justamente embaralhar classificações prévias. “Isso é importante para descolonizar o conhecimento. Gosto de confundir as plataformas, instituições, museus, festivais de literatura. O elemento de não saber como classificar um trabalho é muito relevante para as novas gerações de artistas.”

As intenções ganham vida em Illusions Vol. II, Oedipus, comissionado pela Bienal de Berlim e agora em exposição na Pinacoteca. No vídeo – mistura de narrativa textual, atuação teatral, performance e cinema –, atores interpretam, sob uma narração da voz espectral da artista, o mito de Édipo, recontado como crônica de violência histórica, racial e colonial, e não de desejo.

“Muito do trabalho da Grada é isso: Quem fala? Quem tem o direito de narrar a história? Os quatro trabalhos expostos aqui elaboram sobre isso: a quem pertence a verdade?”, explica o diretor-geral da Pinacoteca e um dos curadores, Jochen Volz.

Os questionamentos da obra artística de Grada Kilomba se relacionam diretamente com o modo como a Pinacoteca vem pensando em uma nova configuração de sua própria coleção, em exposição permanente no espaço. “A Pinacoteca contava com esse trabalho para questionar a grande narrativa da arte brasileira que está descrita aqui”, diz a curadora-chefe do museu, Valéria Piccoli, que afirma que a exposição atual do acervo está em seu epílogo. Em 2020, uma nova mostra do acervo será montada. “Entendemos que as narrativas de 2011, quando a exposição foi montada, não se sustentam mais. Fica claro que a história contada aqui não é a história do Brasil. Dar a possibilidade de pelo menos provocar essa reflexão é muito importante”, conclui Volz.

GRADA KILOMBA: DESOBEDIÊNCIAS POÉTICAS

Pinacoteca. Praça da Luz, 2, tel. 3324-1000. 4ª a 2ª, das 10h às 17h30. Ingresso: R$ 10.

 

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