ISABEL KERSHNER
ISABEL KERSHNER

Em Israel, mostra traz traços desde Tutancâmon até a era dos emojis

Exposição 'Emóglifos' mostra a complexa, relação entre o sistema de comunicação da Antiguidade e a língua franca da era cibernética

Isabel Kershner,   NEW YORK TIMES / JERUSALÉM

27 de janeiro de 2020 | 06h00

As figuras de cores fortes e olhos delineados gravadas em antigas tumbas egípcias ao lado de oferendas para os deuses estão gozando de uma espécie de pós-vida gráfica, reencarnadas nos emojis de alegria, tristeza e raiva das mensagens digitais. Uma exposição no Museu de Israel, em Jerusalém, Emoglyphs: Picture-Writing From Hieroglyphs to Emoji (Emóglifos: a escrita pictórica, do hieróglifo ao emoji, em tradução livre), mostra a aparentemente óbvia, e ao mesmo tempo complexa, relação entre o sistema icônico de comunicação da Antiguidade e a língua franca da era cibernética. 

Em um exercício visual e linguístico feito numa viagem no tempo, Emogliphs justapõe os antes indecifráveis ideogramas do Egito antigo, criados há mais de 5 mil anos, ao uso mais acessível e universal de pictogramas originados no Japão no fim dos anos 1990.

“Sempre foi difícil explicar como se leem hieróglifos”, disse Shirly Ben Dor Evian, egiptóloga e curadora da mostra. “Mas hoje ficou mais fácil porque as pessoas estão escrevendo com desenhos. Por isso comecei a prestar atenção em emojis.”

A primeira coisa que ela diz ter notado é que alguns emojis parecem hieróglifos. Um cartaz na entrada da exposição contrapõe uma coluna de hieróglifos a uma de emojis. As similaridades são indiscutíveis e não há necessidade de tradução.

A representação egípcia de um cão genérico tem uma semelhança muito próxima com um cão de emoji mostrado de perfil. Um pato, imagem frequentemente usada nos hieróglifos para simbolizar uma criatura alada, reaparece milhares de anos depois como um pato de emoji. E um homem dançando num emoji faz uma pose semelhante à de um dançarino de hieróglifo de 3 mil anos.

Na mostra, numa pequena galeria da Ala Bronfman de Arqueologia, visitantes podem comparar em telas de vídeo interativas seu conhecimento de emojis com seu recém-adquirido conhecimento de hieróglifos. Dados sobre diferentes interpretações de emojis também são facultados na exposição.

Os dois sistemas podem ter pontos em comum, mas têm também diferenças profundas e complexas.

Os hieróglifos constituíam uma linguagem escrita completa e, embora até um analfabeto pudesse reconhecer e compreender alguns símbolos básicos, os escribas responsáveis pelos hieróglifos trabalhavam sob regras estritas e eram altamente capacitados.

Entretanto, a antiga escrita egípcia foi aos poucos mudando para o alfabeto de 20 letras, que podia ser mais facilmente ensinado e executado, o que levou a uma revolução nas comunicações.

“Hoje é mais fácil clicar num emoji que escrever uma palavra inteira”, afirmou Ben Dor Evian, que tem um aplicativo de hieróglifo no celular. 

Emojis são uma taquigrafia emocional. Pense no poder de um coração mandando um beijo, ou de uma cara cínica significando sarcasmo, quando ilustram um sentimento que uma inexpressiva mensagem de texto não consegue expressar.

Na escrita egípcia antiga, um escaravelho expressava todo um conceito de vida pós-morte e de renascimento, e era usado no texto como “por vir”.

Nova linguagem. Ambos os sistemas compreenderam o poder dos pictogramas. Alguns estudiosos consideram os emojis uma nova linguagem. Um entusiasta produziu uma versão do clássico Mobi-Dick, de Herman Melville, intitulada Emoji Dick. Em 2015, os Dicionários Oxford elegeram o emoji de um rosto com lágrimas de alegria como sua palavra do ano, dizendo que ele expressava “o comportamento, os sentimentos e as preocupações” do período. 

Mas Chaim Noy, professor de comunicações da Universidade Bar Ilan, em Tel-Aviv, considera simplista e populista falar em emoji como nova linguagem. Ele vê os símbolos apenas como uma espécie de linguagem corporal que suplementa o texto. Mas, de qualquer modo, Noy considera que há uma certa provocação na exposição ao justapor a alta cultura do museu e do Egito antigo à cultura de baixo escalão do emoji. “A exposição sacode a poeira de uma imagem já cansada”, disse ele.

A mostra, que vai até 12 de outubro, dá ao público uma rara chance de se conectar ao mundo antigo de uma perspectiva relevante para a vida moderna, argumentou Orly Goldwasser, chefe do Departamento de Egiptologia da Universidade Hebraica de Jerusalém. Segundo ela, os egípcios enfrentavam os mesmos problemas dos usuários e desenvolvedores de emojis.

A chegada do alfabeto “foi uma grande vitória e uma grande perda”, pontuou Goldwasser. “Ele destruiu os pictogramas, mas agora o aprendizado dos símbolos desenhados está de volta através dos emojis, que preenchem um vazio na aridez da palavra”. / TRADUÇÃO DE ROBERTO MUNIZ

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