Em Hulk, só valem as cenas do Rio

Os primeiros 20 ou 25 minutos do filme de Louis Leterrier são eletrizantes

Luiz Carlos Merten, O Estadao de S.Paulo

13 de junho de 2008 | 00h00

Stan Lee gosta de contar como criou (com Jack Kirby) o personagem do Dr. Bruce Banner, de O Incrível Hulk. Foi depois de O Quarteto Fantástico. Ele queria alguma coisa diferente, um herói que não fosse super-herói e que tivesse dificuldade para se aceitar. Stan Lee sempre adorou Frankenstein. Na imortal criação de Mary Shelley, um monstro criado com restos de cadáveres - por um homem que queria reproduzir a ação de Deus, forjando um ser à sua imagem e semelhança -, vira um injustiçado porque basicamente bom e a maldade dos outros é que o transforma numa criatura perigosa. É o que a doutora Elizabeth Ross (Liv Tyler) berra para seu pai, o general, na releitura de Hulk pelo diretor Louis Leterrier. Assista ao trailer de ''O Incrível Hulk'' O general criou o monstro. Bruce é um pobre homem atormentado. Essa idéia vem da outra influência sobre Stan Lee, o clássico O Médico e o Monstro, de Robert Louis Stevenson, no qual Mr. Hyde libera o lado sombrio do Dr. Jekyll, ao se apossar de sua mente. Dessas combinações todas surgiram o gibi e a série de TV protagonizada por Bill Bixby e Lou Ferrigno nos anos 70. Em 2003, em pleno surto de adaptações da Marvel, Hollywood resolveu transportar o Dr. Bruce Banner e seu alter ego, o Hulk, da telinha para a telona. O filme dirigido por Ang Lee estourou na bilheteria no primeiro fim de semana, mas depois não houve boca-a-boca que segurasse a intenção do diretor e o seu Hulk despencou na bilheteria. Ang Lee, diretor de obras densas como Tempestade de Gelo e O Segredo de Brokeback Mountain, fez um filme de ação que não se assemelha a nenhum outro.Metade do seu filme é dedicada à relação tortuosa de Bruce Banner com seu pai, o cientista que o transformou em cobaia e foi responsável pela criação de Hulk - um ser fisicamente monstruoso, mas que, na verdade, como Frankenstein, é do bem e combate a violência e o crime. A uma primeira parte forte, seguiu-se outra que desconcertou o público, com um Hulk que pipoca na tela como boneco de borracha e, no desfecho, provoca uma onda de destruição como se um videogame tivesse invadido, de repente, o projeto ''sério'' de Ang Lee. Por tudo isso, em vez da tradicional seqüência, a produtora Gale Anne Hurd resolveu partir do zero. Contratou outro diretor e outro elenco, investindo num roteiro que privilegia a aventura mais do que outra coisa qualquer, embora a dualidade do médico e do monstro, com seu inevitável subtexto psicanalítico, esteja presente em cada cena.Vamos logo esclarecendo que o novo Hulk começa espetacularmente, com cenas filmadas no Rio de Janeiro, onde Edward Norton, o Dr. Banner, vive escondido, trabalhando numa fábrica, enquanto busca a cura para sua terrível doença. Logo nas primeiras cenas, Bruce/Norton toma aulas de capoeira, com um instrutor que lhe ensina a respirar, como forma de controlar a raiva. Isso é muito importante, porque - você sabe - os acessos de raiva acionam o metabolismo geneticamente transformado do personagem e ele vira o monstrengo esverdeado. A fábrica de bebidas em que Banner trabalha se localiza no bairro de Santo Christo - onde foi filmada a cadeia de Meu Nome Não É Johnny -, mas a produção utiliza somente o seu exterior. As cenas de interiores da fábrica foram feitas em Toronto, da mesma forma como, nas externas, a Rocinha fornece o quadro geral, embora boa parte daquelas perseguições por becos e vielas tenha sido feita em outra favela, Tavares Bastos.Os primeiros 20 ou 25 minutos de O Incrível Hulk terminam com o rugido do personagem sobre uma tomada do que parece ser a Floresta da Tijuca, no Rio, e na cena seguinte ele já saltou do Brasil para a Guatemala e dali para o México, regressando aos EUA para reencontrar a dra. Ross. É quando surge o que será o vilão da história - um militar, comandado pelo general William Hurt, que vai se submeter às mesmas experiências do Dr. Banner, desenvolvendo uma personalidade mais monstruosa ainda (porque inteiramente maléfica). Se o general Ross considera o corpo de Banner propriedade do Exército dos EUA, Tim Roth passa a nutrir um desejo incontrolável de vingança em relação ao ser simbiótico, misto de homem e monstro, que caça. Nesta segunda parte, o diretor Louis Leterrier, de Cão de Briga - com Jet Li -, faz um trabalho bem menos interessante. Ele prossegue com as citações de Ang Lee a King Kong e investe pesado no confronto de Banner/Norton com a deformidade em que Tim Roth se transformou. O filme banaliza-se, mas espere - há uma pirueta final, com a entrada em cena de... Veja para saber, mas Hollywood já prepara a seqüência da seqüência. Hulk versus... Aguarde.ServiçoO Incrível Hulk (The Incredible Hulk, EUA/ 2008, 114 min.) - Ação. Dir. Louis Leterrier.10 anos. Cotação: Ruim

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