Em duas novelas, a busca desesperada pelo sentido de tudo

Marcadas por uma estrutura que se questiona, O Poço e Para Uma Tumba Sem Nome ganham primeira tradução no País

Francisco Quinteiro Pires, O Estadao de S.Paulo

27 de junho de 2009 | 00h00

Juan Carlos Onetti nunca soube fugir de si mesmo. Sua autenticidade transbordava. Era um démodé porque não fazia concessões: o abandono de certos princípios causava-lhe horror. Na realidade feita para o simpático e o esperto triunfar, Onetti simboliza a carta fora do baralho.Não à toa, a sua primeira novela, O Poço (1939), apresenta todos os traços acabados do seu fazer literário visceral: a literatura como sacrifício; a narrativa nada linear; a ficção que questiona a si mesma, correndo o risco de autossabotagem; a prosa que simula a oralidade; a paralisia dos personagens como se vivessem um pesadelo permanente; e a condenação inapelável ao fracasso existencial.Todas elas são características visíveis em outra novela, Para Uma Tumba Sem Nome, publicada 20 anos após O Poço. Reunidas num único volume pela Planeta, as duas obras ganham a primeira tradução no Brasil, feita por Luis Reyes Gil, que traduzira Junta-Cadáveres e O Estaleiro. Se entendia a vida como coleção de equívocos, Onetti concebeu suas obras em forma de conto e romance como os capítulos de um livro maior escrito ao longo de sua carreira. A ficção onettiana é formada por uma coerente teia de obsessões.O Poço relata a sufocante dificuldade de um quarentão para fazer sua autobiografia. "Está certo que não sei escrever, mas escrevo sobre mim mesmo", afirma o jornalista Eladio Linacero, narrador e protagonista. "Nunca poderia ter me imaginado assim aos quarenta, sozinho e no meio da imundície, trancado no quarto. Mas isso não me deixou melancólico. Nada além de uma sensação de curiosidade pela vida e um pouco de admiração pela sua habilidade de desconcertar sempre."Ao relembrar a própria trajetória, Eladio embaralha ficção e realidade. As três dimensões temporais - passado, presente e futuro - convivem, penetrando-se. Logo, o leitor se pergunta se são reais os lugares e Ana Maria - transformada em fantasma feminino - apresentados pelo narrador. Não é possível saber, por exemplo, se Eladio viola mesmo aquela mulher - a sensualidade é mais sonhada do que exercida. Nesta novela, principia o desfile de personagens onettianos, cujas energias estão voltadas para a criação de vidas falsas. Mas não enganam ninguém quando dizem viver as coisas sem inventá-las. A imaginação ajuda-lhes a disfarçar, mas não retira, a insignificância das suas histórias.Eladio percebe que as palavras são insuficientes para expressar o que vai na alma: "Isto, o que sinto, é a verdadeira aventura." Mas como tornar real essa aventura, se o narrador não sabe comunicá-la? De modo gradual, ele perde o resto de vontade de entender a si mesmo. Isso ocorre logo após perceber que nem Ester, uma prostituta, nem Lázaro, um poeta - "duas únicas classes de pessoas que poderiam compreender" - , se importam com o seu drama. Não há salvação em si mesmo tampouco no outro.A crítica apontou semelhanças de O Poço com o existencialismo de A Náusea (1938), de Jean-Paul Sartre, e de O Estrangeiro (1942), de Albert Camus. O Poço é considerado o marco da literatura hispano-americana moderna. Ele diz um sim, como fizeram os existencialistas, à subjetividade. Como afirma Eladio, os fatos são sempre vazios, recipientes que vão ter a forma do sentimento que os preencha. "É sempre o absurdo costume de dar mais importância às pessoas que aos sentimentos. Quero dizer: mais importância ao instrumento que à música." Está delineada a cosmovisão de Onetti, presente em Para Uma Tumba Sem Nome.Publicada nove anos depois de A Vida Breve (1950), obra-prima do escritor uruguaio, aquela novela tem parte do enredo realizada em Santa María, cidade imaginária que aparece em outras obras de Onetti. Um médico legista narra a história de Rita, tuberculosa que, com um bode, mendiga numa estação. A relação entre mulher e animal é desinteressada, o resultado das esmolas reverte-se em comida para o caprino.A história desta novela começa a ser contada em retrospecto, quando Rita morre. Com os elementos dados por Jorge Malabia - estudante rico de Santa María e amante de Rita -, o narrador vai montando um quebra-cabeça. Durante um ano, Malabia vive com a dona do bode num quarto miserável, sendo sustentado por ela. A todo tempo os personagens que têm voz em Para Uma Tumba Sem Nome se debatem para esconder, e entender, o que ocorreu.Fala-se muito do pessimismo de Juan Carlos Onetti. Mas ele escreveu até o fim. E o fez porque acreditara em alguma coisa: na busca desesperada por um sentido e nas dádivas oferecidas, de vez em quando, pela existência. Por mais escondida ou débil que seja, uma crença faz no mínimo um arranhão na imagem do homem pessimista.

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