Em constante mutação

Produtor de Zélia Duncan, Céu e outros projetos marcantes da década, o paulista Beto Villares reflete a diversidade e a ausência de regras da música brasileira atual

Lauro Lisboa Garcia, O Estadao de S.Paulo

12 de agosto de 2009 | 00h00

No tempo em que as gravadoras mandavam no mercado, havia os produtores contratados - como Marco Mazzola e mistos de arranjadores e compositores como Lincoln Olivetti e a dupla Sullivan & Massadas -, que padronizavam o trabalho de todos os artistas. Sem contar os que os copiavam, esses baluartes dos modismos, podia ser um álbum de Ney Matogrosso ou de Simone, era tudo muito parecido, orientado para fazer sucesso no rádio. Tudo mudou no novo milênio, em que multiplicidade, simplicidade e liberdade de escolha são as (não) regras. Nesse cenário de "troca" cada vez maior com os artistas, o paulistano Beto Villares é um dos mais criativos e sofisticados produtores a dar cara ao som da década que caminha para o desfecho.O nome de Villares está por trás de alguns dos melhores CDs de música brasileira produzidos neste ano e nesta década. Os mais recentes são os de Zélia Duncan (Pelo Sabor do Gesto, que dividiu com John Ulhoa) e Rodrigo Campos (São Mateus Não É Um Lugar Assim Tão Longe). O segundo de Céu, Vagarosa, lançado nos Estados Unidos em julho e que sai aqui agora, também tem a assinatura dele na produção e em três canções em parceria com a cantora (veja depoimentos dos três sobre Villares nos destaques).No começo, revela o produtor, ele foi "pegando as oportunidades, descobrindo e se aventurando muito". Tinha feito trilhas sonoras em estúdio, incluindo a primeira para um longa-metragem, Abril Despedaçado (de Walter Salles), quando partiu para realizar com o antropólogo Hermano Vianna um ambicioso mapeamento nacional, o projeto Música do Brasil, lançado em 2000. "Era uma coisa completamente diferente de qualquer outra, que é gravar música em tudo quanto é lugar, na estrada", lembra Villares. Depois desse projeto, ele foi produzir O Som do Sim, de Herbert Vianna, "no contexto mais pop possível", na base do "faz o que você quiser"."Era um momento no final dos anos 90, quando todo mundo queria mudar tudo. A bateria não podia ser só o som da bateria. Tudo tinha de ser diferente", lembra. Hoje, além de ter estúdio próprio em parceria com outro compositor famoso pelas trilhas para cinema, Antonio Pinto, Villares mantém o selo Ambulante e está no centro da diversidade de opções. A ausência de um estilo definido é o que reflete a produção musical atual, não só dele.É por transitar com desenvoltura por diversos estilos que Zélia Duncan, por exemplo, se sente segura ao trabalhar com ele. "A gente hoje não tem regras definidas, e isso é maravilhoso por um lado, porque nunca teve tanta gente fazendo música, cada vez mais todo mundo interagindo, aprendendo a trabalhar em rede, não só por causa da internet, mas em redes de colaboração de projetos. Então, existe muita coisa possível."Embora sem um gênero específico em evidência, nem gravadoras conduzindo o gosto do público com a mesma ênfase de décadas passadas, ele acredita que há modismos do mesmo jeito. "Acho que a gente está numa onda agora, no geral, de ressimplificar depois que complicou em termos de produção. Antes, tinha muita coisa eletrônica misturada com não sei o quê. Agora, a mistura de ideias está às vezes no conceito, no jeito que a letra está com a música. Catatau canta uma coisa que parece nordestina com uma base que parece Pink Floyd, com uma harmonia que parece Odair José", exemplifica. "Só isso já é o suficiente pra você ter uma mistura muito grande, sem precisar ser aquela loucura dos sons que tinha, embora eu adore as misturas dos sons também e acho que ela ainda faz parte." Mas, para ele, a música é que tem de mandar. "Sinto que quando a gente volta a tocar música com bateria, baixo e guitarra depois que passou por uma fase toda de mistura com eletrônica, DJ e não sei o quê, a gente toca e grava diferente de antes."Sua relação com os músicos que produz é tão diversificada quanto os estilos, mas sempre dialogando com o artista. "Cada um tem um jeito de fazer. Céu tem sempre uma sonoridade na cabeça, melodias se formando, que depois de um tempo vão ficando prontas, algumas sozinha, outras em parceria. Eu tenho de descobrir como é que vou chegar a esse som e combinar com ela", conta. "Siba é o contrário, já sabe muito bem o que vai fazer ao vivo, ele já tem inserido dentro dos estilos prontos, as músicas todas prontas. Por outro lado, ele quer que eu pire no som na hora de gravar o disco. Pra ele principalmente acho que não tem muito compromisso do disco ser igual ao que ele faz no show."O que identifica o estilo de música que Villares faz? Ele acha muito difícil responder a essa pergunta. "Sei que tenho um estilo porque as pessoas falam e eu mesmo percebo. Mas é difícil explicar. Acho que a gente está em constante mutação, sempre aprendendo", resume. "Tem um monte de referências que a gente usa no som e parece meio definido demais. Eu gosto muito da sonoridade dos anos 70 em geral, de gravação de samba, de funk, de batuque, das coisas todas do Brasil, com toda a inventividade que tem de outros timbres, e mais toda a mistureba que está se fazendo. Acho que a gente é a soma de tudo isso de cultura contemporânea."E o que é essa cultura contemporânea? "É o fundo da escala natural da evolução, uma coisa vem muito em função da outra. Chega a hora que é uma mistura geral, que não tem ida nem volta. Eu me sinto parte dessa história, neste momento faz sentido porque eu gosto, sempre gostei das coisas que são misturadas. Acho que a música nunca quer parar de andar pra lá e pra cá e evoluir."Hábil nas cordas (violão, guitarra e baixo) e teclados, Villares tem como novo xodó um mellotron, instrumento inventado nos anos 1960, estruturado com fitas magnéticas, com timbres diversos e sons de outros instrumentos que são acionados ao toque de cada tecla: sax, flauta, órgão, violão, etc. O novo modelo da Streetly Electronics, que ele tem no estúdio, é fiel ao original, mas diferente porque neste não é preciso trocar a fita a cada mudança de som desejado. "Este tem vários sons numa fita gigante. Parece que tem um cara dos anos 50 tocando aqui dentro", explica Villares, que usou o mellotron nos novo CD de Zélia e ainda mais no de Céu.Além dos discos já citados, Villares tem outros projetos em andamento para este ano: um álbum de gravações inéditas de Itamar Assumpção, a trilha sonora do filme A Morte e a Morte de Quincas Berro d?Água, de Sérgio Machado, e a da segunda temporada da série Filhos do Carnaval, do canal a cabo HBO. Está em seus planos também gravar o sucessor de Excelentes Lugares Bonitos, seu primeiro e elogiado álbum-solo, de 2003.Parceiro do pernambucano Siba, Villares trabalha com ele desde os tempos da banda Mestre Ambrósio, produziu a banda mineira Pato Fu, um outro CD de Zélia (Sortimento, de 2001), compôs diversas trilhas para filmes como Cidade Baixa, O Ano em Que Meus Pais Saíram de Férias, Antônia e a série Cidade dos Homens. No fim do ano Villares se junta a Céu, Siba e Rodrigo Campos para um fim de semana de shows no Auditório Ibirapuera. Beto é umas das figuras mais generosas que já conheci. Uma vez, eu o presenciei contratando uma pessoa pra trabalhar, um amigo de alguém, cuja função foi inventada ali, no ato, não havia necessidade de mais ninguém na Ambulante. Beto queria ajudar, mesmo. E pra falar de música, chegar ao assunto, efetivamente, ainda preciso dar mais um dado de sua personalidade: Beto é muito sincero. Quando você descobre isso, e que ele tá lá fazendo seu disco com uma sinceridade absoluta, é tocante. Se junta generosidade, sinceridade e uma sensibilidade artística incomum, e você tem o músico Beto Villares. Ele quer te entender, quer ser honesto contigo e, por meio de sua sensibilidade, consegue. No primeiro de dia de gravação do meu disco, ele me disse: "Você se sente meio só longe de São Mateus, né? Meio deslocado... Esse disco te reaproxima do seu pessoal..."RODRIGO CAMPOS "Conheci Beto por meio de Herbert Vianna e quando me deu um vazio de produtor, uma falta de vontade pras coisas de sempre, parei na frente da minha estante de CDs e me perguntei quem seria. Foi quando vi O Som do Sim, do Herbert, e lembrei do cara que ele tinha falado. Arranjei o telefone e eu mesma liguei. Poucos dias depois, aquele menino tava aqui em casa, me mostrando sons e ouvindo meu repertório. Ela ia fazer três músicas, que viraram oito. Beto me trouxe um monte de sonoridades pro Sortimento. Beto tem uma qualidade que eu amo. Ele pega um instrumento, qualquer um que ele decidir, e arranca uma melodia linda de dentro de uma outra que já existia. As linhas de baixo contam histórias, os acordes de violão, ou guitarra, ou ukulele viram melodias, e o que já era rico fica brilhante. Beto me fez ficar ainda mais exigente com os resultados sonoros do que eu faço, tem o talento do criador e a habilidade de um grande músico."ZÉLIA DUNCAN O Beto é um incrível harmonizador, um sujeito capaz de transitar por estilos musicais diferentes na maior naturalidade, sem forçar a barra nem nunca perder a elegância. E é o rei de uma filosofia que também aprecio muito: menos é sempre mais. Sou fã incondicional!" CÉU

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