Em Carne Santa, Borelli prossegue invenção de vocabulário

Mas espetáculo inspirado nas idéias de Renato Russo e sua música revela algumas questões ainda à espera de acabamento

Helena Katz, O Estadao de S.Paulo

25 de março de 2008 | 00h00

Carne Santa, a mais recente criação de Sandro Borelli com a companhia que há três anos consegue manter em padrão profissional, interrompe o tipo de dramaturgia da seqüência de obras que vinham produzindo em torno de Kafka. Kafka voltará como tema no espetáculo que já está sendo ensaiado, O Artista da Fome, previsto para estrear em junho/julho. Talvez essa situação, a de se inscrever entre-Kafkas, tenha feito de Carne Santa uma daquelas obras que existem para encaminhar questões que serão mais bem resolvidas mais adiante. Evidentemente, essa hipótese só poderá ser comprovada por uma visão retrospectiva, depois de se conhecer o que ainda vai surgir.O que se tem, no momento, são alguns sinais. Em Carne Santa há algo que descontinua o tipo de amarração das cenas que a trilogia Kafka tinha consolidado. A dramaturgia da trilogia Kafka foi sendo construída com retorcimentos e tensionamentos. As cenas se sucedem e se encadeiam de um jeito bem singular: parece que elas se atam uma à outra por um nó, um nó que as comprime. Não é uma dramaturgia na qual cada situação se funde harmoniosamente àquela que a sucede. Não há acordo combinatório entre as cenas, que se mantêm como módulos em uma composição que as articula, mas não as liga; bem ao contrário, a sua dramaturgia organiza-se por fricções, por não encaixes e é daí que vem a sua singularidade e a sua força. Cada cena preserva a sua construção, sem estender a mão amigavelmente para a cena seguinte, e elas vão criando o ambiente atormentado que os interesses temáticos de Borelli pedem.É justamente essa dose de tensão que está menos forte em Carne Santa. Cada uma das cenas se mostra bem construída, porque a capacidade de continuar a inventar vocabulário permanece como uma das principais características do trabalho de Borelli. Curiosamente, aqui, a sua dramaturgia, que habitualmente é de uma espécie híbrida entre dramaturgia de teatro e de dança, cedeu o seu lugar para a música. É a trilha sonora que vai costurando a obra e parece não conseguir acomodar a densidade do que trata essa nova produção, interessada no hibridismo e na fragilidade do indivíduo ''hermafrodita, carregando dentro de si seu próprio útero e seu próprio esperma - um homem gerando a si mesmo, reinventando-se e quase sempre não se reconhecendo''.Jovem, e formado por uma maioria de bailarinos sem tanta familiaridade com a linguagem de Borelli, o elenco atua muito bem. Vanessa Macedo, que tem mais tempo de convívio com essa proposta artística, continua encontrando oportunidades de refinamento, e se mostra uma bailarina ainda mais madura e capaz de um acabamento impecável em toda a sua dança. O duo de Edson Calheiros e Elizandro Carneiro revela um par de intérpretes que também merece atenção especial.Só o tempo nos permitirá compreender melhor o lugar que Carne Santa virá a ocupar na trajetória coreográfica de Sandro Borelli. Pode ser que venha a ser uma obra de passagem para a criação do próximo ano, que tem Che Guevara como tema. Pode ser também que venha a se ajustar melhor à dramaturgia que Sandro Borelli e sua ótima companhia vêm competentemente criando. Para uma ou para outra possibilidade, o caminho é o mesmo: há que continuar a dançá-la, pois que é na repetição da experiência em contato com o público que surgem as oportunidades de transformação das artes que, como a dança, dependem de um corpo vivo para existirem.

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