Em Brotas, sertanejo revive auge de cinemas do interior

Cantor restaura sala de cinema e a reinaugura com próprio filme

Jotabê Medeiros, BROTAS, O Estadao de S.Paulo

06 de março de 2009 | 00h00

O rapaz era do interior e tinha dinheiro. Podia ter gastado tudo com uma frota de picapes Hillux (cheias de adesivos ?Barretesão? no para-choques) ou com um novo rebanho de gado Nelore. Mas José Daniel Camillo, nacionalmente conhecido como o cantor Daniel, de 41 anos, preferiu investir suas economias num projeto de respeito: recuperar o cinema abandonado de sua cidade natal, Brotas (a 235 km de São Paulo).Foi assim que, na noite de quarta-feira, a cidade de Brotas parou para a reinauguração do revigorado Cine São José, numa festa glamourosa que teve holofote, limusine, tapete vermelho, vinho frisante e as presenças fulgurantes da apresentadora Xuxa, dos cantores Alexandre Pires, Sérgio Reis e Luciano (da dupla Zezé Di Camargo & Luciano), entre outros. Todos ali para a première de O Menino da Porteira, estrelado por Daniel, Vanessa Giácomo e José de Abreu."Acho que é a primeira vez que alguém inaugura seu próprio cinema com um filme no qual é o protagonista", ponderou o radialista José Ferreira, contratado para animar a noitada. Mais de mil pessoas, cerca de 5% da população da cidade, estavam na avenida, apupando os convidados, que chegavam escoltados por viaturas da PM. Entre os cidadãos comuns, a emocionada viúva Maria Inês Gomes Costa, de 70 anos, que costumava namorar naquele cinema com o marido, Paulo, enquanto Mazzaropi dominava a tela grande. "Fui muito feliz ali", apontou Maria Inês, espremida entre as "carpetbaggers" de Brotas (Carpetbaggers era o nome que davam nos anos 40 às garotas que se espremiam nas grades à espera das estrelas do Oscar em Hollywood).Daniel comprou o edifício do Cine São José há dois anos. O cantor chegou com o dinheiro pouco antes dos bispos da Igreja Universal, que queriam mais um templo, e arrematou a sala deserta, inaugurada em 4 de abril de 1956 e sem atividade havia mais de 20 anos."Coincidência ou não, o cinema chama São José. E, na minha família, todo mundo é José", disse Daniel, que revelou que burlou a lei quando garoto e assistiu escondido naquela sala, detrás da cortina, ao filme pornô A Mulher e o Cavalo.O cantor não quis saber de leis de incentivo nem de verbas federais, municipais ou estaduais. Bancou tudo do próprio bolso, e não revela nem debaixo de espora quanto gastou - mas algumas tias e parentes foram dando dicas ao Estado de quanto poderia ter sido o desembolso: mais de R$ 5 milhões. Como artista, Daniel bateu diversas vezes a marca de 1 milhão de discos vendidos, a primeira com o parceiro João Paulo, morto num acidente de carro em 1997.Calor de 35 graus em Brotas e o simpático Alexandre Pires com terno de risca de giz e a Xuxa de capinha tipo gabardine. "Tem tudo para ser um novo 2 Filhos de Francisco", arriscou o cantor Luciano (cuja história foi contada naquele filme), após a sessão do filme. "O Brasil não pode viver apenas de uma ou duas grandes bilheterias a cada sete anos. Tem de fazer mais filmes populares de qualidade". Sérgio Reis, que viveu o mesmo papel de Daniel na primeira versão do filme, em 1987, brincou: "Bacana que vocês resolveram refazer o filme. Mas podiam ter me chamado, pelo menos para ser o avô do Menino da Porteira".Mármore nas escadarias, pastilhas coloridas nas colunas, um antigo projetor de 1957 tornado monumento no grande salão. O cinema de Daniel é um luxo. "Não gosto da música dele, mas foi uma coisa muito boa o que o Daniel fez para a cidade", diz o brotense Waener Pedro de Oliveira, administrador aposentado de teatros, olhando a movimentação da porta.

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