WERTHER SANTANA/ESTADÃO
WERTHER SANTANA/ESTADÃO

Em 2016, Masp fará sua revisão crítica

Curadora da equipe do museu, Julieta González detalha projetos de exposições que serão apresentadas no próximo ano no museu

Camila Molina, O Estado de S. Paulo

20 de junho de 2015 | 05h00

Curadora de arte moderna e contemporânea do Masp, a venezuelana Julieta González está preparando uma mostra do argentino León Ferrari (1920-2013) prevista para ser inaugurada em setembro. “O museu tem uma representação bastante significativa de suas obras”, diz. A exposição vai destacar, como ela conta, um conjunto de peças gráficas realizadas pelo artista durante seus “anos paulistas”, ou seja, o período em que viveu em São Paulo, entre 1976 e 1991, exilado de seu país. “León Ferrari fugiu da Argentina no auge da ditadura, teve seu filho assassinado, e aqui produziu muitos trabalhos que têm a ver com a repressão e que falam de uma sociedade normalizada”, comenta.

Prestes a assumir, em julho, a diretoria e a curadoria geral do Museu Jumex depois de atuar no Museu Rufino Tamayo – ambos na Cidade do México, onde vive desde 2012 –, Julieta González foi convidada no ano passado pelo diretor artístico do Masp, Adriano Pedrosa, a ser uma das curadoras adjuntas da equipe da instituição brasileira (as outras são Rosângela Rennó e Patrícia Carta, responsáveis, respectivamente, por fotografia e moda). Já é, como explica, um trabalho à distância – “venho a São Paulo a cada três meses, por duas semanas”. Outra característica de sua atuação, afirma, é desenvolver projetos propostos de antemão por Pedrosa. “É menos propositivo da minha parte”, define.

Segundo a venezuelana, que diz conhecer o diretor artístico do Masp há 13 anos e ter com ele “uma larga história profissional” – das parcerias, ressalta-se a da 2.ª Trienal Poligráfica de San Juan, Porto Rico, em 2009 –, a “proximidade intelectual” entre os dois a levou a aceitar o convite. “Na verdade, nos encontramos em um ponto de nossas pesquisas que é muito próximo de certas ideias que (a arquiteta) Lina Bo Bardi tinha para o Masp, como a inclusão da arte popular.”

Nesse sentido, Julieta González confirma o já anunciado resgate da exposição A Mão do Povo Brasileiro (1969), concebida por Lina Bo Bardi, como destaque da programação do museu para 2016. “Vai ser um ano de revisão crítica”, declara. A curadora adjunta de arte moderna e contemporânea completa que faz parte do projeto curatorial de Adriano Pedrosa revisitar mostras históricas do Masp com o intuito de “renovar” visões de questões apresentadas em momentos do passado.

Sendo assim, ela também cita para 2016 a realização de projetos expositivos que tomam como partido Playground (1969), de Nelson Leirner, outra das primeiras exposições apresentadas na sede do Masp na Avenida Paulista – e que tomou o vão livre do museu –, e Grande São Paulo (1976), concebida na época por Pietro Maria Bardi e pela fotógrafa Claudia Andujar – a ser desenvolvida agora por Pedrosa e Rosângela Rennó.

A Mão do Povo Brasileiro refere-se à ideia de incorporar arte popular dentro de uma narrativa mais ampla e valorizá-la. A Lina (Bo Bardi) fez um statement muito importante com essa exposição, realizada com o diretor de teatro de Salvador, Martim Gonçalves, e com o (cineasta) Glauber Rocha”, diz Julieta. “É importante revisitar esse momento em que a arte popular estava no imaginário das vanguardas artísticas do País e faz essa entrada triunfal no museu, quase que como uma instalação.”

Para a venezuelana, que também se dedica a uma pesquisa particular que resultará na mostra Memórias do Subdesenvolvimento, a ser apresentada em 2017 no Museu de Arte Contemporânea de San Diego, nos EUA, Lina Bo Bardi estava preocupada com o destino da arte popular quando desenvolveu A Mão do Povo Brasileiro. “Ela diz que essa arte estava a ponto de desaparecer com a cultura de massas, com a tecnologia”, conta. “Estive na Bahia e entrevistei o artista sertanejo Juraci Dórea. Ele disse que tudo mudou no sertão, a paisagem, nós, nossa relação com os objetos, mas a única coisa que não muda é a pobreza.”

Já o resgate de Playground, de Nelson Leirner – também apresentada em 1969 no MAM do Rio –, está relacionado, explica a curadora, a “retomar a ideia do jogo, do lúdico, na experiência do museu”. “Queremos fazer uma exposição mais experiencial, mais participativa”, enumera ela. “Vamos convidar artistas nacionais e estrangeiros contemporâneos que trabalham sobre o giro pedagógico e a relação com o público.” A mostra vai ocupar o segundo subsolo do Masp – e algumas performances poderão ocorrer no vão livre.

Especializada nas práticas artísticas dos anos 60 e 70, define Julieta, seu interesse pelo Brasil é mais amplo – e antigo – do que o atual trabalho no Masp. Ela também prepara para o Bronx Museum, de Nova York (do qual já foi curadora), uma mostra (prevista para 2017) que vai relacionar o crítico brasileiro Mário Pedrosa (1900-1981) e os artistas “pouco revistos lá fora” Almir Mavignier, Ivan Serpa e Abraham Palatnik. “A ideia é voltar para o momento em que os três trabalharam juntos no ateliê do Engenho de Dentro, no Rio, com a doutora Nise da Silveira.”

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