Elo com Atenas para entender o presente

São dois legados gregos, política e filosofia, sonhos que parecem impossíveis na atual ordem mundial

Renato Janine Ribeiro, O Estadao de S.Paulo

31 de maio de 2008 | 00h00

Atenas, no tempo de seu esplendor, o chamado "século de Péricles", contava com algumas dezenas de milhares de habitantes. E com seus domínios na Ática e nas ilhas, poderia chegar a seis dígitos. O mundo inteiro teria 100 milhões de habitantes na época e, 400 anos depois, no começo de nossa era, a Grécia toda teria 2 milhões. A democracia ateniense, a filosofia grega eram uma gota num oceano de regimes despóticos, monárquicos, freqüentemente identificando o rei a um deus, em que a religião e mesmo a superstição barravam o advento do pensamento livre, que é a filosofia. Então, como é que valorizamos essa exceção histórica tão aguda? Por que a experiência democrática ateniense - envolvendo como cidadãos bem menos de 0,01% da população terrestre - ainda causa impacto tão grande?Moses Finley conta: na Atenas do apogeu, os cidadãos se reuniam em média 40 vezes por ano na ágora, ou seja, uma praça que não era apenas um "logradouro público", como hoje dizemos, mas sim o centro de decisões. Cada nove dias, em média, uma assembléia, com freqüência habitual de mil homens. Em situações excepcionais, passava de dez mil. Essa experiência nos marca até hoje. Imaginem dar um Google Earth na ágora ateniense. Será um espaço físico mínimo, ao qual ia - se tanto - uma minimultidão. Esse lugar minguado, com menos gente do que o edifício Copan, é a grande referência da filosofia e da democracia modernas.Por quê? Poderíamos certamente estudar hoje a filosofia e a religião hindus, o pensamento de Confúcio. Poderíamos também praticar uma política de franco despotismo, como parece ter sido a dos Reis dos Reis persas, que fracassaram na luta contra as cidades gregas e depois foram esmagados por Alexandre. Poderíamos igual, mas diversamente, seguir a idéia chinesa do rei-jardineiro em vez do monarca pastor dos indo-europeus: isto é, em vez de mutilar, matar e comer, gentilmente orientar os galhos para o crescimento. Poderíamos. Mas, na verdade, nossa cultura não segue nem o poder forte indo-europeu, embora o tenha feito por alguns milênios, nem o poder brando do jardineiro chinês. Ela, pretendendo ser democrática, restabelece elos com Atenas.Mas, mesmo nos milênios não democráticos que separam o século 4º antes de Cristo da modernidade, Atenas continuou sendo uma referência - filosófica, ainda que não política - talvez apenas com uma pausa medieval. Por quê? Parece que Atenas desempenha um papel ambíguo na nossa cultura. É o papel ambíguo daquilo que sabemos impossível, mas que mesmo assim tem um valor muito forte. Atenas constitui um ideal, talvez o mais elevado que podemos conceber. Esse ideal é duplo: filosófico e político. Uns celebram a ágora e as decisões tomadas por um coletivo de iguais. Outros destacam os filósofos e sua reflexão, conduzida em público, ora por um mestre que nega ser mestre, que afirma somente saber uma coisa, que "nada sei" (Sócrates), ora por um mestre que pensa caminhando com seus discípulos (Aristóteles) - duas formas de filosofar que nada têm em comum com o que hoje fazemos. Algum professor entra em sala de aula e diz aos alunos: "Estou aqui para ensinar-lhes que não sei nada?" Ou algum professor sai para caminhar pelos lugares públicos e ali dialoga com os passantes, ou com os próprios alunos? Muito poucos. Um amigo meu dizia, brincando, que a decadência da filosofia tinha a ver com o fim da forma do diálogo. E sugeria que, ao fim de um jantar (de um "banquete", para lembrar o diálogo de Platão sobre o amor), o garçom, devidamente formado, se sentasse à mesa, sorteasse um tema e dissesse: "Vamos agora discutir." Livremente. Talvez, a conta fosse mais alta ou mais baixa conforme a discussão se mostrasse pior ou melhor... O autor dessa idéia é o historiador Jorge Coli, a cujo amigo Luiz Dantas, que acaba de falecer, dedico o presente artigo.Resumindo, temos dois legados gregos. Um deles sabemos que nunca emularemos: a democracia ateniense, na praça. Era uma democracia sem tecnocratas, direta. Hoje, é impossível reunir todo o povo na praça - e, pior que isso, o manejo da coisa pública exige uma expertise que reduz os não experts a cidadãos de segunda classe. O problema não é juntar gente. O problema é o Banco Central. Unir milhares na praça é difícil, mas é sobretudo inútil: o que decidirem não será cumprido. Atenas sobrevive, neste plano, como sonho. Sabemos que não a igualaremos, mas a admiramos.O outro legado é a filosofia. Também foi tomada pelos experts. A famosa cena em que Sócrates faz um escravo pensar - melhor dizendo, em que Sócrates dá ao escravo a ocasião de pensar por si só, sem lhe ensinar nada, só facilitando sua reflexão - não encontra paralelo em nossa academia. Mas será que aqui é a mesma impossibilidade que mencionei acima? Sem dúvida, ninguém extrai de si mesmo enormes saberes. É preciso estudar e aprender. Mas não venderemos nossa pele muito barato, quando nem sequer tentamos o projeto Jorge Coli, que em suma diz que "livre pensar é só pensar"? Atenas nos fascina. Mas talvez possamos fazer com que parte maior do seu sonho se transforme em ato. No próximo jantar a que forem, por que não discutem o amor, ou Deus, ou a ambição, ou em suma alguma questão que achem dizer respeito ao valor das coisas, ao que faz a vida merecer (ou não!) ser vivida? Será uma pequeno brinde - libação, diriam os gregos - a Atenas, ao amor ao saber (que é o que significa filosofia), ao amor e ao saber. Renato Janine Ribeiro é professor titular de Ética e Filosofia Política na Universidade de São Paulo

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