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Ella Fontanals-Cisneros diz que brasileiros estão supervalorizados

Colecionadora faz palestra em São Paulo

Camila Molina, O Estado de S. Paulo

20 Março 2015 | 03h00

Colecionadora desde a década de 1970, Ella Fontanals-Cisneros calcula que tenha adquirido, até hoje, aproximadamente 2,6 mil obras. “Quando se tem uma coleção extensa como a minha, é preciso focar em áreas, como um aprendizado”, diz a empresária, que vai realizar neste sábado, às 18 h, uma palestra no auditório do Museu da Imagem e do Som (MIS). O evento marca o encerramento da exposição Memórias da Obsolescência, que apresenta, até domingo, no Paço das Artes, uma seleção de vídeos da Fundação de Arte Cisneros-Fontanals (Cifo), sediada em Miami.

A mostra, com trabalhos de 25 artistas, é um retrato compacto do colecionismo contemporâneo de Ella Cisneros - ao mesmo tempo em que reúne obras de consagrados nomes internacionais como o sul-africano William Kentridge, a sérvia Marina Abramovic, o chinês Song Dong e a americana Francesca Woodman, a exibição também traz peças de expoentes latino-americanos, entre eles, o argentino Miguel Ángel Ríos, a guatemalteca Regina José Galindo, a brasileira Regina Silveira e os cubanos Felipe Dulzaides e Lázaro Saavedra. 

“Sigo comprando geométricos, mas já me interessei muito por fotografia, depois, passei pelo conceitual, e, nos últimos anos, meu foco mais importante tem sido arte cubana”, afirma a colecionadora, nascida em Cuba e criada na Venezuela. Como ela conta, seu principal projeto atual é a organização de grande exposição do cubano Gustavo Pérez Monzón no Museu de Belas Arte de Havana como parte da 12.ª Bienal de Cuba, que vai ocorrer entre 22 de maio e 22 de junho. Pouco antes de embarcar para São Paulo, onde ficará apenas até segunda-feira, Ella concedeu uma entrevista ao Estado sobre colecionismo.

A sra. soube do recente relatório sobre mercado de arte internacional que apontou a movimentação de  51 bilhões em 2014? O que acha da tendência de colecionadores investirem em mestres do passado, do primeiro modernismo?

Soube do relatório, mas não acredito nisso. Acho que a arte contemporânea teve, nos últimos anos, um ‘start’ novo. Existe sempre uma avidez de se recuperar artistas não tanto do passado, mas dos anos 1950, 60, como na Bienal de Veneza e em outras bienais. Isso não atrapalha, entretanto, a atenção que se dá para arte contemporânea. Suas cifras são muito altas também.

Mas é um risco investir hoje em arte contemporânea?

Depende de que lado se olha. Sou uma colecionadora apaixonada pelo o que compro. E tomo o risco como parte do que faço, do aprendizado. Hoje em dia, há muitos compradores de arte, que são diferentes dos colecionadores. Eles investem seu dinheiro em uma área que consideram segura. Como colecionadora de arte, aposto na produção contemporânea e encarar o risco como consequência do colecionismo.

Como está o mercado de arte brasileiro visto de fora?

Acho que o Brasil vem vindo todos esses anos de um boom econômico muito grande. E os próprios brasileiros dão suporte ao mercado porque os brasileiros compram brasileiros. Isso fez com que os preços dos artistas do Brasil tenham subido muito, mesmo os dos mais emergentes. Hoje, os brasileiros estão com preços muito acima dos outros latino-americanos, o que torna difícil comprar suas obras. Creio que o mercado vai se regulando pela própria regulação interna econômica do país. E talvez, com a baixa do Real, pode ser que esses valores caiam um pouco. Outro problema são altos impostos brasileiros que dificultam a entrada de arte no país.

Independentemente de mercado, qual país latino-americano tem, atualmente, uma produção artística mais expressiva?

Fora do mercado? Cuba. Os artistas cubanos têm uma preparação muito forte, uma escola muito clássica, sofisticada. A produção do país está crescendo muito.

É um movimento relacionado à recente abertura de Cuba?

Isso começou antes do movimento político que está acontecendo agora. Tenho vivido parte do meu tempo em Cuba nos últimos cinco anos e tenho acompanhado desde antes seus artistas. Apesar da dificuldade que têm de conseguir materiais para trabalhar, são pessoas muito manuais e de muita inteligência, que puderam passar por esses problemas e criar suas obras. Já vemos como parte da abertura uma quantidade grande de americanos indo para lá para comprar arte. É como um descobrimento da arte cubana para muitos, creio que como aconteceu com a China.

A sra. coleciona asiáticos ou artistas de outras regiões do mundo?

Me interessei muito por asiáticos e comprei alguns chineses há cerca de oito anos, mas me dei conta de que, quando se está tão longe de um mercado, fica mais difícil seguir os artistas daquele lugar. E a China é um país muito grande. Decidi, então, não continuar comprando chineses porque, para mim, parte do processo é ter contato com os artistas. Penso exatamente o mesmo sobre o Oriente Médio e a África, E tenho europeus, mas não tantos.

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