Eliasson e o prazer para a percepção

Resultado visual é parte da experiência ofertada por instalações do dinamarquês

Tonica Chagas, Nova York, O Estadao de S.Paulo

25 de junho de 2008 | 00h00

''Take your time'', expressão que em inglês significa ''vai com calma'' ou ''não se apresse'', é o título da primeira retrospectiva do dinamarquês Olafur Eliasson nos Estados Unidos e também a chave para se envolver com as obras dele. Em Take Your Time, que o Museum of Modern Art (MoMA) e o P.S. 1 de Nova York exibem até o dia 30, é preciso dar um tempo, esperar e deixar os sentidos descobrirem o que acontece.Com água, luz e espelhos, mecanismos de movimento, projeção, sombra e reflexo, Eliasson cria fenômenos óticos protocinemáticos. Alheio a classificações polissilábicas complicadas, o observador simplesmente entra na arte dele e leva dela mais do que uma experiência estética.Na diversidade do trabalho dele alguns temas são recorrentes: luz, cores e natureza. Em 2003, Eliasson atraiu milhares de pessoas sob o sol que criou dentro da Tate Modern, em Londres, com a instalação The Weather Project. Nos próximos dias, ele vai pôr quatro cachoeiras no sul de Manhattan. ''Eu realmente não penso sobre o impacto ou o material'', disse ele numa entrevista recente. ''Estou mais interessado em questões como: Você se sente parte deste mundo? Como você usa os seus sentidos? Suas ações têm conseqüências? Como podemos ligar nosso cérebro ao nosso corpo?''A mágica imaterial que surge do interesse dele ao se fazer perguntas como essas gera situações que mudam a percepção do observador sobre espaço e de si mesmo. Como a que se tem debaixo da peça que dá nome à exposição, um espelho de 12 metros de diâmetro e quase 500 quilos, pendurado horizontalmente e em ângulo no teto de uma das salas do P.S.1. Primeiro é preciso se acostumar com a imagem do chão refletida no teto. Depois percebe-se que o espelho está girando devagar, completa uma volta em mais ou menos cada dois minutos. Com o movimento ondulado da imagem refletida nele tem-se a impressão de que a sala é que gira. A instalação é uma das seis obras criadas este ano por Eliasson especialmente para a retrospectiva.Take Your Time exibe 38 trabalhos, 13 deles instalados no MoMA. Há um ventilador que voa em direções imprevisíveis, fachos de luz que compõem um metro cúbico de espaço, janelas que importam imagens da rua para dentro de um caleidoscópio e espelhos que parecem portas. Eliasson define suas instalações como estruturas para experimentação. Cada obra cria um ambiente onde o observador imerge para experimentar com seus sentidos. ''A intenção é introduzir o trabalho ao observador de uma forma que seja um pouco mais produtiva'', explica Eliasson. ''Isso não é uma discussão nova ou um desafio novo, mas o fundamental, eu acho, é a idéia de temporalidade - o tempo que você escolhe para passar envolvido em alguma coisa.''No corredor que leva às galerias onde está a maioria das peças reunidas no MoMA, passa-se por Room for One Color, trabalho que ele produziu em 1997. Todo o espaço é tomado por luz amarela monofreqüência, numa densidade cromática que parece sólida e deixa todas as cores em apenas dois tons. Isso sobrecarrega a retina e, quando os olhos focalizam paredes brancas, tem-se a ilusão de ver tudo em púrpura, a cor complementar do amarelo.''Se o trabalho faz pensar sobre o que se vê e como se vê, então acho que consegui alguma coisa'', diz o artista. Em Beauty, de 1993, instalada no subsolo do P.S. 1, a luz de um refletor atravessa em linha oblíqua uma cortina de névoa. Dependendo da posição que se está, se vê - ou não se vê - um arco-íris. A cada passo que se dê, a imagem fica diferente. ''A partir daí, a discussão do que significa ver alguma coisa pode se estender para todo o resto do que vemos'', sugere Olafur Eliasson.Desde o início da carreira, ele vem criando séries fotográficas que servem como estudo para os conceitos que explora em suas instalações. Duas suítes exibidas na mostra são compostas por fotos tiradas na Islândia, onde ele viveu por alguns anos e para onde volta freqüentemente. Imagens de rios, geleiras, ilhas, cavernas são, de certa forma, esquetes dos espaços criados por ele. Duas galerias no P.S.1 reúnem vários modelos, maquetes e protótipos que dão uma visão do processo criativo dele. Em seu estúdio, em Berlim, trabalham cerca de 40 pessoas, entre elas 12 arquitetos. Ele conta com a colaboração de matemáticos, físicos e engenheiros para resolver abstrações que imagina e quer traduzir em três dimensões.Klaus Biesenbach, curador do Departamento de Mídia do MoMA, que coordena a exposição junto com Roxana Marcoci, curadora do Departamento de Fotografia do museu, diz que os trabalhos de Eliasson ''são primeiro um ''Uau!'' de surpresa e depois um ''Aha!'', de descoberta''. Ele produz fenômenos óticos complexos usando equipamentos técnicos quase rudimentares que ficam sempre à vista. Como na cascata que corre contra a gravidade em Reversed Waterfall, de 1998, onde a água é bombeada para cima por fontes em cada um dos quatro níveis de um andaime. ''Ao deixar visível a mecânica dos seus trabalhos e o artifício da ilusão totalmente despido, Eliasson mostra a relação elíptica entre realidade, percepção e representação'', diz Roxana.Eliasson não acha que a experiência proporcionada por suas instalações seja diferente daquela que se tem diante de pinturas ou esculturas. ''Os impressionistas e os pontilhistas também trabalharam muito com o olhar do observador e o movimento dele diante de suas obras'', lembra. ''Eles deixaram claro que a nossa perspectiva importa.''

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