Eles não se cansam de inventar moda

Estilistas conhecidos pelos desfiles em passarelas do País estendem cada vez mais suas habilidades a diferentes áreas artísticas, passando pela dança, teatro, cinema e televisão

Livia Deodato, O Estadao de S.Paulo

22 de janeiro de 2009 | 00h00

No palco, na tela ou na TV, o peso de uma grife responsável pelo figurino de personagens é diluído em meio aos créditos finais ou em letras miúdas, grafadas no programa a ser entregue momentos antes do início do espetáculo. Bem diferente da lógica vigente na atual semana, dita ?da moda?, quando estilistas e suas respectivas marcas ganham os holofotes (e manchetes de jornais e revistas) ora por ousadias, ora por monotonias e repetecos exibidos durante a São Paulo Fashion Week.No entanto, atualmente, muitos desses profissionais parecem pouco se importar com o fato de seu estilo, vez ou outra, descer das passarelas e passear pela dança, pelo teatro, no cinema e na televisão. Muito pelo contrário, sentem prazer nesse refúgio. "Tudo é arte. Faz parte do reconhecimento do seu trabalho", opina Raquel Davidowicz. A estilista, fundadora da grife UMA, que, por sinal, mostra a sua coleção de inverno 2009 no prédio da Bienal hoje, às 17 h, foi convidada a pensar o figurino a menos de um mês da estreia de Entreato, do coreógrafo Paulo Caldas, em novembro passado. A peça contemporânea foi encomendada pela São Paulo Companhia de Dança.Uma das justificativas apontadas por Inês Bogéa, diretora-adjunta da companhia, em relação à preferência de uma estilista a uma figurinista, foi a abstração em que vagava o pensamento de Caldas sobre as vestimentas de seus quatro bailarinos - e que só um estilista, com infinitas coleções já criadas, poderia ser capaz de preencher. Saíram, então, em busca de um profissional que flertasse com o universo urbano, fosse capaz de acentuar a personalidade de cada bailarino e mantivesse um diálogo com seus movimentos. Fecharam com Raquel.A diferença em se criar uma coleção para determinada estação e figurinos que deem vida a personagens e bailarinos encontra-se, basicamente, no tecido utilizado, que precisa ser muito mais flexível e durável. Além, é claro, de ajudar a contar uma história. Ronaldo Fraga que o diga com o espetáculo Giz, do grupo de teatro de bonecos Giramundo, cuja estreia se deu em setembro. "Pensei nos figurinos dos manipuladores como uma extensão dos bonecos. Utilizei um não-tecido, o tyvek, que imita papel", revela o segredo. "É uma coisa que eu adoro, porque acontece da mesma forma como monto a minha coleção: existe pesquisa, construção do personagem através da roupa e é necessário tempo para acompanhar a evolução dos ensaios, o que muitas vezes me falta, infelizmente. O figurino tem de ser orquestrado com a cenografia, com a trilha, com a história que se quer contar."Enquanto Fause Haten enxerga o trabalho de figurinista como um hobby - e se dedica a ele graças ao convite dos amigos da Cia. Luis Louis (em cartaz no Centro Cultural São Paulo com as peças 650 Mil Horas e Sistema Nervoso) -, Walter Rodrigues, por sua vez, curte a amplitude que ganhou a sua vocação e a "imensa liberdade de se criar" nesse universo. Há pouco mais de quatro anos, Walter é estilista-figurinista de todo e qualquer trabalho da Sociedade Masculina e do Studio 3 Cia. de Dança. "Ele é de um bom gosto inquestionável. Faz estudos, apresenta diversas possibilidades, acompanha os ensaios, vibra, chora, ri. O Walter compra a história como se fosse a sua própria", conta Anselmo Zolla, coreógrafo dos grupos.E se engana quem pensa que contratar estilistas para trabalhar como figurinistas sai mais caro (ainda mais em tempos de crise). Sem revelar valores, os envolvidos garantem um ótimo custo-benefício. Licença a Drummond para um complemento nos versos de Eu,Etiqueta, em que explica que tudo isso não passa de "mensagens, letras falantes, gritos visuais, ordens de uso, abuso, reincidências", mas alimentam o sonho.

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