''Ele envolve o leitor com não-histórias''

Maria Rita Kehl[br]PSICANALISTA

, O Estadao de S.Paulo

29 de novembro de 2008 | 00h00

Qual foi seu primeiro Machado de Assis? Qual lembrança tem da leitura?O Alienista, para a aula de português na terceira ou quarta série ginasial. Lembro-me de que não entendi nada, nem tive uma boa professora que ajudasse a turma a aproveitar a leitura. Foi uma imposição curricular, cumprida burocraticamente. Mais tarde, no colegial, também tive que ler Dom Casmurro. Como muitas adolescentes desinformadas da minha época, minha primeira leitura da história de Capitu foi romanesca: tentei fazer da novela uma reles história de amor, mistério e traição. Somente na década de 1970 a leitura dos textos de Roberto Schwarz me permitiu entender alguma coisa sobre esta literatura que parecia enigmática e desinteressante aos olhos da colegial despreparada que eu fui.Qual livro de Machado de Assis você mais relê? Qual a sua impressão dessas releituras?Dom Casmurro, por conta das participações em diversos debates sobre a mulher, a feminilidade, a traição, etc. É um livro que fica mais inteligente a cada leitura, centrado em uma personagem feminina cada vez mais atual. Releio também Esaú e Jacó, para entender o paralelo entre os irmãos gêmeos e as "gêmeas", monarquia e república, no Brasil. Voltei a ler Quincas Borba, em 2006, para um ensaio sobre "bovarismo brasileiro" baseado no personagem Rubião.Quais cenas marcantes você citaria dentre a obra dele?A referência ao "cabo do chicote" em Memórias Póstumas de Brás Cubas. A "cena da carruagem" em Quincas Borba, onde me parece que Machado de Assis parodia uma passagem de Madame Bovary, do Gustave Flaubert. Outra cena modesta e importante, a meu ver, é a reminiscência proustiana de Rubião ao visitar um subúrbio e se encontrar com imagens de sua vida pobre em Barbacena, o que o leva a sentir "nostalgia do farrapo, da vida escassa, acanhada e sem vexame". Por fim, lembro a abertura de Esaú e Jacó, em que d. Natividade consulta a sorte com uma cigana que lhe diz apenas: "Coisas futuras...". Isto alimenta nela expectativas grandiosas. A cena é um comentário, bem atual, sobre a fantasia nacionalista de um Brasil voltado para "coisas futuras" genéricas, que não supera sua condição infantil de grande potencial irrealizado.Que personagens são tão marcantes que ganharam vida própria na sua imaginação de leitor?Sem dúvida a mulher/menina/moleca Capitu, cujas artes e manhas no amor o apaixonado Bento nunca compreendeu e nunca perdoou. Outro personagem marcante, para mim, é Rubião, protagonista do romance Quincas Borba, que considero um caso de bovarismo brasileiro. Rubião é o caipira pobre que se muda de Barbacena para a corte, onde não faz outra coisa a não ser posar de cidadão do mundo, que ele não é. Seu provincianismo o condena: assim como a Bovary, Rubião não domina o jogo das conveniências sociais entre as famílias ricas da capital. Para fazer-se aceito e popular, dá todo seu dinheiro a amigos interesseiros, posa de figurão benemerente, faz-se cercar de nulidades e aproveitadores "bem nascidos" e morre louco, na miséria, de volta a Minas com o cão Quincas Borba, seu único amigo leal.Qual livro dele mais o fez pensar? Esaú e Jacó e Memorial de Aires, dois livros difíceis do final da vida de Machado. Nesses romances, Machado leva ao limite seu modo de envolver o leitor em verdadeiras não-histórias, como o "livro sobre nada" projetado por Flaubert. São livros em que o único tema importante é a mediocridade da vida, dos sonhos, das escolhas e dos atos dos membros das famílias ricas e remediadas do Brasil, entre o final do Império e o início da República.Há algum texto de Machado de Assis que você considere injustiçado?Deve haver muitos, talvez o próprio Memorial de Aires, mas eu também cometo a injustiça de me esquecer de muitos contos do Machado.Entre as adaptações para o cinema, de qual você mais gosta? Por quê?Não sei se vi todas, mas acho insuperável Brás Cubas (1985), do Julio Bressane. Vi e revi umas três vezes, sem entender o que me fascinava tanto no filme. O crítico Rubens Machado me esclareceu que Bressane, como nenhum outro cineasta, sabe usar o Rio de Janeiro como caldeirão de mitos brasileiros. A combinação das imagens do Rio por Bressane e o texto do Machado é perfeita, misteriosa e estranhamente esclarecedora. Além de muito, muito bela.Você acha que, em Dom Casmurro, Capitu traiu Bentinho?Acho que se Machado quisesse uma resposta para esta pergunta não seria o maior escritor brasileiro. Dom Casmurro não é um romance sobre a infidelidade. É sobre a perplexidade de um homem diante do desejo da mulher - mesmo que o objeto desse desejo seja ele próprio.Entre os contos do autor, quais você destacaria? Por quê?Pai contra Mãe, por se posicionar tão abertamente e de maneira tão original contra a barbárie da escravidão. O Espelho é um conto muito estudado entre psicanalistas, porque introduz a questão do duplo de um ponto de vista mais psicológico do que fantástico. Enquanto autores do século 19 como Edgar Alan Poe, Guy de Maupassant, Robert Louis Stevenson e E.T.A. Hoffmann escreveram sobre o fantasma do "duplo" que abalava o pretenso centramento do homem burguês sob a ótica do fantástico, no conto de Machado não restam dúvidas, para o leitor, de que a sensação sinistra do personagem é provocada pelo estranhamento de sua própria imagem no espelho.

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