Ele desafiou a natureza - e perdeu

A curiosa história da amizade entre o piloto Charles Lindbergh e o médico Alexis Carrel, que, juntos, perseguiram a imortalidade

Sérgio Augusto, O Estadao de S.Paulo

07 de setembro de 2007 | 00h00

Que Charles A. Lindbergh superou Ícaro todo o mundo sabe. Desde 1927. Que ele tentou igualar-se a Deus, só agora se soube. Com detalhes.Herói recorrente, um dos mais festejados da primeira metade do século passado, o piloto que atravessou sozinho (e sem escalas) o Atlântico, a bordo de um precário monoplano, e teve seu primeiro filho seqüestrado e assassinado, nem depois de morto (em 1974) aposentou-se do noticiário. Há três anos, o escritor Philip Roth o elegeu presidente dos EUA em 1940, num exercício de imaginação histórica, The Plot Against America, que a Cia. das Letras traduziu, literalmente: Complô Contra a América. Sinistra imaginação: Lindbergh derrotava nas urnas Franklin Delano Roosevelt e transformava o país numa sucursal do 3º Reich - que, felizmente, duraria apenas dois anos, culminando com a volta de FDR à Casa Branca e a entrada da América na guerra contra as forças do Eixo.Sinistra, mas nada gratuita: o herói da aviação passou boa parte da vida flertando com o nazismo e outras funestas invencionices de que só o homem é capaz. Admirador de Hitler, de quem ganhou uma medalha de ouro, Lindbergh era ferozmente contra a entrada dos EUA na guerra e seguidas vezes manifestou-se contra os judeus e "outras raças inferiores". Quase foi, de fato, o adversário republicano de FDR nas eleições de 1940, mas nem entre os republicanos a extrema direita tinha maioria.Nas últimas páginas de seu romance, Roth oferece um apêndice contextualizador sobre a vida de Lindbergh e outras personalidades da época, para que o leitor possa distinguir o real do imaginário. Nenhuma referência faz às ambições divinizadoras do piloto, que por uns tempos julgou estar muito perto de inventar a imortalidade. Quando? Alguns anos antes de "eleger-se" presidente da República. Mais precisamente entre o seu noivado com Anne Morrow (casaram-se em maio de 1929) e a entrada dos EUA na guerra, depois do ataque japonês a Pearl Harbor, em dezembro de 1941.Retiro o que disse: Lindbergh não tentou igualar-se a Deus, mas afrontá-lo, concedendo ao ser humano o suposto privilégio da vida eterna. Nem Jesus ousou tanto, limitando-se, segundo a Bíblia, a ressuscitar Lázaro, que, tempos depois, acabaria confirmando a veracidade da imemorial advertência: "Memento mori."Atormentado pelo estado de saúde da cunhada, que tivera a válvula mitral afetada por uma febre reumática, Lindbergh cismou de curá-la como quem conserta um avião, trocando peças e fazendo emendas. Sua meta inicial era a criação de um coração artificial, capaz de recuperar a cunhada para uma vida normal. Fazia 18 meses que retornara de seu legendário vôo de Nova York a Paris e seis meses que se casara, quando, por intermédio do futuro anestesista do primeiro parto de Anne, ouviu falar de um médico e biólogo francês, dr. Alexis Carrel. Em 28 de novembro de 1928 apertaram as mãos pela primeira vez. Começava ali uma das mais bizarras parcerias do século 20, só agora desencavada e detalhada em The Immortalists - Charles Lindbergh, Dr. Alexis Carrel and Their Daring Quest to Live Forever (Ecco Press, 338 págs.), escrito pelo jornalista David M. Friedman e já à venda na Amazon por US$ 13.35.Nobel de Medicina em 1912, pelas revolucionárias técnicas cirúrgicas que inventara para seccionar e ligar vasos sangüíneos, Carrel caiu do céu para Lindbergh. Era um gênio no seu ofício. Fizera a primeira operação de safena (num cão, em 1910) e suas experiências com tecidos, nas décadas de 20 e 30, abririam caminho para a prática de enxertos e transplantes de órgãos. Lindbergh acreditava que seu know how de engenharia mecânica só precisava da sapiência biológica do francês para construir um mecanismo capaz de salvar a cunhada.Reclusos num laboratório do Rockefeller Institute for Medical Research, em Nova York, todo pintado de preto e protegido por uma grade de ferro, trabalharam juntos por quase uma década, utilizando-se de uma série de bombas especiais para movimentar gases e fluidos e de glândulas de gatos, que, alimentadas in vitro por nutrientes e oxigênio, para evitar infecções, continuaram produzindo hormônios, dando a ilusão de que a vida podia ser controlada e intercambiada.Sempre vestidos e encapuzados de preto, como dois bruxos medievais, não demoraram muito a tornar pública a estrepitosa novidade: estavam à beira de descobrir o segredo da imortalidade. Em 13 de junho de 1938, ganharam capa da revista Time, que os brindou com uma laudatória reportagem, não por acaso intitulada "Men in Black" (Homens de preto). Mas a imortalidade por eles prometida não seria, como a morte, um fenômeno universal, e sim uma dádiva reservada a uma elite, a conquista final da eugenia. Só os puros-sangues humanos, selecionados por um conselho de sábios, seriam beneficiados pela constante retífica biológica imaginada por Carrel e Lindbergh, dois nazistas nada enrustidos, detalhe fundamental omitido pela reportagem da Time. Desde, pelo menos, 1935 que as verdadeiras intenções do dr. Carrel estavam à disposição dos interessados num best seller de sua autoria, O Homem, Esse Desconhecido, que David Friedman define como "uma mistura de ciência e espiritualismo, abnegação, sexismo, nostalgia, autoritarismo, húbris e eugenia". Misto de dr. Frankenstein com o dr. Moreau de H.G. Wells e o doutor Lerner de Maurice Renard, o parceiro de Lindbergh preconizava a criação de classes biológicas, com os fracos e doentes numa extremidade e os fortes e saudáveis noutra. Só estes deveriam ser preservados e receber novos órgãos. Gênio envenenado por preconceitos ideológicos, Carrel considerava a democracia "um equívoco do cérebro" e temia pelo futuro da civilização ocidental, para ele, ameaçada por raças inferiores e genes deficientes.Não foi pouco o espanto que me causou a descoberta casual, na Internet, de um texto entusiástico sobre o ensaio de Carrel, escrito por um anônimo filósofo potiguar. O livro, que há tempos não se encontra à venda por estas bandas, nem sequer na tradução portuguesa, é recomendado pelo misterioso escriba de Paranamirim como uma preciosa e imperdível summa biológica, a ser lida inúmeras vezes, "por todo e qualquer ser humano". Paranamirim pode ter sido útil para apressar a vitória dos aliados na guerra contra o nazi-fascismo, mas não para sepultar para sempre o seu ideário.Por falar em guerra, quando os EUA apontaram seus canhões em direção à Europa, Carrel foi afastado do Rockefeller Institute e forçado a retornar a Paris. Financiado pelo governo colaboracionista de Vichy, lá montou, finalmente, o seu conselho de sábios, que nunca entrou em ação. Carrel morreu em 1944, aos 71 anos, antes de iniciar os estragos prometidos.O aprimoramento genético da espécie humana foi visto, a princípio, como algo positivo por filósofos (Platão achava que a reprodução humana deveria ser monitorada pelo Estado), inventores (Alexander Graham Bell), intelectuais (até de esquerda, como Bernard Shaw) e líderes políticos, como Winston Churchill (Hitler não conta). Depois que Ernst Rüdin incorporou a retórica eugênica às políticas raciais da Alemanha nazista, os fiéis mais ajuizados da ciência batizada por sir Francis Galton foram acender suas velas em outros altares.A busca da imortalidade é uma quimera quase tão ou mais antiga que o sonho da juventude eterna, sem a qual, aliás, a primeira não faz sentido. Que o diga Titonos. A pedido de Eos, a deusa da aurora, que se apaixonara por ele, Titonos foi beneficiado com o dom da imortalidade por Zeus, que, no entanto, esqueceu-se de conceder-lhe a juventude eterna. No poema que Tennyson lhe dedicou, Titonos virava uma sombra cinzenta, um velho encarquilhado, a maldizer sua imortalidade cruel e a invejar os homens felizes que têm o poder de morrer. Se viver para sempre não é uma dádiva, mas uma maldição (como deixou claro Karel Capek em O Segredo de Makropoulos), viver para sempre sem os benefícios do elixir da juventude é um infortúnio mais tenebroso ainda.É imensa a galeria de mitos e personagens que em vão tentaram durar ad aeternum e/ou beneficiar-se das benesses que Ponce de Leon foi procurar na mesma Flórida onde, 472 anos mais tarde, os três velhinhos de Cocoon encontrariam, sem ter de fazer um pacto com o diabo, como o Fausto de Goethe, ou maligno similar, como o Dorian Gray de Oscar Wilde. Alguma forma de elixir da vida alimenta a ficção de Balzac, Eugène Sue (O Judeu Errante), Jonathan Swift (os imortais Struldbruggs do capítulo 10 de As Viagens de Gulliver), H. Rider Haggard (Ela), Robert Louis Stevenson (O Médico e o Monstro), Edgar Allan Poe (o estranho caso do sr. Waldemar), Aldous Huxley (Também o Cisne Morre), e quase todo o primeiro time da literatura de ficção-científica, de H.G. Wells a Robert Heinlein, passando por Damon Knight, James Blish, Frederik Pohl, Brian Aldiss, Norman Spinrad, A. E. van Vogt, Clifford D. Simak e Roger Zelazny. Moral de todas as histórias: a imortalidade é uma desgraça. Os Struldbruggs visitados por Gulliver comportam-se como normais até os 30 anos. Conforme a idade avança, são vencidos pela melancolia, pela inveja e por desejos impotentes; esquecem tudo; em suma, envelhecem. "Quanto mais se vive, com maior quantidade de mal se entra, automaticamente, em contato", observa William Propter, o intelectual de plantão de Jo Stoyte, o excêntrico bilionário de Também o Cisne Morre. Inspirado na figura de William Randolph Hearst, o barão da imprensa que, pouco depois, serviria de modelo ao Charles Foster Kane de Orson Welles, Stoyte busca a imortalidade com a ajuda do dr. Sigmund Obispo, amoral dublê de médico e prelado, um geriatra prometéico que desafia a natureza aplicando injeções de testosterona no gluteos medius do bilionário e submetendo-o a testes com alcoóis graxos e vísceras de carpas.Huxley começou a escrever sua sátira (sim, é uma sátira) quatro meses depois da reportagem da Time sobre as experiências de Lindbergh & Carrel. É possível que ela o tenha influenciado mais, subliminarmente, do que o poema de Tennyson dedicado a Titonos, de onde extraiu uma estrofe para epigrafar o romance e seu título, no original: "...after many a summer dies a swan."Se após muitos verões também o cisne morre, depois do verão de 1945 Charles Lindbergh, chocado com o que vira nos campos de concentração nazistas, abjurou publicamente tudo o que dissera e escrevera a favor da Alemanha de Hitler. O ex-imortalista queria morrer com o barra limpa.

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