Elba lança DVD e prepara dois CDs para 2009

Cantora vai celebrar 30 anos de carreira interpretando autores nordestinos que têm 'a veia sonora do sucesso'

Lauro Lisboa Garcia, O Estadao de S.Paulo

14 de novembro de 2008 | 00h00

Os momentos de transição revelam-se os mais produtivos na carreira de Elba Ramalho. Isso se deu quando de sua passagem do teatro para a música (com o álbum de estréia, Ave de Prata), depois nas mudanças de gravadoras - com Alegria, Coração Brasileiro e os que se seguiram a Leão do Norte. Não foi diferente quando partiu para a produção independente, em 2007, com o lançamento de Qual o Assunto Que Mais lhe Interessa? por seu selo Ramax. O CD é a base do show que ela apresentou para convidados anteontem e segue até o dia 23 no Teatro Fecap.Elba aproveita a ocasião para lançar o DVD Raízes e Antenas (Atração Fonográfica), gravado no Auditório Ibirapuera, com repertório do CD mais recente, premiado anteontem com o Grammy latino. Incluindo alguns êxitos da carreira, ela conta com um elenco insólito de convidados. Lenine divide os vocais com ela em Estrela Miúda (João do Vale/Luiz Vieira) e Miragem do Porto (Lenine/Bráulio Tavares), a Spok Frevo Orquestra incendeia Banho de Cheiro (Carlos Fernando) e Frevo Mulher (Zé Ramalho), bem como o faz a Trombonada em Ave Anjo Angelis (Jorge Benjor). Margareth Menezes cai na dança de Na Base da Chinela (Jackson do Pandeiro/Rosil Cavalcante), Yamandu Costa esmerilha as cordas do violão em Um Índio (Caetano Veloso) e Gabriel o Pensador faz o rap de Tempos Quase Modernos (Qual o Assunto Que Mais lhe Interessa?), de Roberto Mendes e Capinam.O formato do show no Fecap é diferente, até porque, além de o espaço ser menor, seria inviável seguir turnê com tanta gente em cena. "E também se usasse os metais no Fecap, ficaria com overdose de som", explica. "Mas conseguimos adequar o show a cinco músicos usando todos os loops eletrônicos." A banda é formada por Marcos Arcanjo (guitarra e violão), Cezar Silveira (acordeão), Tostão Queiroga (bateria e programação), Fofão (contrabaixo) e Anjo Caldas (percussão). Cantando em tons mais graves, o que naturalmente decorre da maturidade, Elba continua imbatível no palco, divertida, lírica, intensa, só que um tanto mais "intimista" no teatro. A bela Canção da Despedida (Geraldo Azevedo/Geraldo Vandré), que Elba lançou em 1983 no álbum Coração Brasileiro, não pôde ser incluída no DVD porque Vandré não autorizou, mesmo depois de muita insistência. "Vandré reclama que foi um desrespeito não ter o nome dele no disco, mas foi ele mesmo quem proibiu que eu colocasse na época. Liberou depois que eu sugeri colocar só Geraldo sem o Vandré", esclarece."Agora ficou querendo R$ 100 mil para liberar. Sonhos impossíveis e contraditórios. Mas isso acontece com as melhores pessoas. Aqui não vai nenhuma crítica, ele tem todo o direito de se posicionar dessa maneira", diz a cantora, que, como amiga, o acolheu na volta do exílio dele nos tempos da ditadura. Elba lamenta a ausência da canção no DVD porque era um dueto seu com Azevedo, amigo e parceiro com quem ela diz ter a maior afinidade desde os primórdios.Nos extras do DVD, o compositor Lula Queiroga, que produziu Qual o Assunto..., salienta as letras proféticas das canções e que isso "devolve Elba à própria Elba" do início de carreira, "quando tinha uma coisa apocalíptica, de expressionismo alemão". Elba diz que é um pouco isso mesmo. "Fora a profissão, que alimenta muito o ego de todo artista, tenho uma consciência muito sólida da minha fé e do mundo de um modo geral. No meu dia-a-dia, sempre tive um discurso não cartesiano, é muito mais místico, transcendental. Meu disco questiona muita coisa, tenho ONG que trabalha com área social. Não é só chegar e cantar."Ser independente hoje não muda muito o ritmo de trabalho da cantora, que sempre bancou suas elaboradas produções de palco por iniciativa própria. Hoje ela se diz feliz por estar no rol dos artistas "mais animados" nas agendas das empresas que a chamam para eventos fechados.Em 2009 Elba completa 30 anos de carreira como cantora e vai lançar dois CDs, um deles dedicado ao cancioneiro de Zé Ramalho e o outro, um contraponto a Qual o Assunto..., com xotes e baiões românticos. Este, que está quase pronto, é só de canções de nordestinos das gerações pós-Luiz Gonzaga/ Jackson do Pandeiro/ Antonio Barros, pouco conhecidos por aqui.Além de Dominguinhos e Fausto Nilo, entre esses compositores da "estirpe do sertão na cidade", que "têm uma poética muito linda" estão Climério, Chico Bezerra, Maciel Melo, Flávio Leandro, Petrúcio Amorim, Terezinha do Acordeom. "Eles têm a veia sonora do sucesso e as canções deles que estão nesse disco, com certeza, vão pra boca do povo."

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