Ela jogou além do tempo regulamentar e, é claro, ganhou

'Amo você, Brasil', diz a cantora, feliz com a resposta de 67 mil pessoas, o maior coral que ela já recrutou em sua turnê

Jotabê Medeiros, O Estadao de S.Paulo

19 de dezembro de 2008 | 00h00

Faltando 9 minutos para as 22 horas, com 1h51 minutos além do tempo regulamentar, Madonna surgiu em seu trono com o sorriso maroto refeito, leve e solta, como se não tivesse feito mais de 50 shows iguais a esse durante o ano. Parecia novinha em folha cantando Hard Candy, sorriso e requebrado nos trinques, velho truque que as mulheres usam com maestria para fazer os garotos pensarem que mulher bonita não tem dor de cabeça, prisão de ventre, essas coisas.No gramado do São Paulo Futebol Clube, o melhor time de futebol do País do futebol, a casa do pragmatismo vencedor, Madonna assume o papel de craque e faz o bailarino "engraxar"'' suas botas, como Diego engraxava as de Robinho ou Kaká as de Ronaldinho Gaúcho. Foi um dos maiores corais humanos que ela já recrutou em sua turnê, com o Morumbi tremendo e dançando após Ray of Light e Hung Up.A atriz Fernanda D?Umbra, flanando pelo gramado, rebate de voleio a pergunta "Madonna é boa atriz ou é canastrona?", sem titubear: "Madonna é uma boa canastra. Porque todos os escândalos em que se envolveu foram arquitetados por ela. Porque ela sempre soube usar a imprensa a seu favor, nunca foi vítima da imprensa. Diferente de Amy e Britney, duas loucas que só se ferram, Madonna se dá bem."Na mosca, Fernanda. No palco, a mulher que encanta os 67 mil no Morumbi não parece ter problema de nenhuma espécie, é uma deusa dourada que desliza com meiões de futebol e shortinhos de academia, um deles roxo, com um cinto com duas estrelas e o velho arco-íris multissexual na correia durante a execução de Music. Interage pouco com o público fora do seu roteiro, com apenas um "Alô São Paulo" após a primeira música.Signos da cultura pop moderna, do grafite ao vídeo, do scratch do DJ ao pancadão do Miami Bass, são incorporados por Madonna em seu desfile aeróbico. "Essa é para as mulheres", canta, enquanto destrói ou embaralha suas personas no palco, debaixo do refrão ?she?s not me?, ela não sou eu. "Vocês querem fazer tudo que querem fazer. Vocês querem transar com seu namorado?"Tique, taque, tique, taque. A batida do relógio pontua quase todo o show, o relógio está no telão na abertura, está no pescoço do DJ. A questão principal é: Madonna reivindica a eternidade em cena ou está abrindo mão dela? Ela parece indagar, debaixo do bombardeio visual: além dos milhões de dólares, o que mais me oferece a vida eterna?O som do show começou muito ruim, é bom que se diga. Às vezes, Madonna parecia um grilo se esgoelando no meio do palco. O set de música cigana, turbinado pelo grupo cigano que a acompanha, visto da cabine de imprensa, parecia um daqueles shows de mariachi para turistas de Cancún, cenográficos, falsos como uma moeda de R$ 1,50. Amanhã tem mais, e já será então a reta final. Madonna voltará ou chegou a hora de pendurar as chuteiras?No tradicional momento "interatividade", Madonna pediu para um garoto da platéia pedir uma música, e ele pediu, obviamente, Like a Virgin. Aí então Madonna requisitou o que ela chamou de "jogo de equipe", e a platéia, que estava ávida para ser acariciada, respondeu prontamente. Dali em diante, com palmas, acompanhou o show excitada, e já chegava perto da meia-noite. "Brasil, eu amo você", declarou a cantora, tocada pelo entusiasmo do público.Como diria o Christian Pior, personagem do Pânico, "Madonna não é para bicha pobre", e essa máxima já se fazia sentir na chegada ao Morumbi, com os preços exorbitantes de estacionamentos e até banheiros nas imediações. Filas quilométricas nos portões, devido ao excesso de zelo da segurança, prejudicaram a entrada e fizeram muita gente perder o DJ Paul Oakenfold (não que tenham perdido muita coisa).No portão 2, uma emissora de rádio alertava para os batedores de carteiras e celulares, e um garoto na rampa berrava "Brasil, vai tomar no c...", indignado com o furto de celular de que tinha acabo de ser vítima. Todo mundo parecia ter conseguido algum souvenir na noitada. O jornalista Felipe Branco Cruz, do Jornal da Tarde, do Grupo Estado, exibia orgulhoso os óculos que Madonna atirou lá do palco, durante a música She?s Not Me. A senhora materialista promete diversão, e entrega.

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