El Dorado era aqui (na Amazônia)

A história do explorador Percy Fawcett não me era desconhecida. Sabia que havia desaparecido em algum trecho da Amazônia na década de 20 à procura da cidade mítica de El Dorado.Talvez por isso não tenha ligado muito quando recebi da minha prima Paula, aquela que é livreira em São Francisco, The Lost City of Z: The Tale of Deadly Obsession in the Amazon (em tradução livre, A Cidade Perdida de Z: Uma História Mortal de Obsessão na Amazônia). É uma biografia nova do Fawcett, com um enredo de policial. Minha prima achava que eu a curtiria.Não faltavam motivos para tanto. Foi escrita por um repórter da revista New Yorker (David Grann), é verdade, e tratava do Brasil em detalhes, duas características que prezo nos livros. Mas foi ficando na mesa da sala e migrou depois para lugares cada vez menos nobres da minha casa, com chances cada vez menores de ser lido. Há coisas interessantes acontecendo no estudo da Amazônia pré-cabraliana e tantas questões ambientais urgentes na região, que não dei bola para uma história que se passa na década de 1920. O livro quase foi levado de vez para a estante grande, de onde algumas obras não voltam, quando eu soube, lendo o jornal, que estava em sexto lugar na lista dos mais vendidos do New York Times. Um livro sobre a Amazônia na lista de best sellers nos EUA?Não era só isso. Brad Pitt, ninguém menos, teria comprado os direitos do livro para o cinema. E como se não bastasse, vai mudar para Manaus, com Angelina e a filharada toda, durante os cinco ou seis meses de filmagens. Aí já estava ficando irresistível, convenhamos. Bem que minha prima mencionara em um email que o livro vendia que nem pão quente na sua livraria em São Francisco. Parece que vai sair aqui, em setembro, pela Companhia das Letras.Mas quanto a essa história de Brad Pitt, não sei não. Desconfio um pouco. Ainda estou à espera de sua interpretação do escritor Jack Kerouac - ou seria do personagem Neal Cassidy?, nem lembro mais qual deles -, na versão hollywoodiana do clássico Pé na Estrada, que foi prometida há muitos anos. (Tantos anos, aliás, que Pitt já está ficando um pouco velho para o papel).De qualquer forma, não resisti a tamanha fofoca e fui ler The Lost City of Z, de David Grann. Em resumo: "Z" era como Fawcett chamava seu El Dorado. Ele estava convencido de que existia uma civilização perdida na Amazônia. Não foi o primeiro. De Lope de Aguirre, em 1561, a Fawcett, em 1925, morreram centenas de exploradores em busca de El Dorado, sem tê-la encontrado na região. Fawcett levou ainda um filho seu e o melhor amigo deste. Nunca mais foram vistos.A história é boa. Mas melhor ainda, achei, foram as tentativas de descobrir o que aconteceu com Fawcett. Foram tantas expedições - do mundo todo -, que o governo brasileiro se viu obrigado a proibi-las, sem grande êxito, diga-se de passagem. Chegou a pedir ao lendário sertanista Orlando Villas Boas que desse um jeito de achar a ossada do Fawcett para encerrar essa história de uma vez por todas. Villas Boas tentou resolver a questão. Mas não conseguiu acabar com a lenda. Em Londres, a ossada que ele afirma ser do Fawcett foi rejeitada pela família. (Não vou contar tudo... quem quiser saber detalhes pode ler o livro).O mais incrível é o fim do The Lost City of Z. David Grann sugere que, no fundo, Percy Fawcett tinha razão. Com a ajuda de algumas das últimas pesquisas na área de arqueologia, ele mostra que nossas ideias sobre a vida pré-cabraliana na Amazônia ainda vão mudar muito. Existiam, sim, civilizações complexas na selva amazônica antes da chegada dos europeus. Não será impossível, inclusive, que um intrépido arqueólogo encontre, um dia, resquícios de uma espécie de cidade perdida de "Z". Talvez já tenha acontecido. Fique ligado.

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