Eis um caso de ousadia demais e talento de menos

Figurinha Carimbada fala de morte e outras perdas, temas ainda tabus para crianças - pena que o espetáculo seja tão fraco

Dib Carneiro Neto, O Estadao de S.Paulo

15 de maio de 2008 | 00h00

Na sessão de sábado retrasado, no Teatro Alfa, da peça infantil Figurinha Carimbada, nem 30 minutos do espetáculo tinham se passado, quando uma mãe toma a filha pelo braço, levanta e sai, dizendo em voz alta: - Vamos embora, filha, essa peça é uma porcaria. (Sim, eu ouvi isso.) No final, depois de quase uma hora e meia de peça (duração incomum no teatro infantil), muitas pessoas da platéia levantaram para aplaudir de pé (gesto já banalizado no teatro).O que tem escandalizado parte da platéia e encantado a outra parte é o tema: todos os cinco personagens principais passam por duras situações de perdas, incluindo morte da mãe, morte do cachorro e até perda total da visão, num acidente com fogos de artifício. Quem disse que criança gosta só de fantasias completamente felizes? Por que os pais ainda tratam a morte como tema-tabu para seus filhos no teatro?Márcio Araújo, autor, diretor, cenógrafo, programador visual, compositor das letras da trilha e intérprete dos cinco protagonistas da peça, não teve medo de ousar na temática. Ponto para ele. Não há tema que não possa ser proposto para platéias infantis, sobretudo no século 21, mas desde que ética, respeito e bom gosto prevaleçam e que haja cuidado na abordagem, afinal, são seres humanos em formação.Mas Araújo errou no todo do espetáculo, talvez por tomar para si todas essas funções na mesma peça. Sua louvável coragem de autor (ainda que o texto escorregue muitas vezes em tons tatibitates e de lições de moral) careceria do olhar de um diretor que não fosse ele, incapaz de domar o próprio estrelismo. Por que quis abarcar os cinco meninos, se não cria nuances interpretativas que diferenciem cada um deles? Não foi bem dirigido para isso e talvez nem tenha talento para missão tão hercúlea. Na certa, pensa que basta trocar de peruca e pronto.Seu exibicionismo chega ao cúmulo de conversar com a platéia antes do início do espetáculo como se fosse um animador de programa infantil da televisão, prestes a começar seu show. E para que os microfones num teatro tão pequeno? Será que Araújo não percebe o quanto o trabalho de voz seria importante para a caracterização de cada menino? Quis exibir os microfones para dar pinta de superprodução? Provavelmente. Para completar, o cenário é de um mau gosto exemplar. Pueril no sentido negativo, como um papel de parede exageradamente estampado em quarto de bebê.As canções de Tato Fischer são o que mais se salva do espetáculo, ainda que nenhuma delas seja especialmente marcante. Resta-nos apoiar a iniciativa temática, mas esperar que ela seja retomada no próximo espetáculo com mais talento. Quem sabe baste abraçar a causa sem ir com tanta sede ao pote. Ao falar de perdas, Figurinha Carimbada perdeu. Três Destaques Da ProgramaçãoPETER PAN E WENDY: Uma das cenas mais emocionantes da cerimônia de entrega do Prêmio APCA, no dia 5, no palco do Teatro Sérgio Cardoso, ocorreu na premiação de teatro infantil. Alexandra Golik (foto), melhor atriz por Peter Pan e Wendy (em cartaz no Colégio Santa Cruz, até 1.º de junho), desaba a chorar e exige no palco a presença da colega de elenco, Carla Candiotto. "Não quero ganhar sem ela, da próxima vez o troféu tem de ser dela!", disse, emocionando a platéia. Na peça, uma espécie de O Mistério de Irma Vap para crianças (por causa do entra-e-sai e da agilidade nas trocas de figurinos), as duas atrizes se desdobram e se revezam em todos os personagens da clássica história de J.M. Barrie. O Santa Cruz fica na Rua Orobó, 277, Alto de Pinheiros, tel. 3024- 5191. Sábados e domingos, às 16 horas. Ingressos a R$ 20 e R$ 25. ERA UMA VEZ UM RIO: Colecionador dos principais prêmios do setor e grande sucesso da temporada 2006, felizmente faz mais uma temporada na cidade este competente espetáculo da autora e diretora Lavínia Pannunzio. Desta vez, o palco é o do Sesc Consolação (Rua Dr. Vila Nova, 245), só aos sábados, num horário para pais que acordam cedo: 11 horas da manhã. O melhor de tudo é que a entrada é franca. O grande mérito da peça é o de falar de um tema muito sério (as questões ambientais) de um jeito poético e tão tocante que atinge a todos sem precisar escancarar mensagens ou gritar bordões. Um menino ama um rio e isso basta para uma incrível contundência cênica que vira emoção pura. Cenografia e iluminação também são de encher os olhos. O protagonista tem sido revezado por dois atores: Ando Camargo (prêmio APCA) e Rodrigo Bolzan. CONVOCADORES DE ESTRELAS: Luxo dos luxos no teatro infantil é ter uma peça com trilha sonora especialmente criada e executada por Badi Assad. Ela é craque no que faz e tem uma voz linda. Também vale a pena ver este novo espetáculo do gupo Seres de Luz por causa da inusitada animação utilizada em cena: a técnica japonesa chamada de kuruma nyngio, em que os manipuladores de bonecos se movimentam sentados em um banco com rodinhas. O efeito é incrível. Mas tirando isso, o espetáculo peca por certa monotonia no ritmo e pela dramaturgia fraca, com frases ingênuas demais. Vale mais a pena prestar atenção nas letras da canções do que nos diálogos dos personagens. A peça está em cartaz no Sesi (Av. Paulista, 1.313, tel. 3146-7505), às quartas, sábados e domingos às 16 h e às quintas às 11 h. Grátis.

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