Efeito estufa chega ao lirismo

Aforismos de Comunicados Lacônicos, de Antonio Lizárraga, revisitam versos surrealistas de Murilo Mendes

Fabrício Carpinejar, O Estadao de S.Paulo

11 de abril de 2009 | 00h00

O aforismo - frase curta, incisiva e de efeito - recebe uma nova ramificação com o lançamento de Comunicados Lacônicos. O artista plástico argentino Antonio Lizárraga, radicado desde 1959 no Brasil, onde iniciou sua carreira como ilustrador no Suplemento Literário do Estado, adaptou a forma epigramática para o uso total das metáforas. Em vez de revelar um pensamento, revela uma imagem. Ele é um particular aforista da imagem.Carrega a síntese do instante de um haicai, porém no formato de sentenças, com breves contrações da vida urbana. Realiza uma iconoclastia da figura, impondo um viés cômico do horror, do desajuste social, dos problemas irresolutos como desemprego e mendicância. Em vez de exibir uma instalação de palavras, faz uma desinstalação existencial. Captura o belo e a pureza da infância para filtrá-los numa distorção humanizadora, cética e adulta."o caracol está com friofoi desalojado""bandos de ventosse acotovelam para viver""o vaga-lume pulou de paraquedas"Há uma sucessão de mortes e despejos; uma fixação do deslugar. A natureza não está mais na natureza, o homem não está mais no homem. São todos intrusos em seus significados e contextos originais.Uma poesia catastrófica, nem por isso pessimista. O realismo dói mais quando imaginar não supera a observação. O efeito estufa parece que chegou ao lirismo. Construímos mirantes para os peixes gostarem do mar (eles já não gostam), o aprendiz de pedreiro despenca do ar de costas para a arquibancada (ele está fora do jogo), na praia aluga-se um arco-íris manufaturado assim como cadeiras e guarda-sol (toda beleza é vendida), bêbados se defendem das ofertas de trabalho (não desejam trabalhar).Relances de um autor que parece anotar de pé e de passagem. Hedonista do desconforto, caminha com naturalidade sobre o absurdo, tornando-o ainda mais absurdo. Transfere a continuidade da lógica para o material onírico. Organiza delírios verossímeis.Sua habilidade fundamenta-se na lição prática dos conceitos, expondo cenas, nunca explicando. Suas ideias são - na maioria - figuradas. Não há o interesse de recorrer a um tom solene e dramático da emoção para transmitir seriedade, muito menos explorar uma escrita caudalosa e nerudiana que facilite convencer o interlocutor de seus propósitos ferozes.Seu modo circense tem o toque de provocação de Sebastião Nunes e Zuca Sardan, em especial no quesito erotismo, sugerindo uma autossuficiência irônica.Prevalece na obra a periferia das ações, em miradas fugidias e transitórias como a de um vendedor de dicionários indeciso no farol. Enquanto muitos procuram a pintura, Lizárraga oferece somente a moldura. Enquanto a maioria procura a peça de teatro, ele oferece as cortinas.Seus poemas são tão curtos que lembram rascunhos, anotações desagradáveis propositalmente (o título não mente). Persiste o ruído premeditado. Lizárraga cristaliza dissonâncias."cada paralelepípedo tem seu lar e seu modo de assobiar a rua""pardal autodidata pratica voo por instrumentos"As palavras "paralelepípedo" e "autodidata" têm igual função de problematizar a oralidade. Desestruturam a elevação, preparam obstáculos para a leitura. Os versos gagos simbolizam a dificuldade de dar conta da exuberância de contradições do cotidiano. É como se não terminasse de escrever e já precisasse passar para outro verso. A pressa paralisa o aprofundamento.Existe um toque nostálgico, a exemplo da lembrança à espera do trem cargueiro e a noção de partir aprendida na companhia paterna, existe uma saudade de outro tempo ("as velhas árvores preservam a imagem/ que eu também preservo") que temperam o livro, mas não modificam o estupor do deboche. A ponto de embaralhar a diferenciação: se é mesmo o escritor que debocha ou é debochado por aquilo que vê.Em seu primeiro trabalho poético, o escritor segue a audácia surrealista de Murilo Mendes e efetiva seu principal mandamento: a imaginação é vestíbulo da realidade. Só que a nudez não é mais possível, apenas o descarnar-se violento das coisas e dos sentimentos.Ou alguém ainda duvida de que acontecem acidentes de trânsito no imaginário? Fabrício Carpinejar, escritor e jornalista, é autor de Canalha! (Bertrand Brasil), entre outrosComunicados LacônicosAntonio LizárragaAteliê120 págs., R$ 38

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