Fotos Artists Rights Society (ARS) ©Munch Museum
Fotos Artists Rights Society (ARS) ©Munch Museum

Edvard Munch raro é visto em mostra de Nova York

'Entre o Relógio e a Cama' exibe 43 obras do artista norueguês

Lúcia Guimarães, O Estado de S.Paulo

02 Dezembro 2017 | 17h59

NOVA YORK - A arte precisa de tempo para traduzir turbulências históricas. O ano de 2017 se definiu por um alto grau de inquietação existencial da qual os Estados Unidos, por seu poder e peso na história mundial recente, são um exemplo de destaque. Se há um artista cujo tormento pessoal distante fala ao nosso presente é o norueguês Edvard Munch, objeto de uma nova exposição no Met Breuer, a filial do Museu Metropolitan instalada na antiga sede do Museu Whitney, em Nova York. Edvard Munch: Entre o Relógio e a Cama não inclui a mais conhecida pintura de Munch, O Grito, cuja primeira versão foi revelada em 1893 e que teve quatro outras, ao longo de cinco décadas. Apenas a versão em litografia do famoso autorretrato do artista numa ponte foi incluída entre as 43 obras expostas.

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A pintura que dá título à mostra foi uma das últimas concluídas por Munch, que morreu aos 80 anos em Oslo, em 1944. Em Autorretrato: Entre o Relógio e a Cama, Munch está em pé com suas obras ao fundo e exibe uma expressão vazia. O relógio a seu lado não tem números ou ponteiros e a cama, sugere a obsessão, desde a infância, com a morte. A mãe do artista morreu de tuberculose quando ele tinha cinco anos e, uma década depois, a morte da irmã favorita, Sophie, pela mesma doença, foi revisitada em A Criança Doente, uma pintura que teve seis versões.

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Desde o começo da carreira de 60 anos de pintor, fotógrafo e escultor, Edvard Munch provocou controvérsia. Sua primeira exibição solo em Berlim, em 1892, foi fechada pela polícia depois que fãs e detratores trocaram socos. A exposição incluía uma das sombrias representações do leito da morte que horrorizou visitantes. Munch foi um dos artistas cuja obra Hitler declarou degenerada na década de 1930.

A exposição é dividida por temas, o que permite um exame da recorrência de ideias ao longo de décadas e também acompanhar a fascinante evolução técnica de um artista experimental. Há sete obras que nunca tinham sido exibidas nos EUA e 16 autorretratos cobrindo mais de cinquenta anos da exploração que Munch chamava de auto-escrutínios.

Edvard Munch, um expoente do simbolismo do século 19, foi uma fonte de inspiração para o expressionismo alemão do século 20, mas a curadora Michelle Wijegoonaratna, uma das organizadoras da exposição, acredita que a fase final da sua obra já exibe um pré-expressionismo. Ela chama atenção para a intensa teatralidade do artista em obras como A Dança da Vida, de 1925. Munch era amigo do revolucionário dramaturgo sueco August Strindberg, cujo retrato pintou ao chegar a Berlim. Em A Dança da Vida as personagens femininas representam três gerações e a mais sedutora dança com um homem de feições semelhantes à do artista. O quadro é a peça central da sala dedicada ao tema Atração e Repulsa, a obra ao final de uma fase que começara em 1889, com a exploração de emoções de amor, ciúme e ansiedade.

A sala dedicada ao tema Puberdade e Paixão serve de contraponto a uma vida privada marcada por angústia e desajuste amoroso. Há exemplos de fixação com a fragilidade do despertar sexual de meninas. Em A Morte de Marat, de 1907, Munch evoca a famosa pintura de Jacques Louis David representando o assassinato do líder revolucionário francês Jean Paul Marat, no século 18, mas o homem caído na cama atrás de uma mulher nua de pé é o próprio Munch. Numa briga com a noiva Tulla Larsen, Munch tinha dado um tiro na mão direita. A ferida nunca afetou seus movimentos mas o drama da comparação é ilustrativo do temperamento do artista.

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