Iara Morselli/ESTADÃO
Iara Morselli/ESTADÃO

Editoras e artistas vêm se dedicando à produção exclusiva de edições artísticas

Ikrek Edições e Cosac Naify estão entre as empresas que se dedicam ao gênero

Camila Molina, O Estado de S. Paulo

03 de fevereiro de 2015 | 03h00

“Sempre penso o livro como espaço poético, um campo de pouso das palavras e das imagens”, diz Edith Derdyk. De seu ateliê em São Paulo, no bairro da Lapa, seria redundante destacar as estantes e a grande mesa, mas são ambas que abrigam não apenas os 33 livros de artista que ela já realizou desde 1981 – 98% deles, do próprio bolso –, como também edições de outros criadores colecionados, entre elas, a histórica Chinese Whispers (1976), da dupla Helen Douglas e Telfer Stokes, fundadores da editora Weproductions. Prolífica criadora-pensadora-produtora do gênero, Edith Derdyk ainda sonha com o momento em que será possível acontecer no Brasil o que experimentou certa vez em Londres: encontrar em uma livraria, por apenas US$ 30, e ao mesmo tempo em um museu, uma “obra seminal” como a dos ingleses.

“Para a gente, o livro é a maneira mais fácil de se chegar a um artista”, diz o arquiteto Pedro Vieira, de 29 anos, que fundou com o irmão gêmeo, Luiz, formado em direito, a Ikrek Edições, dedicada exclusivamente à produção de livros de artistas (aqui tratados como objetos artísticos). Iniciativa exemplar de especialização em um gênero que tem potencial para crescer no País, eles fizeram seus primeiros lançamentos no ano passado.

A primeira experiência da Ikrek (curiosamente, palavra que significa “gêmeos” em húngaro) foi a realização de Partitura, cara e sofisticada edição de apenas 15 exemplares (avaliados em “alguns milhares de reais”) criadas pela desenhista, gravadora e escultora Sandra Cinto. Já a série Ponto e Vírgula, outro segmento produzido pela editora, reúne obras de Jac Leirner, Lenora de Barros, Rafael RG e Fabio Morais. Dentro dessa proposta mais acessível, cada livro, peça artística exclusiva, sai com tiragem de 300 cópias a serem vendidas por R$ 50 a unidade.

“Todo mundo acha super sofisticado para o formato”, afirma Luiz Vieira. Atletas, de Jac Leirner, lançado em dezembro, era, por exemplo, um trabalho que a artista tinha guardado desde 1988. “Cabia como uma luva para o projeto gráfico deles, que é muito bonito, simples, enxuto e classudo”, diz Jac, convidada para a série. Há décadas colecionando fotografias e legendas publicadas em jornais de todo o mundo sobre protagonistas de vitórias, derrotas e disputas em diversas modalidades do esporte, a artista, que nunca teve “tara” pela criação de livros” – ela apenas havia experimentado criações do gênero quando ainda estudante na Faap em 1981 e 1982 –, concebeu uma obra inteligente e irônica na qual o vermelho é a cor referencial.

Paulatino. Ponto e Vírgula, que em 2015 vai ser acrescida com trabalhos assinados pelos artistas Thiago Honório, Mabe Bethônico e Marilá Dardot, é realizada através de recursos captados via Lei Rouanet – em 2014, contou com patrocínio de R$ 150 mil do banco Itaú. “Com o incentivo, conseguimos colocar cada livro à venda por R$ 50, sendo que metade da tiragem é destinada à distribuição gratuita”, conta Pedro Vieira. Já o projeto de Partitura, mais objetual, foi produzido com investimento próprio da editora – nessa linha, o próximo lançamento será uma peça de Débora Bolsoni. “Falando de mercado, existe uma dificuldade ainda em entender o livro como objeto de valor, artístico em si”, diz Luiz Vieira.

Segundo o editor Charles Cosac, diretor da Cosac Naify, que já realizou no campo dos livros de artistas as obras Ethers, de Tunga (com exemplares vendidos a R$ 3 mil) e a caixa Outra Fábula, de Waltercio Caldas (R$ 1,5 mil cada), os compradores do gênero dos “livros-coisa” são colecionadores de arte. “O mercado de arte, atualmente, está tão supervalorizado que, antigamente, eu falava que nunca ia ter um El Greco, mas que teria um livro do El Greco”, afirma. Entretanto, conta, a venda dos exemplares de Ethers é ainda feita “paulatinamente”.

“Os projetos não são caros, o que torna um livro caro é a participação do artista”, diz o editor, frisando que, no caso desse segmento, a atuação do autor é de 100%, seu grande diferencial. “Eu queria vender o Ethers a R$ 800 e acho que assim teria vendido todos, mas o Tunga queria a R$ 3 mil”, explica Cosac. Ainda usando essa obra como exemplo, o investimento direto da editora (sem uso de leis de incentivo) foi de cerca de R$ 60 mil, avalia o diretor. “Tenho vontade de fazer um ramo só para isso na Cosac Naify, mas hoje isso não é possível pelos compromissos que a editora tem”, diz Charles, adiantando que existe o desejo de fazer um projeto com o escultor Nelson Félix.

Sedutor. “A maioria dos colecionadores busca livros e documentos muito antigos, de importância histórica e política”, afirma o marchand Thiago Gomide. No ano passado, ao realizar na Galeria Bergamin, da qual é sócio, uma mostra dedicada ao segmento, surpreendeu-se, conta, com a venda de uma edição contemporânea com colagens de Beatriz Milhazes por “mais de R$ 150 mil”. “O livro é um objeto sedutor, mas o interesse é mais específico”, diz Ana Luiza Fonseca, coordenadora do espaço e editora Tijuana, braço da Galeria Vermelho, criado em 2007 para o gênero.

Na área de edição, 30 títulos já foram publicados pelo Tijuana desde 2010 – o primeiro foi Vermes, de Dora Longo Bahia, vendido, inicialmente, a R$ 500 e hoje apenas encontrado no mercado secundário por R$ 1,5 mil –, mas o local também comercializa e distribui obras de outras 18 editoras, conta Ana Luiza. “Só no ano passado conseguimos nos manter independentemente da galeria”, afirma ainda a coordenadora, adicionando nesse balanço as feiras produzidas pelo projeto.

“Creio que há um circuito em formação, mais que um mercado. Por operar sob duas lógicas, a editorial e a da arte, o livro de artista demanda um lugar que as concilie”, opina Fabio Morais. Nos acervos dos museus brasileiros, ainda é escassa a presença dessa produção, mas completando com o que diz o paulistano, um criador referencial no ramo, a produção dos livros como obras é uma forma de “atuar para além do espaço expositivo”. E de chegar a outros públicos.

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