''Edifícios são camadas de história''

Trabalhar com projetos de patrimônio histórico exige, como diz o arquiteto Pedro Moreira, uma percepção seletiva das coisas

Camila Molina, O Estadao de S.Paulo

28 de maio de 2008 | 00h00

Há cerca de seis meses, o arquiteto Pedro Moreira deu início a conversas com pessoas da equipe do Museu Lasar Segall para falar de uma possível intervenção no edifício da instituição, federal, localizada na Rua Berta, na Vila Mariana. O museu funciona na antiga residência e ateliê do artista, projetados em 1932 pelo arquiteto de origem russa Gregori Warchavchik (1896-1972), cunhado de Segall (1891-1957), nascido na Lituânia. ''Não tenho uma proposta formulada, tenho intenções que quero apresentar aos responsáveis pelo museu. A conversa com o Iphan (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional) vem depois, já que ele é o proprietário do imóvel'', afirma Moreira. ''O Museu Lasar Segall foi sendo estendido porque a família do artista, que o iniciou para manter seu acervo, importantíssimo, foi fazendo reformas e alterações para adaptar a casa'', enumera o arquiteto. Mas, como ele conta, sua primeira preocupação estava ligada à Casa Modernista de Warchavchik, construída entre 1927 e 28 no mesmo bairro. Reformada pelo russo em 1935, a primeira residência modernista da América Latina, um marco, está ''abandonada pelo poder público'' apesar de tombada pelo patrimônio histórico.''Patrimônio é questão de percepção seletiva das coisas. Há edifícios que têm muitas camadas de história e às vezes a atração deles é a existência dessas camadas. Há obras que simplesmente sofrem alterações danosas porque deturpam a concepção original da construção'', afirma Moreira. Como diz o arquiteto, a Vila Mariana, com a sinergia das duas emblemáticas construções de Warchavchik em questão (há ainda um outro conjunto de ''predinhos dele'' escondidos no bairro), é um lugar para se pensar um ''pólo modernista em São Paulo'', que representa ''uma situação específica e importante da arte brasileira no século 20, que é o modernismo e o papel do imigrante na formação cultural brasileira''. ''As coisas têm de ser localizadas numa cidade, têm de ser centralizadas'', diz ainda o arquiteto, que conta estar também envolvido, na Europa, com as discussões sobre a preservação das casas dos mestres da Bauhaus e mesmo do edifício onde funcionou a importante escola. Enfim, é preciso encontrar parceiros.LIEBERMANNTrabalhar com projetos de patrimônio histórico não envolve somente a restauração de construções, mas também ''cuidar do uso do lugar para médio e longo prazo'', como diz o arquiteto. ''Arquitetura é arte social'', afirma, ainda.O premiado trabalho do escritório de Moreira e de Nina que culminou no Museu Max Liebermann, em Berlim, foi um processo que envolveu anos de brigas políticas e feito a partir de densa pesquisa sobre a história do artista berlinense, de família rica e influente e que ''produziu uma respeitável obra pictórica e gráfica que vai do realismo de conteúdo social'' e de sua casa, com área total de mais de 8 mil m2. A residência, localizada junto ao Lago Wannsee, tem como grande atrativo o amplo jardim projetado pelo artista em parceria com Alfred Lichtwark, agora todo recuperado. Além disso, um dos destaques do restauro foi a descoberta de uma pintura mural feita por Liebermann entre 1911 e 12 e inspirada em afrescos da Villa di Livia, em Roma, que estava sob 14 camadas de tinta.Durante a 2.ª Guerra, a casa do artista judeu foi tomada pelos nazistas - o regime o perseguiu até sua morte e sua mulher se suicidou antes de ser mandada para campo de concentração - e a partir de então a construção passou por diversos processos de deturpação de seu projeto original. Primeiramente, entre 1940 e 44, se transformou em centro de treinamento para funcionárias dos Correios. Depois, em hospital - durante a guerra, o ateliê do artista se tornou sala de amputações - e Clínica Municipal de Wannsee, até 1969, além de clubes de esportes. A casa foi devolvida à filha de Liebermann em 1952, mas ela a vendeu na época para a prefeitura de Berlim. Hoje o museu, que recebe média de 1.200 visitantes por dia no verão, tem sete salas expositivas em seus quatro andares e abriga exposições com obras da coleção da família e peças emprestadas.

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