Ed Motta, o amigo sul-americano que tira tudo do seu baú

Com mais de 30 mil discos de vinil, cantor e músico carioca é referência internacional entre colecionadores e amantes do jazz

Entrevista com

, O Estadao de S.Paulo

10 de janeiro de 2009 | 00h00

Um sujeito que se tornou uma referência do jazz no País é Ed Motta. Ele foi um dos colaboradores do livro Jazz Covers, cedendo parte de sua coleção de 30 mil discos de vinil para o amigo português Joaquim Paulo. "Eu coleciono desde pequeno e sou sempre muito paranoico com os cuidados de capa, plásticos, etc", diz Motta."Tenho um respeito e carinho sem-fim pelo Ed. Já nos conhecemos há muitos anos. Ficamos em contato depois de uma primeira visita do Ed a Portugal. Até hoje somos grandes amigos. A coleção dele é gigantesca, em tamanho e em preciosidades", diz o português Joaquim Paulo. "É um prazer estar em sua casa a ouvir música, ver discos e invariavelmente a falar dos discos, do que se tem ou do que se tem de ter. Acho que partilhamos esta cumplicidade. Na construção deste livro, o Ed teve a gentileza de me emprestar alguns discos, uma contribuição preciosa. Estou, uma vez mais, grato ao meu amigo Ed."Ed Motta crê que as capas são reveladoras de um espírito de época. "As capas do ilustrador David Stone Martin mostravam o viés glamouroso dos anos 40 e 50. Já Jim Flora, um dos meus favoritos, trilhava algo semelhante ao trabalho de Saul Bass no cinema, um estética minimalista com influência da arte gráfica russa que, anos depois, até os punks usaram."Quando lhe é proposto que faça um comparação entre a arte gráfica do disco de jazz e a arte gráfica do rock, ele parece esfregar as mãos com o desafio. "Curiosa essa comparação. Quando, por exemplo, pensamos que as capas de Roger Dean eram mais barrocas, já a estética jazzística perseguia o minimalismo com gotas de Mondrian, Miró, etc. As capas da Elenco, aqui no Brasil, tinham muito disso. Cesar Villela é nosso grande designer moderno."O jazz se relacionou muito profundamente com a fotografia, com gente como William Claxton trabalhando muito próxima dos ídolos, com uma linguagem estética específica. Ed concorda com essa premissa. "Que o diga John Cassavetes no seu ótimo Shadows, com trilha do Mingus, um filme com roteiro ?jazzístico? partindo da improvisação. Visualmente, as viragens de cor nas fotografias dos selos Prestige, Riverside, Blue Note continuam a rondar a cabeça dos que trabalham com design."Para Motta e Joaquim Paulo, eleger um disco preferido, um "Rosebud", e também um disco bizarro é um exercício delicioso. "Tenho alguns Rosebuds. O mais recente foi do M?Boom Re:Percussion, um disco de prensagem privada comandado por Max Roach, apenas cem cópias, disco realmente raro. De bizarro, eu tenho os primeiros do U2", diz, rindo, Ed Motta."Há vários 10 polegadas que são raros: Miles Davis, Charlie Parker. Um disco do francês Jef Gilson, algum jazz da Europa do Leste. Eu acho que o mais bizarro é um disco do Phil Woods com músicos gregos. Ele utiliza instrumentos tradicionais da cultura musical grega e, de fato, é uma coisa muito estranha. E ainda por cima vindo de um músico como o Woods. Mas, estranhamente, depois de algumas audições o disco provoca uma sensação de grande euforia", pondera Joaquim Paulo, sobre a seleção de Jazz Covers.

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