E um dia o Brasil quis se tornar uma aranha

América Aracnídea, de Ana Luiza Beraba, aborda dificuldades de unir o continente

Francisco Quinteiro Pires, O Estadao de S.Paulo

24 de janeiro de 2009 | 00h00

Quando certa manhã Getúlio Vargas acordou de sonhos intranquilos, encontrou-se em sua cama metamorfoseado num inseto monstruoso. GV transformara-se numa aranha. Não é que de repente ele fora incluído num romance à la Franz Kafka. Essa metamorfose, nada ficcional, está registrada na História. Para ser mais preciso, Getúlio Vargas era o centro nervoso de uma aranha chamada Brasil que, dividindo espaço na mesma teia com outra aranha, os EUA, tecia os fios culturais do pan-americanismo.Os sonhos intranquilos deviam-se à 2ª Guerra Mundial (1939-1945). Depois de certo período de ambiguidade política, o governo brasileiro decidiu embarcar de vez no barco dos Aliados na luta contra o Eixo. Se durante a 2ª Guerra se iniciou o processo de americanização do Brasil, essa investida político-cultural não se deu sozinha. A fim de ser uma potência regional, o Brasil, a seu modo, contra-atacou.O ministro das Relações Exteriores Oswaldo Aranha, contrário aos nazistas e fortalecido no governo no fim dos anos 1930, jogava as suas teias diplomáticas. O Brasil teve uma atitude internacionalista com o continente americano que em nada afetou o conhecido nacionalismo do Estado Novo (1937-1945). Valia a ideia da autodeterminação dos povos no jogo com os outros países, sobretudo os EUA, promotores da Política da Boa Vizinhança.Daí a pertinência da metáfora de que Brasil e EUA seriam as duas âncoras (aranhas) do continente, usada por Cassiano Ricardo, dirigente do A Manhã, jornal oficial do Estado Novo criado em 1941 e extinto em 1948. Nele circulou o Pensamento da América, suplemento dominical de cultura que promoveu a integração intelectual dos países americanos. Suas páginas abrigaram o "espírito pan-americano", que não anulava a diversidade nacional. O modernista Cassiano Ricardo, autor de Martim Cererê, dizia que "há vinte e uma formas de ser americano, e não uma apenas".Formavam a América as seguintes repúblicas independentes: Argentina, Brasil, Uruguai, Paraguai, Chile, Bolívia, Peru, Colômbia, Venezuela, Equador, Panamá, Costa Rica, Nicarágua, Honduras, El Salvador, Guatemala, México, Estados Unidos, Canadá, Cuba e República Dominicana. Haiti, vez por outra, é citado. Não se distinguia América Latina de América Anglo-Saxônica.A circulação de Pensamento da América, fato pouco conhecido, é o tema de América Aracnídea - Teias Culturais Interamericanas (Civilização Brasileira, 224 págs., R$ 39), da historiadora Ana Luiza Beraba, de 29 anos. Pensamento da América, além de falar da relação do Brasil com outros povos, revela a condução ambígua da política por Vargas. "Ele era muito sagaz, sabia jogar, como prova a decisão tardia entre apoiar EUA ou Alemanha", diz. O então presidente mostrava sua essência enigmática, em razão da qual pode ser chamado de pai dos pobres e mãe dos ricos.Criado pelo diplomata Rui Ribeiro Couto, Pensamento da América tinha relações estreitas com o Itamaraty e os intelectuais modernistas. "O motor do suplemento era diplomático e a finalidade, política." Ele estava a serviço da ideologia oficial. Ana Luiza refuta a incoerência entre o projeto nacionalista de Vargas e o pan-americanismo do suplemento. "A questão da terra é extremamente importante para a publicação, acreditava-se que para defender o Brasil era preciso primeiro saber o que não é o Brasil", diz. "A delimitação do território era fundamental, por isso a presença forte da literatura regionalista no suplemento", completa.A atuação de modernistas não é casual. O modernismo tentou redescobrir o País e sua identidade. O governo escolheu como diretor de redação Cassiano Ricardo, modernista conservador, ícone do grupo Verde-Amarelo. O regionalismo sintetizou o conceito de brasilidade, pois unia o regional ao nacional, origem do elo entre modernistas e Estado Novo.Ana Luiza afirma que Pensamento da América refazia a imagem do continente para os brasileiros, ao mesmo tempo que o governo os bombardeava com a ideia de um novo país. As referências não estariam mais na Europa. "Ao contrário do que se pode concluir, o discurso varguista era muito coerente", afirma. Por isso não deveria causar espécie a comparação de Cassiano Ricardo entre Getúlio Vargas, Simon Bolívar e James Monroe, "os mentores do americanismo".Apesar do interesse político, o que estava em pauta, segundo Ana Luiza, era a divulgação dos valores intelectuais dos povos do continente. À semelhança do 3º Reich e dos EUA de Franklin D. Roosevelt, o Estado varguista valia-se da cultura como arma política - secretando ideias como uma picada de inseto que não arde.Pensamento da América teve três fases durante as quais o conteúdo se diversificou. Vinicius de Moraes, Manuel Bandeira, Jorge de Lima, Dante Milano, Gilberto Freyre e Cecília Meireles, entre outros, compunham a redação do A Manhã, de circulação nacional. Impressiona, segundo Ana Luiza, a modernidade da paginação que privilegiava o material iconográfico, como mapas e fotografias. Os leitores podiam, por exemplo, apreciar a reprodução dos últimos trabalhos do pintor mexicano Diego Rivera.A primeira fase, sob a direção do poeta e diplomata Ribeiro Couto, vai de agosto de 1941 a fevereiro de 1943 - Manuel Bandeira assumiu o comando durante 6 meses. Deu-se "um turbilhão de propostas e descobertas". A segunda - de março de 1943 a novembro de 1945 - é a fase da maturidade e da fertilidade. O conteúdo fica mais plural com Renato Almeida, folclorista e musicólogo. A ênfase, antes, era dada à literatura. Música, cinema, artes plásticas, geografia, urbanismo encontraram guarida. A última é a fase da agonia, do começo de 1946 a fevereiro de 1948. Temas gerais são contemplados e o nome do diretor desaparece do expediente.Durante esses 7 anos de existência, vários artistas americanos (não confundir, neste caso, americano com norte-americano) publicaram textos, entre eles Gabriela Mistral, Walt Whitman, Alfonso Reyes, Pablo Neruda, Alfonsina Storni, Jorge Luis Borges, Fernando Ortiz, William Carlos William, Aaron Copland. O leque de colaboradores brasileiros era abrangente - Oswaldo Goeldi, Murilo Mendes, Brito Broca, Lêdo Ivo, Ascendino Leite, Marques Rebelo, Manoel de Barros, João Cabral de Melo Neto, etc.Ana Luiza pesquisou a coleção do suplemento, quase completa e pertencente a Plínio Doyle, na Fundação Casa de Rui Barbosa, no Rio. Sem receber bolsa, ela usou o tempo livre para ler as 1.128 páginas do suplemento. O trabalho demorou 3 anos. Detalhe importante: Ana Luiza Beraba foi desaconselhada a fazer a pesquisa. Diziam-lhe ser "irrelevante" o contato entre Brasil e as nações vizinhas. Mas conversas com pessoas do quilate do argentino Néstor García Canclini foram incentivadoras. Depois de virar monografia de graduação da Faculdade de História da UFRJ, o trabalho de Ana Luiza foi ao livro, elogiado pelo uruguaio Eduardo Galeano, autor de As Veias Abertas da América Latina.Ana Luiza estudou cinema na EICTV, em Cuba. Desde 2003 integra a coordenação internacional do Festival do Rio. Está concluindo a pós-graduação em gestão cultural na FGV-Rio. Nas pesquisas para a pós - entrevistas com 300 espectadores do Festival do Rio de 2007 -, ela comprovou mais uma vez o desconhecimento em relação ao continente. Quando os pesquisados respondem quais são os cineastas latino-americanos que conhecem, citam Walter Salles (em primeiro lugar) e Pedro Almodóvar (em segundo). Mas Almodóvar é espanhol. E, quando pensam em cinema latino-americano, lembram-se de miséria e violência, sol e carnaval. "A cultura dos países vizinhos nos é alheia, o preconceito ainda existe", ela diz.Pensamento da América durou mais do que deveria (até 1948), pois ficara sem propósito político após Getúlio Vargas ter saído da Presidência. Isso revelaria "o prestígio" do suplemento. De 1945 em diante, artigos de interesse geral, sem identidade própria, ganharam espaço. O fim do projeto confirmou ser necessário o descobrimento real da América, apesar de Cristóvão Colombo ter chegado às ilhas das Caraíbas (Antilhas) em 1492. "Não conhecemos nem sabemos lidar com o nosso próprio talento até hoje." Essa necessidade soa mais fantástica do que o fato de o Brasil ter se transformado, um dia, numa aranha.

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